Confins do Universo 126 - Dando cores aos quadrinhos
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Artistas do Brasil e de outros países são vítimas de golpe internacional

Um projeto (falso), chamado AvantHunt, lesou dezenas de profissionais do mundo inteiro, e os farsantes seguem em ação

19 março 2021

Os desenhistas Bräo (pseudônimo de Abraham Aguiar) e Octavio Cariello foram vítimas de um sofisticado golpe internacional, num projeto que se chamaria AvantHunt. E não foram os únicos. Mais de 50 desenhistas do Brasil e de outros países foram apanhados nessa fraude.

Um ou mais golpistas estão fingindo ser várias pessoas, utilizando o nome de algumas empresas e personalidades do mundo da moda e dos quadrinhos. A mesma estratégia está sendo usada para ludibriar ilustradores de diversos países.

A tramoia já está sendo investigada pela polícia na Bélgica e os advogados de outros envolvidos em dois outros países também estão tomando as medidas cabíveis.

O Universo HQ fez uma longa entrevista com Bräo e Cariello, e teve acesso a contratos, páginas de quadrinhos, ilustrações e dezenas de e-mails entre os dois e os falsários – e até advogados.

Tudo começa com o alvo. Um artista é escolhido, possivelmente depois que seu trabalho é visto nas redes sociais ou em sites especializados. Os trapaceiros estão familiarizados tanto com as empresas e nomes do mundo da moda quanto dos quadrinhos.

A Isca

Um contato inicial é feito com o artista oferecendo um trabalho relativamente simples, oferecendo um risco financeiro pequeno.

Em 5 de agosto de 2020, Bräo (de Cornücópia, Diva Satänica, Vermilliön e Bad Wömen) foi procurado por uma pessoa se fazendo passar por Timotej Letonja, que se dizia editor-chefe da revista Numéro Netherlands, que é a versão holandesa de um famoso título francês.

No e-mail, a pessoa disse ter se interessado pela arte de Bräo, após um colega ter visto uma de suas HQs.

Até onde o Universo HQ apurou, Timotej Letonja é uma personalidade do mundo da moda holandesa, tem relação com a revista, mas aparentemente não é a pessoa que contatou Bräo.

Arte de Bräo Arte de Bräo

O falso Timotej Letonja enviou um e-mail, em inglês, oferecendo um trabalho. Segundo ele, seria um especial para o próximo número da revista, na linha da Heavy Metal, com vários estilos de ilustrações, incluindo desenhistas de HQs de vários gêneros, incluindo mangás, personagens originais, artes mais provocativas e até pornográficas.

A oferta envolvia duas páginas, que seriam ocupadas por até oito ilustrações. Segundo Bräo, esse tipo de proposta é frequente.

O brasileiro respondeu alguns dias mais tarde, em 10 de agosto. Queria saber se o trabalho era pago ou se seria uma permuta em troca de espaço promocional para o site e as redes sociais do artista.

A resposta do falso Timotej Letonja veio no mesmo dia. Segundo ele, muitos artistas já haviam se comprometido de graça e, por isso, ele não estava oferecendo dinheiro. Mas enumerava alguns participantes e as "vantagens" em participar.

Segundo ele, participariam: o japonês Kamio Tomonori, o francês Olivier Vatine, além de outros “mestres” dos países de ambos.

Tomonori e Vatine também foram fisgados pelo golpe. Embora Vatine tenha descoberto a fraude relativamente cedo, seu nome e suas artes ainda estão sendo usados para impressionar outras vítimas em potencial.

As vantagens seriam: Bräo estaria no bloco principal da publicação, com destaque para seu nome e contatos, promovendo seu trabalho junto ao público e aos anunciantes da revista. “Pela minha experiência, isso traz muitas ofertas de trabalho para qualquer artista”, escreveu o falso Timotej Letonja.

Além disso, Bräo permaneceria com os direitos do trabalho. Os originais seriam vendidos numa exibição de arte/leilão e todos os fundos arrecadados seriam enviados para os artistas participantes.

Detalhe: o contato foi feito em nome da Numéro, mas usando uma conta do Gmail. Além disso, o falso Timotej Letonja também fez uso do endereço e do telefone de uma empresa que oferece trabalhos de criação, localizada em Amsterdã, na Holanda, mas que não corresponde à Numéro, nem parece ser vínculos com a revista.

