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Mulher-Maravilha 1984 resgata um pouco de positividade em 2020

22 dezembro 2020

Nono filme do recente universo cinematográfico da DC (contando a partir de O Homem de Aço, em 2013) Mulher-Maravilha 1984 chegou às telas brasileiras após vários adiamentos para não concorrer com franquias de peso e, claro, devido ao fechamento dos cinemas durante a pandemia do Covid 19.

O lançamento, em dezembro de 2020, foi o primeiro de uma série de estreias de grandes filmes da Warner Bros. que serão lançados simultaneamente nos cinemas e no serviço de streaming HBO Max. Como esta plataforma não está disponível no Brasil, o novo filme de Diana Prince estreou normalmente nas telas grandes.

O primeiro longa-metragem em live action da heroína foi bem recebido em 2017, o que, obviamente, gerou bastante expectativa sobre esta sequência. Felizmente, ela está à altura da personagem.

Os elogios começam com a protagonista. Gal Gadot conquistou o público com seu carisma, mesmo não sendo uma grande atriz. Nesta sequência, há uma boa evolução de seu trabalho que, mesmo abaixo do nível dos outros atores com quem contracena, ainda exala uma aura cativante. É fácil gostar dela.

Desta vez, Diana trabalha como antropologista no Instituto Smithsonian, na capital dos Estados Unidos, ao mesmo tempo que veste o manto de heroína para combater o crime, mas procurando se manter incógnita, se possível. Ela logo conhece a insegura Barbara Ann Minerva (Kristen Wiig), nova funcionária do local, a quem conquista por ser a primeira que dá devida e digna atenção à colega. Assertiva, gentil, popular e confiante, Diana ganha imediata admiração de Barbara.

A trama engata a segunda marcha quando uma tentativa de roubo a uma joalheria revela antigos artefatos comercializados clandestinamente. E um deles é a Pedra dos Sonhos. Ainda alheias às propriedades mágicas do achado, as duas acabam, inadvertidamente, fazendo desejos. Tudo isso acontece enquanto Maxwell Lord (Pedro Pascal), famoso homem de negócios, tenta se aproximar de Barbara com fins escusos.

Sem enrolação, o roteiro apresenta os dois antagonistas do filme de forma eficiente e sem pressa. A transformação de Barbara durante seu arco narrativo é cheia de metáforas visuais eficientes; da insegura e bondosa mulher à implacável fera, ela vai perdendo sua humanidade em direção a algo primal, resultando na vilã Mulher-Leopardo. Méritos de Wiig, que traz à tona essas duas distintas facetas com louvor, humor, ferocidade e – o mais importante – humanidade.

Pascal é outro que se destaca. Podendo mergulhar num personagem levemente excêntrico, ele não hesita em usar seu carisma com certo exagero, o que funciona como elemento que ajuda o filme a transpirar a década de 1980, com seus vilões igualmente hiperbólicos.

Os anos 1980, aliás, estão em cada quadro desta obra. De carros e roupas a temas piegas que funcionaram tão bem em filmes da época, este longa traz 1984 para 2020 de várias formas. Pena que a música não acompanha, mesmo com o bom trabalho de Hans Zimmer em criar trechos eletrizantes, há poucos elementos que remetem à esta década de fato.

Todavia, há uma inocência que permeia a película que não só acerta espectadores de certa idade em seus corações nostálgicos, mas que condiz com as mensagens que procuram enaltecer o espírito da heroína.

A pieguice cresce muito quando Steve Trevor (Chris Pine) volta para a vida de Diana. Apesar de ter morrido no primeiro filme, seu retorno até faz sentido dentro da história, ainda mais quando se considera sua função de coadjuvante. Tendo papel vital na evolução do arco narrativo da protagonista (e vice-versa), o piloto não está lá apenas para que haja um par romântico gratuito com atores atraentes, mas sim para desafiá-la e apoiá-la sem perder sua individualidade. Sem contar que a química entre Gadot e Pine continua tinindo, rendendo momentos de ternura tão naturais que facilmente conquistam.

Vale notar também que o roteiro inverte o humor advindo de ter um personagem num lugar onde ele desconhece muito da nova realidade em que se encontra. No primeiro filme, por exemplo, Diana se encantava com um simples sorvete; neste, é a vez de Trevor ficar impressionado com a moda impactante da época. Aliás, o ator recebe a chance de usar um pouco de seu talento cômico, costumeiramente entregue com ótimo timing, e não decepciona.

Um fato que pode surpreender: não há muitas cenas de ação. Isso, porém, se revela um acerto, pois a diretora Patty Jenkins procura, a todo momento, tornar a índole de sua protagonista o foco da trama. Ao investir mais em Diana Prince do que na Mulher-Maravilha, cria-se um vínculo emocional mais duradouro do que um oriundo de testemunhar grandes façanhas físicas.

Além disso, quando a ação acontece, é de encher os olhos. A sequência de perseguição de veículos militares tem momentos de derrubar queixos, e as lutas estão com coreografias e efeitos especiais melhores. Méritos de Jenkins, que soube esconder melhor o CGI, e trazer bom dinamismo e criatividade quanto às habilidades da heroína (há homenagens a encarnações da personagem em outras mídias até).

Se o primeiro filme recebeu muitas – e corretas – críticas a seu fraco terceiro ato, é inegável que Jenkins e companhia as levaram em consideração. Pode não ser maravilhoso, mas representa o objetivo da diretora de enaltecer a alma de sua protagonista e de louvar sua capacidade de inspirar as pessoas – sempre uma qualidade marcante para qualquer herói. Mesmo assim, ainda é uma mão pesada que tira um pouco do impacto do clímax da trama.

Há outros quesitos em que o roteiro mostra suas falhas, como a inclusão da armadura dourada anunciada em trailers e cartazes. Ela não tem o efeito pretendido e causa a impressão que só está lá para vender mais estátuas e brinquedos. Difícil ignorar, também, que Diana exibe uma nova habilidade que inicia uma cena memorável, mas que é sumariamente ignorada pelo resto do longa.

A volta de Steve Trevor deveria levantar questões morais e éticas sobre as consequências na vida de uma pessoa envolvida nesse retorno e elas nunca são sequer abordadas; e uns 20 minutos a menos teriam feito maravilhas com o ritmo da narrativa.

Ainda assim, o saldo é bastante positivo. Com uma cena no meio dos créditos que é absolutamente imperdível, Mulher-Maravilha 1984 é um filme leve, que consegue tecer comentários sobre luto, capitalismo, relacionamentos abusivos, perdão, nostalgia, dignidade e verdade; ao mesmo tempo que procura, a todo momento, enobrecer sua heroína como uma figura inspiradora e humana. É brega, mas bons sentimentos costumam ser.

Mulher-Maravilha 1984
Duração: 151 minutos
Estúdio: Warner Bros.
Direção: Patty Jenkins
Roteiro: Patty Jenkins, Geoff Johns, Dave Callaham
Elenco: Gal Gadot, Chris Pine, Kristen Wiig, Pedro Pascal, Robin Wright, Connie Nielsen

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