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Entrevistas

Raina Telgemeier: um mergulho na adolescência com Drama e Coragem

Autora norte-americana fala sobre as questões autobiográficas em seus álbuns e o diálogo com os jovens leitores

8 setembro 2020

No final de julho deste ano, a quadrinhista Raina Telgemeier (20/05/1977) foi laureada com dois Eisner Awards: Melhor roteirista e artista e Melhor publicação infantil, por Guts, da Scholastic Graphix. Ela tem se destacado no diálogo com o público jovem. Boa parte de seu trabalho é autobiográfico, com foco em aspectos de sua vida na adolescência. Isso, aliado a traços limpos e carismáticos, reforçam a identificação com os leitores. Nos últimos meses, dois de seus álbuns chegaram ao Brasil: Drama (Devir) e Coragem (Intrínseca).

Antes, saíram aqui Sorria (lançado originalmente nos Estados Unidos em 2010, seu primeiro álbum como roteirista e desenhista), que a mostrava em um tratamento dentário que complicava sua vida social; e Irmãs (de 2014), sobre o relacionamento com a irmã mais nova – ambos pela Devir.

Drama foi publicado originalmente em 2012. A protagonista é Callie, uma garota que trabalha nos cenários das peças de sua escola. A história é sobre sua paixão pelo teatro, enquanto vive seus primeiros amores.
Coragem, lançado nos EUA em 2019, é um retorno da autora às HQs autobiográficas. Ela fala dos muitos medos que sentia em determinado momento da adolescência, que se refletiam em dores físicas e se revelaram problemas de ansiedade.

Nesta entrevista, Raina fala sobre os dois novos volumes lançados no Brasil, sobre teatro, diversidade e narrativa.

Universo HQ: O seu trabalho é conhecido por temas autobiográficos, como em Coragem. Drama não é exatamente baseado em sua própria vida, mas há algo que você viveu nele?

Raina Telgemeier: Parte do meu trabalho é baseada em histórias verdadeiras, mas gosto de dizer que Drama foi "inspirado" por verdadeiras amizades e minhas aventuras como uma nerd de teatro. Portanto, a história de Callie não é minha, mas ela e seus amigos têm muito em comum com boas lembranças que tenho da adolescência.

UHQ: Fale, então, sobre este seu interesse em teatro.

Telgemeier: Eu adorava musicais e peças de teatro quando era criança, mas realmente me interessei por teatro no middle school (nota: mais ou menos equivalente ao Ensino Fundamental II brasileiro), quando entrei para o programa de atuação que acontecia depois das aulas.

Nós escrevemos e produzimos peças. E continuei, no ensino médio, participando dos musicais da minha escola. Também houve jogos de improvisação nas fogueiras das escoteiras, um monte de canções bobas com meus amigos do coral, filmagens de vídeos para projetos de classe e várias outras desculpas para ficar na frente dos outros e só se divertir.

Drama veio na época em que vivi em Nova York, o que significava que eu tinha acesso regular a shows da Broadway e apresentações musicais, e tudo isso moldou o mundo e os interesses dos personagens da história.

UHQ: E por que resolveu mostrar a personagem principal como cenógrafa? Não é comum para um protagonista, concorda? O mais usual, numa história sobre o teatro, é o personagem principal ser um ator, diretor ou até escritor. O fato de a cenografia ser uma atividade mal abordada na ficção foi um motivo?

Telgemeier: Sim, muitas histórias se concentram nos personagens que aparecem no palco ou na frente de uma câmera. Quando eu estava no teatro da escola, havia muitas interações engraçadas e interessantes com as crianças nos bastidores, trabalhando com roupas e acessórios, maquiagem e iluminação.

Percebi que todos nós tínhamos que trabalhar duro, juntos, para realizar um show, mas o público não conhece os bastidores. E pensei que seria divertido focar nessas experiências e dramas. Eles também são os heróis de suas próprias histórias.

UHQ: Em uma das cenas, na livraria, Callie mostra a Jesse um livro sobre a história da cenografia na Broadway, e os personagens entram dentro das páginas. Uma bonita cena. É uma referência real? Este livro existe mesmo?

Telgemeier: Ele não existe, realmente, mas gostaria que existisse! É uma edição de grande formato e capa dura, com fotos de cenários de teatro antigos. O tipo elaborado em que você pode sonhar em entrar, como os personagens fazem na cena.

UHQ: Drama foi muito comentado pelo tratamento dado aos personagens LGBTQIA+. Como você pensa esta questão?

Telgemeier: Fico triste ao saber que o fanatismo e a discriminação estão vivos e passando bem em nosso mundo. Todas as crianças merecem se ver na mídia, e tentei escrever histórias e personagens que refletem a diversidade da comunidade em que cresci. Tive a sorte de ter amigos de muitas cores, formas, religiões, classes econômicas e identidades na minha vida.

UHQ: Sorria foi seu primeiro trabalho como roteirista e ilustradora. E saiu primeiro como webcomic. Como você vê a internet e o meio impresso para os artistas de quadrinhos hoje?

Telgemeier: Comecei o Sorria em 2004, antes de ter uma editora nos EUA. Eu não tinha certeza de onde minha história terminaria e como a colocaria nas mãos dos leitores, mas tentei não me preocupar com isso e me concentrei em criar algo pelo qual eu era apaixonada.

Atualmente, existem muitas opções para que histórias de todos os tipos cheguem aos leitores, seja impressa, seja on-line ou em uma plataforma digital. Os criadores de hoje têm sorte e os leitores ainda mais!

UHQ: Imagino que você receba muitos retornos dos leitores que se identificam com os personagens e as situações de suas histórias, principalmente nas mais autobiográficas, como Coragem. Isso ainda é algo que impressiona você?

Telgemeier: Sim, porque a época da minha vida que inspirou essas histórias foi há mais de duas décadas. O tempo passou, mas as crianças continuam as mesmas. Eu amo isso.

UHQ: Muitos quadrinhos atuais, especialmente os autobiográficos, fazem uso excessivo de recordatórios em quase todos os quadros. Seu trabalho não é assim: tanto em Drama quanto em Coragem, você recorre muito à construção das cenas, quase sem textos explicativos e sempre com diálogos naturalistas. Quais são suas ideias sobre a narrativa dos seus trabalhos?

Telgemeier: O que mais gosto nos quadrinhos é a interação entre palavras e imagens. Legendas e narração servem a um propósito, mas quero que o meu leitor sinta que está ali com o personagem da história. Isso permite um papel mais interativo na leitura, e que o leitor chegue a algumas de suas próprias conclusões. Além disso, a arte faz muito do trabalho pesado!

UHQ: Muitos artistas desenham digitalmente, mas você continua trabalhando no papel. Qual o motivo?

Telgemeier: Venho trabalhando no papel a vida toda, e gosto da qualidade tátil. O cheiro, a textura, a capacidade de olhar de perto!

UHQ: No futuro, você escreverá mais memórias como Sorria, Irmãs e Coragem ou trabalhará sobre outros personagens mais fictícios, como Drama, Coragem e Ghosts (o último inédito no Brasil)?

Telgemeier: Espero que em ambos!

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