O Universo HQ verificou que a Numéro Netherlands possui outro endereço na Holanda.

Bräo tinha diversas dúvidas quanto ao trabalho. O endereço do Gmail era um pouco estranho, mas não era (ainda) um grande sinal de alerta. Nesse momento, ele não chegou a verificar o telefone e o endereço. E isso favorecia a narrativa contada pelo falso Timotej Letonja.

O uso do nome de uma pessoa estabelecida, com credenciais no mercado, serviu para dar credibilidade ao falso contato e "fisgar o peixe”. Uma busca rápida no Google encontra diversos perfis de Timotej Letonja e sua relação com a revista Numéro Netherlands.

Bräo só respondeu no dia 24 de agosto, dizendo que ainda tinha interesse no projeto, e aguardava informações de como prosseguir.

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O Golpe

Com o artista interessado, começava o trabalho mais sério de “engenharia social”. O nome Timotej Letonja foi abandonado e quem respondeu, com o mesmo endereço de e-mail, é o golpista, usando a identidade de Jonathan Heatherly.

Heatherly explicou que Timotej Letonja se afastou por razões pessoais e falta de experiência na esfera das HQs. Como credencial, informou que foi editor do selo Helix, da DC Comics, no início dos anos 2000.

O selo Helix existiu entre 1996 e 1998, e o Universo HQ não encontrou nenhuma referência ao nome Jonathan Heatherly (e nem variantes desse sobrenome) ligado a essa marca ou à DC Comics.

Após dar uma credencial falsa sobre seus "méritos" nas HQs – e assim aumentar a ilusão de veracidade do projeto –, Heatherly se disse grato pelo interesse de Bräo, e fez diversos elogios ao desenho e o estilo do artista.

Ele explicou que assumiu a supervisão de tudo e o projeto se ampliou nas últimas semanas. Ele seria dividido em duas partes. A primeira, na revista com ilustrações, e a segunda, numa graphic novel cujo conceito e o roteiro foram feitos por nomes relevantes dos quadrinhos e que seria financiada por grandes marcas da moda.

A primeira parte do trabalho foi o design de personagem reinterpretando a protagonista criada para o projeto, que se chama AvantHunt, e artes baseadas em descrições curtas dos escritores – que, até aqui, continuavam sem ter seus nomes revelados. Essas ilustrações seriam feitas como permuta.

Para a segunda parte, Heatherly continuou com os elogios e ofereceu um contrato que incluía pagamento ou até porcentagem das vendas.

A assinatura diz que ele é diretor de projetos especiais da Numéro Magazine em Paris. Ele escreve em inglês, mas seu e-mail identifica seu título em francês como “Directour (deveria ser Directeur) des Projets Spéciaux – Numéro Magazine”, inclui endereço da revista na capital francesa e até mesmo o link do Google Maps para encontrar o local. O endereço existe e corresponde ao da revista.

No dia seguinte, Heatherly insistiu numa resposta.

Bräo respondeu com interesse, solicitou mais detalhes sobre prazos e pediu para ver o roteiro ou a sinopse.

A resposta foi quase imediata. Heatherly enviou um e-mail com o conceito da personagem, cunho nome seria Anisha Ansie. Segundo ele, os significados seriam: Anisha – “Light in the darkness”; Nisha – “Night/Death”; Ansie – “Gifted, cunning. E disse que o projeto se chamaria AvantHunt.

De acordo com Heatherly, o conceito e roteiro foram desenvolvidos pela Sra. Ewing, mas nenhuma outra explicação ou crédito foi acrescido ao nome.

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Este conceito é fortemente carregado de referências às HQs estadunidenses, como em personagens como Satana Hellström (da Marvel Comics); Sandman, Lúcifer Morningstar e Spider Jerusalém (de Transmetropolitan), do selo Vertigo, da DC Comics.

A HQ se passaria em várias épocas: no passado (Egito, Japão feudal), presente (onde a protagonista teria conversas com ícones da moda, como Karl Lagerfeld, Yohji Yamamoto e Azzedine Alaïa) e um futuro cyberpunk nos moldes de William Gibson.

Ainda no conceito, a escritora sugeria procurar quem desenhasse como Chris Bachallo (cujo nome foi grafado errado, o correto é um só “L”), devido a seu trabalho em Morte – O alto custo da vida), J. Scott Campbell ou até no estilo de Tsutomu Nihei.

As ilustrações deveriam ser entregues em 15 de setembro, para publicação em outubro. E a HQ, de 38 páginas, em 10 de novembro.

Além disso, enviou anexo um roteiro (sem crédito de autoria) para AvantHunt – Volume 1 – The Freelancer, nove ilustrações de artistas diferentes, muitas delas sem assinatura (material de Olivier Vatine, inclusive), com versões de Anisha Ansie.

O golpista aproveitou para elogiar a qualidade da HQ Vermilliön, de Bräo, citando a atenção aos detalhes e às roupas – sempre frisando que a moda é parte fundamental do projeto e que grandes nomes, como Yohji Yamamoto, Issey Miyake e Rick Owens, estariam ligados ao projeto. Qual seria o envolvimento deles não foi especificado.

Nem é preciso dizer que Yohji Yamamoto, Issey Miyake e Rick Owens não têm relação com o projeto.

A troca de e-mails continuou entusiasmada, tanto sobre os detalhes técnicos (se o trabalho seria preto e branco ou colorido e qual o valor por páginas), quanto no interesse por participar de tudo aquilo.

Novos detalhes foram então revelados: o projeto seria para maiores de idade; a HQ seria a piloto de uma série de dez volumes; e a escritora Eve (anteriormente mencionada como Sra. Ewing) já estaria terminando o segundo roteiro de 70 páginas.

Sobre a publicação, que Heatherly afirmava ser “top level NDA (Non-Disclosure Agreement)”, seriam volumes de 100 páginas em capa dura, tamanho A3, distribuídos em butiques das marcas de Owens, Yamamoto etc. Tiragem estimada de três mil exemplares.

O primeiro livro incluiria a HQ, diversas ilustrações e cadernos de marcas participantes. Os volumes seguintes seriam compostos de 90% de quadrinhos. O valor de capa ainda estaria sendo discutido, mas ficaria entre 70 a 100 euros por edição.

O golpista também acrescentou informações técnicas para as ilustrações feitas para a edição “Numéro Paris Special Issue”.

E pediu alguns sketches da protagonista. Bräo fez os diversos esboços de Anisha Ansie, e recebeu comentários e sugestões de modificações. O rosto deveria ter feições “africanas/angolanas”.

Heatherly era sempre educado, amistoso e generoso com algumas informações. Fazia muitos elogios, mostrava ilustrações de outros artistas ou outros volumes de AvantHunt. Ao longo da correspondência, se identificou como um escocês que vive entre Lisboa, em Portugal (mas não fala português), e Paris, na França. E também reclamava de dificuldades atuais, devido à pandemia e ao Covid-19. Ele ofereceu, inclusive, um número telefônico com prefixo de Portugal. Mas ambos optaram por se comunicar por e-mail.

Finalmente, começou a discussão do pagamento e do contrato. Após um preâmbulo, no qual disse que o financiamento estava mais devagar em função da pandemia, Heatherly perguntou qual o preço por página de Bräo ou se ele preferia uma porcentagem do valor total de venda (25% como coautor do primeiro volume e 8% como supervisor visual dos seguintes). Ele chegou até a informar que a escritora receberia 15%, e que ele mesmo ganharia apenas sobre os anunciantes.

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Os dois chegaram a um acordo e o contrato começou a ser formulado. Ao mesmo tempo, Heatherly sugeriu que Bräo poderia ser o desenhista do terceiro volume e pediu para que ele encontrasse um letrista e um colorista para o projeto.

A troca de e-mail continuou. Bräo enviou layouts das primeiras páginas da HQ e os sketches das poses das possíveis ilustrações. Heatherly contou que Kamio Tomonori seria o desenhista do segundo volume. Mas, na verdade, quem acabou fazendo o trabalho (e tomado o prejuízo) foi Danny Kim, da Coreia do Sul.

Nesse ponto, Bräo contatou Octavio Cariello, que aceitou participar do projeto, como letrista e colorista, e também passou a negociar seu trabalho com Jonathan Heatherly.

Então, Heatherly mencionou discretamente que "Eve e Warren" teriam terminado o roteiro do segundo volume. Foi a primeira alusão ao nome de Warren Ellis.

O verdadeiro Warren Ellis não tem nenhuma relação com o projeto, mas seu nome foi usado como um consultor/supervisor. Ele foi sempre citado no corpo do e-mail ou numa mensagem em forward, com o cabeçalho de e-mail reconstruído, para simular que tinha sido enviada pelo domínio correto do roteirista.

Então, surgiu o primeiro contrato e mais uma surpresa: três empresas participavam do projeto: Numéro Paris, Casterman e BMS Publishing. O contrato de uma página era excepcional, muito mais generoso do que de costume para o artista.

Quem assinava pelas três empresas era Frederique Kalais. Neste documento, o nome é grafado sem acentos. Nas correspondências futuras, passou a ser escrito com os devidos acentos.

Cariello recebeu contrato similar pertinente ao seu trabalho, com os mesmos envolvidos. As datas de pagamento e outros pequenos acertos foram sendo resolvidos por e-mail, fora do contrato.

Finalmente, Heatherly colocou Bräo em contato com a suposta Eve Ewing, via e-mail.

A verdadeira Eve Ewing é uma escritora, poetisa e socióloga, com diversos diplomas e muitos prêmios pela sua obra. Ela escreveu para a Marvel Comics a série Ironheart.

O nome de Ewing foi usado pelos golpistas, mas a escritora não tem relação com o projeto AvantHunt. Ela chegou a fazer postagens no Instagram e outras redes sociais denunciando o golpe e está sendo representada legalmente por advogados da Marvel Comics nessa situação.

Mas, até esse momento, Bräo e Cariello não sabiam disso.

O trabalho progrediu sob a confiança do contrato. As artes foram enviadas por e-mail ou transferidas para um drive do Google. Heatherly seguiu com um contato regular, sempre amistoso, fazendo pequenas confidências, animado com o projeto e elogiando os artistas.

Bräo fez perguntas sobre os participantes do projeto e Heatherly respondeu com as seguintes informações: Eve Ewing (criadora do conceito e roteirista), Warren Ellis (consultor do projeto), Dai Shimata (editor da revista Numéro Tokyo), Chloe Calmeau (editora de moda da Numéro Paris), Kamio Tomonori (artista/animador da Godtail Studios), Kim Dae-Yeon (artista/animador da SHAFT Studios), Frédérique Kalais (diretora financeira, em teoria assinando pelas três empresas envolvidas, embora aqui não esteja especificado qual companhia ela representava) e Jonathan Heatherly  (produtor-executivo, consultor e “faz tudo”).

Como já ficou claro, os nomes foram usados por Jonathan Heatherly para dar credibilidade ao golpe. Alguns nem existem, como Frédérique Kalais (independentemente de ser ou não grafado com os acentos corretos).

Bräo e Cariello sempre tiveram dúvidas quanto à legitimidade do projeto, por acharem algumas coisas ligeiramente estranhas ou duvidosas, mas sem nenhum grande sinal de alerta. E essa desconfiança acabava ficando para trás diante do interesse e da escala da obra. Para ambos, o teste final seria o primeiro pagamento.

O trabalho continuou com entusiasmo e até com uma certa amizade com o golpista.

Em 29 de outubro, contudo, Bräo cobrou o atraso do primeiro pagamento. Jonathan respondeu no dia 3 de novembro: “(…) a semana foi difícil por causa da situação da pandemia, em Paris”. Ele afirmou já ter conversado com a pessoa responsável na Casterman e disse que a expectativa era que ele recebesse duas transferências.

Em 6 de novembro, nova troca de e-mails curtos. Bräo pergunta se Heatherly tem alguma notícia do pagamento. A resposta foi que estava previsto para o dia 7. Logo em seguida, entretanto, já emendou outro assunto, perguntando sobre o trabalho de Cariello, pois ainda não estava com o arquivo dos letristas.

Nesse mesmo dia, Jonathan Heatherly encaminha um e-mail supostamente enviado para ele por Frédérique Kalais, em um francês correto (o primeiro nesse idioma) e até um pouco formal, pedindo desculpas pelo atraso.

O cabeçalho do e-mail parecia vir da Casterman, mas uma análise um pouco mais atenta já revelava que o endereço foi reconstruído.

E assim se estabeleceu um padrão para esticar o assunto. O golpista sabia que aquele era o momento crítico. Quando o pagamento não chega, existe um limite para atrasos e desculpas antes de o artista parar de trabalhar ou investigar com mais atenção tudo aquilo.

Quem já desenhou para empresas estrangeiras, sabe que existem atrasos, burocracias, problemas de banco e de câmbio, impostos e outras coisas que às vezes fogem do controle dos honestos e bem-intencionados. Mas, ao mesmo tempo, isso funciona para que os farsantes se aproveitem dessas desculpas.

O atraso teria sido do banco na França, em função da pandemia. Comprovante de depósito falso.

Enquanto isso, os dias foram passando e Heatherly cobrou as artes das páginas em alta que ainda não estavam no drive, e fez perguntas sobre a saúde de familiares de Bräo, em função do Covid-19.

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Dez dias se passaram, e nada de pagamento. Outra troca de e-mails. Heatherly mostrou-se preocupado com o problema, pois também não teria recebido o depósito dele. Garantiu que ligaria para Kalais para saber o que estava ocorrendo. A desculpa, desta vez, estava ligada ao processo de cobrança de imposto do ISBN do livro. Mais três dias de atraso.

A essa altura, já era começo de dezembro. Durante mais de dois meses, Bräo trabalhou oito horas por dia exclusivamente para o projeto AvantHunt. Além de não receber nada, gastou aproximadamente R$ 800,00 de papel, material de desenho e pintura etc.

Em 2 de dezembro, Bräo fez uma cobrança mais incisiva, delineando suas dificuldades financeiras e cansado das desculpas. Em um tom de confidência, Heatherly lamentou ter feito a parceria com a Casterman, reclamando da burocracia e do financiamento lento.

Ao mesmo tempo, afirmou que já houve um aporte de 430 mil no projeto – baseado na "confiança que os investidores do mundo da moda teriam nele" –, mas que o valor estaria congelado aguardando uma resolução sobre alguns impostos.

Sem nenhuma resolução, Bräo sugeriu que ele mesmo contatasse Kalais diretamente. Heatherly desconversou. A cada e-mail, o farsante parecia estar se distanciando da Casterman, inclusive sugerindo que o valor seria pago via um banco nos Estados Unidos, com valores sobre o controle dele e de Ellis. A promessa, então, era para dia 15 de dezembro.

No dia 14 de dezembro, mais um e-mail, afirmando que a segunda transferência havia sido feita. A primeira continuava “congelada”, aguardando a resolução de algum impedimento burocrático misterioso.

O dia 15 chegou, e nada aconteceu. Bräo escreveu um e-mail mais duro, mas ainda educado e amistoso, delineando suas dificuldades e preocupações. Ele queria ver alguma comprovação das transferências, algo que pudesse ser verificado pelo seu banco no Brasil.

Isso porque, naquele momento, o artista estava em dificuldades financeiras, pagando juros no crédito do cheque especial e pensando em um empréstimo. Também não pegou outros trabalhos como freelancer e, portanto, não tinha nenhuma renda imediata para aliviar sua situação.

Além disso, existe a situação do imposto sobre valores advindos do estrangeiro, se a soma fosse recebida de uma só vez no início do ano seguinte. Dependendo dos valores e das datas de recebimento, segundo o banco, o imposto que Bräo teria que pagar passaria de 3% para 8%.

Apesar de tudo, ele continuava interessado no trabalho, mas havia um medo real de tomar o calote. A possibilidade de que se tratava de um golpe maior ainda não estava concretizada em sua mente de autor.

Mas, a partir daí, as respostas ficaram breves e estranhas. Heatherly afirmou ter requisitado detalhes das transferências para a Casterman; enviou uma mensagem a Angela Cheng, a “agente” de Warren Ellis, que aparentemente faria algum tipo de transferência naquele mesmo dia, no horário da Costa Oeste.

Angela Cheng existe e realmente trabalha com Warren Ellis, mas não como agente. Ela gerencia o trabalho do escritor. Em momento algum Heatherly deixa claro por qual razão Warren Ellis pagaria algum tipo de valor para Bräo, em relação a uma dívida que existia num contrato supostamente firmado entre Casterman, Numéro magazine e BMS Publishing. Muito menos por que isso seria feito usando um banco dos Estados Unidos.

Mais uma vez, vale reiterar que os nomes da Casterman, Numéro Magazine, Warren Ellis e Angela Cheng foram usados indevidamente nessa farsa. O Universo HQ não conseguiu averiguar se a empresa BMS existe e, caso realmente exista, se está envolvida no golpe ou foi usada como as demais.

Em seguida, Jonathan Heatherly disse estar hospitalizado, com febre. A suspeita de estar com Covid foi a desculpa para seus atrasos, a brevidade de seus e-mails e para inspirar tolerância e simpatia no artista brasileiro. Ele ignorou os pedidos de Bräo de contato direto com Kalais.

Por outro lado, continuou conversando sobre o projeto. O nome foi trocado. De AvantHunt virou AVNT. Chegou a dar exemplos dos nomes de outros volumes: The Jetsetter, The Influencer, The Outsider etc.

Em 22 de dezembro, Heatherly se disse comiserado com a situação de Bräo. Aceitou sem problemas que o terceiro volume fosse postergado, uma vez que o brasileiro pegou outros serviços para pagar suas contas.

O golpista continuou culpando a Casterman, dizendo que Kalais só estaria em Paris em 28 de dezembro e mencionando o pagamento via Cheng e Ellis.

Durante todo o processo, Bräo pediu o número SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) usado para transferências internacionais (que para todas as supostas transações ou veio errado ou nem foi oferecido). Quando ele sugeriu outros métodos de pagamento, como o Transferwise, isso foi descartado como sendo "muito moderno" para Heatherly.

Os e-mails continuaram. O pagamento não veio. 2020 terminou e começou 2021. Quem mudou foi Bräo, agora convencido que tomara um calote, mas continuou insistindo tanto nos comprovantes de pagamento, quanto no contato direto com o pessoal da Casterman. O autor parou de trabalhar no projeto, mas seguiu empurrando a situação para ver até onde a coisa iria, e para não perder o contato com Heatherly.

No decorrer de todos esses meses, o contato com Heatherly sempre foi muito amigável, mais de amigo do que parceiro de trabalho. Ele se entusiasmava com o projeto, elogiava os artistas, simpatizava com suas dificuldades, ficava envergonhado da burocracia e das dificuldades e demonstrava toda uma gama de emoções, sem nunca ficar bravo, irritado ou fazer qualquer tipo de ameaça. Estava sempre ali, presente.

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A inquietação original de Bräo foi crescendo, tornou-se quase uma certeza inevitável de que tomaria um calote e ficaria no prejuízo.

Bräo conversou com o desenhista Danny Kim, da Coreia do Sul, e ambos se surpreenderam e ficaram preocupados porque ninguém estava sendo pago.

Octavio Cariello descreveu situação similar em seu relacionamento com Heatherly. Ele também não recebeu pelo trabalho de letrista. Só não tomou prejuízo como colorista porque, devido a uma situação pessoal, precisou abandonar o trabalho antes de começá-lo.

A única vez que Bräo se irritou e teve uma pequena rusga com Heatherly foi após a entrega das últimas páginas do primeiro volume de AVNT, quando o golpista lhe mostrou um PDF da HQ finalizada, com letras e algumas páginas extras com logotipos de parceiros.

O acabamento era, no mínimo, porco, sem nenhum projeto gráfico. Para piorar, várias das artes de Bräo haviam sido alteradas de maneira grosseira, sem o seu consentimento.

Mas até mesmo essa divergência foi apaziguada com o uso da engenharia social, promessas futuras e o vínculo de amizade e confiança construído pelo golpista.

Depois de tanta insistência pedindo um contato de Kalais, Heatherly acabou enviando um endereço de e-mail real da Casterman, como se fosse da responsável financeira do projeto AVNT.

A (verdadeira) Casterman respondeu que não conhecia o projeto, não existia um ISBN relacionado a esse projeto e não havia Frédérique Kalais na empresa.

A conversa entre Bräo e a Casterman passou para o setor jurídico da empresa, que está investigando tudo e tomará uma ação legal contra os golpistas.

Finalmente, caiu a ficha de que não se tratava apenas de um calote, mas de um golpe inacreditável, envolvendo muita gente.

A descoberta

Com a farsa descoberta, aos poucos os bastidores foram se revelando. Com muita insistência, Bräo conseguiu falar com a equipe de Eve Ewing, que não apenas não tinha nenhuma relação com o projeto, mas não sabia que seu nome estava sendo usado novamente. A escritora revelou que uma farsa similar envolvendo-a aconteceu entre 2019 e 2020.

A revista Numéro, em Paris, não conhece Jonathan Heatherly.

Quanto a Warren Ellis, a verdadeira Angela Cheng confirmou que ninguém da equipe do roteirista está envolvido ou conhece esse projeto.

Contatado por Bräo, Olivier Vatine confirmou que foi contatado para um projeto similar, mas que seus agentes descobriram o golpe logo no início. As poucas artes que ele produziu ainda estão sendo usadas para cooptar outras vítimas.

Com a informação de que esse é um golpe em andamento, Bräo e Cariello descobriram mais pistas de outras pessoas que caíram numa versão da falcatrua. Diversos artistas norte-americanos foram enganados achando que estavam trabalhando para um projeto que seria publicado numa importante revista mexicana.

Procurada pelo Universo HQ, uma das empresas que teve seu nome usado no golpe do México confirmou a farsa, mas pediu que seu nome e o de seus funcionários não fossem revelados no texto.

Quanto mais se investiga, mais a realidade e a fantasia se misturam, entre pessoas reais e fictícias, e mais antigo se torna o golpe. Atualmente, a fraude similar mais antiga que se conhece é de 2017.

Confrontado por numerosos artistas, Jonathan Heatherly se defendeu dizendo que era tudo mentira, lamentou a decisão de Bräo de sair do projeto, disse que é bipolar e alegou outros problemas de saúde mental.

Mas, ao mesmo tempo, enviava e-mails para os que ainda estão no projeto, dizendo que o desenhista “X ou Y” saiu do projeto e estava espalhando mentiras e que ele tomaria as ações legais.

Nenhum dos artistas que foi vítima do golpe foi contatado para uma rescisão contratual, ou recebeu algum tipo de comunicação jurídica por parte de Jonathan Heatherly. Pelo contrário.

É sabido que mais de um autor recebeu o mesmo e-mail de Heatherly, com as mesmas negativas e desculpas de problemas de saúde mental, apenas com o nome do artista trocado na correspondência.

Os personagens envolvidos nesse golpe são os mesmos. E já estão trocando algumas de suas falsas identidades. A pilantragem continua.

Assim como Eve Ewing, vários artistas postaram em suas redes sociais (Twitter, Instagram, Reddit, Facebook etc.) sobre o golpe nos últimos dias, incluindo Bräo, Cariello e Danny Kim.

Bräo esperava receber pelo menos 60 mil reais. Tomou um grande prejuízo, se endividou e suas artes, sem o seu nome, continuam sendo utilizadas para fisgar outros autores. Agora, o golpista diz que são do estúdio dom italiano Milo Manara.

Contatada por Bräo, a equipe de Manara disse não saber da fraude, agradeceu e prometeu tomar providências.

Cariello também estava numa situação financeira complexa e aguardava a entrada do equivalente em reais a 1.170 dólares, pelas letras de 39 páginas. Além da perda de tempo e do trabalho, a única coisa que ganhou foi dor de cabeça.

Na lista de artistas lesados no golpe estão: Danny Kim, Kamio Tomonori, Tsui Tin Fung, Mako Vice, Stefano Realdini, Ruxin, Ryan Barry, Ruslan, Vincenzo Puglia, Josep Giró Torrens, Dave Law, Inhoso, Thyago Brandão de Paula e, mais recentemente, Adriana Melo, que ficou sabendo da farsa quando Bräo postou sobre o assunto em suas redes sociais.

Adriana Melo contou ao Universo HQ que foi contatada por Heatherly no final de dezembro. Ele queria que ela participasse do projeto com ilustrações. O e-mail bem escrito e estruturado tinha diversos links sugerindo a veracidade do projeto e muitas ilustrações de outros artistas.

Felizmente, ela só havia enviado quatro ilustrações em baixa resolução quando descobriu a falcatrua. Heatherly queria mais 16.

“Num contato com ele (Heatherly), ontem (11 de março), ele escreveu que o pagamento ocorreria em dez dias”, disse Melo.

O que surpreendeu muita gente é que o golpista não fugiu, ainda responde e-mails de quem não o confrontou sobre a fraude e continua agindo como se fosse inocente e o projeto fosse verídico.

Já haviam sido lesados anteriormente, entre 2019 e 2020: Kalman Andrasofszky, Azamat Khairov, Afua Richardson, Ricardo Rodrigues, Valerio Buonfantino, Doaly, Liva Prima, Ant Piper, Ken Lashley, Pachu M. Torres, Dawn McTeigue, AyyaSAP, Fanny Marguerie, David Nakayama, Vinne, Oliver Wetter, Soufiane Idrassi, David Messina, Adrian Wilkins, Ellie Maplefox, KwakSix, Mona Finden, Adoté, Krys Decker, Diberkato, dentre outros.

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Qual o objetivo do golpe?

Esta pergunta não possui uma resposta objetiva.

Os artistas envolvidos perderam seu tempo e esforço, não receberam, tiveram gastos e muitas vezes se endividaram. Os golpistas estão de posse de versões digitalizadas dessas artes (roteiros etc.) em alta resolução. O nome dos autores está sendo usado para continuar a fraude e enganar mais pessoas. Muitos estão gastando recursos para tentar reaver algum dinheiro ou punir os culpados.

Isso sem falar no impacto emocional: a sensação de que você foi enganado e o impacto na autoestima. Também existe a sensação de que de alguma forma você é responsável pois seu nome ou suas artes estão sendo usadas para fisgar outras vítimas.

Os golpistas usaram indevidamente o nome de artistas, editoras e revistas em escala internacional, o que, além de ser ilegal, cria problema para a reputação dos envolvidos, que ainda têm que gastar tempo e recursos para se defender.

Durante o golpe, os artistas assinaram um falso contrato que incluía informações bancárias, dados da empresa ou residência e trocaram muitas informações pessoais por e-mail com os farsantes.

Essas informações podem ser usadas de maneira ilegal, como a venda desses dados ou o roubo dessas “identidades” (o falsário finge que é a pessoa de maneira mais realista, pois possui mais dados).

As artes podem ser impressas e vendidas ou leiloadas; usadas em golpes em que o comprador paga e não recebe; podem ser transformadas em ativos digitais, como NFTs (Non-Frangible Tokens) e trocadas por Ethereum, ou Etherea (o plural), uma criptomoeda similar ao Bitcoin.

Também é possível que o vasto material colecionado possa ser usado num golpe maior, ligado ao mercado da moda, da animação ou até do cinema, uma vez que os golpistas possuem uma quantidade grande de concept arts e até de páginas de HQs.

As possibilidades são diversas e um golpe não exclui outro, mas é mesmo difícil visualizar com facilidade o lucro dessa operação, principalmente para quem não é criminoso.

Algumas pessoas podem achar que se trata apenas de um sujeito perturbado, um colecionador louco cometendo esses crimes. Mas o número de artistas enganados, a duração do golpe, a quantidade material que está sendo criada e o volume assombroso de mentiras sofisticadas torna isso difícil de acreditar.

Quem são os golpistas?

Embora o contato principal do golpe (no momento) seja Jonathan Heatherly, eles usam vários nomes, diversas identidades de homens e mulheres. Alguns artistas acham que é um casal, em virtude do que se sabe de golpes anteriores. O certo é que não se sabe. Pode ser uma pessoa, duas, um casal ou uma quadrilha.

Infelizmente, a pessoa ou grupo que está praticando esse golpe ainda está em atividade.

Nunca diga nunca...

Depois de ler este texto é fácil imaginar: “Mas como ele não percebeu isso ou aquilo?”. No entanto, questionar a atitude desses artistas, sabendo que é um golpe, é minimizar a sofisticação e a engenharia social que foi aplicada pelos criminosos.

Mais de 50 artistas, de várias partes do mundo, foram enganados e o golpe está acontecendo há, pelo menos, cinco anos.

É estabelecido um vínculo de confiança e amizade com os participantes, e isso limita o número de dúvidas e questões até o momento do pagamento. Variados truques são usados para esticar o prazo ao máximo, antes que o artista se convença de que foi enganado, não vai receber e saia do projeto.

Tudo isso é calculado pelo golpista. Existe um padrão de comportamento, uma fórmula, um roteiro.

O que esses artistas estão passando não deve ser minimizado. Deve, sim, servir de alerta para todos, de várias áreas criativas. Ou você pode ser o próximo a ser lesado.

O Universo HQ agradece a confiança e a imensa colaboração de Bräo e Octavio Cariello, sem as quais este artigo não poderia ter sido desenvolvido.

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