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Brasil, um País sem memória. Inclusive nos quadrinhos!

1 dezembro 2001

Quantas vezes você já ouviu a afirmação acima?

Então, pode incluir mais uma na sua contagem.

Samir e Flavio ColinEm diversas áreas, o brasileiro tem o (péssimo) costume de esquecer pessoas e acontecimentos. Quer nos esportes, na política ou no meio artístico (só para ficar entre as categorias mais comentadas por aqui), convivemos constantemente com o fantasma do esquecimento, o que, quase sempre, é ruim.

Pessoas que merecem um lugar eterno na nossa memória pelos seus feitos, não são mais lembradas. Esse esquecimento, às vezes, acaba até sendo bom para nós, que o diga o ex-presidente Fernando Collor, que está reingressando no mundo da política (ARGH!).

Assim como nas áreas citadas, isso também acontece nos quadrinhos. O que pode ser até pior, pois os mesmos já sofrem de um certo preconceito, sendo considerado por muitos como "sub-arte" ou "coisa infantil". E o pior é que, para virar essa mesa, não basta apenas balançar uma bunda em frente à televisão.

Guerra dos Farrapos, de Flavio ColinArtistas antigos são desconhecidos de grande parte dos leitores atuais, isso quando ainda são lembrados por leitores mais velhos. Nem mesmo editoras (com raras e felizes exceções) recordam-se desses que, outrora, mantinham o mercado de quadrinhos brasileiros ativo, com vendas muito superiores às atuais, diga-se de passagem.

O que mais revolta, é que nada é feito para isso mudar. Hoje, os leitores só querem saber de histórias estrangeiras (nada contra elas), e raramente temos iniciativas no sentido de relembrar ou homenagear, esses pioneiros.

Este ano, trabalhando para a nova versão do Universo HQ, tive o privilégio e a honra de conhecer, pessoalmente, dois desses gigantes dos quadrinhos nacionais: Flavio Colin e Júlio Shimamoto.

Colin mora atualmente em Teresópolis. Vive numa casa simples, num bairro bastante familiar, onde todos se conhecem. É um fumante inveterado, como pude perceber durante a entrevista que fizemos. Convite para o Troféu Angelo AgostiniEle tem um mini-estúdio montado em um dos cômodos de sua casa. Uma prancheta, nanquim, pincéis, tinta e uma estante cheia de livros para referência - além de prêmios recebidos - decoram o pequeno local de trabalho.

Colin tem sempre algo a dizer. Com a sabedoria de quem trabalhou por anos no meio, gosta de comentar sobre a produção tupiniquim de HQs e o mercado como um todo. Infelizmente, anda decepcionado com a vida de profissional da nona arte, ou, como afirmou, "Todo quadrinhista brasileiro já nasce decepcionado".

Não podendo viver apenas da produção de revistas, Flavio Colin anda pensando em parar de desenhar, e se dedicar à escultura e aos quadros. Tomara que a recente vitória de melhor desenhista no Prêmio Angelo Agostini o faça mudar de idéia. Aliás, este reconhecimento é algo que se torna cada vez mais raro.

Júlio ShimamotoShimamoto mora no Rio de Janeiro, junto com sua esposa e filhos. Além de escrever e desenhar histórias, gosta de elaborar o seu próprio material de trabalho. Desde pincéis, até mesas e aparelhos para ajudar a dar efeitos em sua arte. Chama seu estúdio de "oficina".

Também está decepcionado com o momento atual (quem não está?), mas não desanima. É um apaixonado pelos quadrinhos, acima de tudo. Poucas vezes vi alguém demonstrar tamanha paixão por seu trabalho. Já largou ofertas altamente recompensadoras (financeiramente falando) em empresas de propaganda, só para voltar a produzir suas revistas.

VolúpiaAno passado, foi lançada uma coletânea de suas histórias eróticas pela Opera Graphica, chamada Volúpia. Assim como Colin, tem várias obras já prontas, mas nunca publicadas, já que editoras não querem investir em quadrinhos nacionais. Mas nem por isso se dá por vencido, e continua produzindo e desenvolvendo técnicas.

É uma injustiça o que os dois passam, sem ter um reconhecimento à altura do que merecem, do seu talento.

Durante esta coluna, eu disse que nada é feito para mudar essa situação, certo? Bem, na verdade, existem iniciativas. A editora Nona Arte vem desenvolvendo um belo trabalho, mesmo com todas as dificuldades. A ela, meus sinceros parabéns e desejos de boa sorte!

Aqui, no Universo HQ, a história também é outra. Além de Colin e Shimamoto, Renato Canini é presença freqüente no site, e sua entrevista é obrigatória para os fãs. Com a republicação das tiras Vizunga, O Gaúcho e Tibica, nossa intenção foi oferecer aos leitores mais novos a oportunidade de conhecer três clássicos do quadrinho nacional (apenas uma pequena parte do incrível acervo dessas feras do traço).

De nossa parte, sempre estaremos fazendo o possível para que eles, e tantos outros, jamais caiam no esquecimento. Pelo contrário! No que depender do Universo HQ, eles sempre serão lembrados e reverenciados!

Samir Naliato, apesar de ser o "caçula" da equipe do Universo HQ, procura sempre enaltecer a memória do (bom) quadrinho nacional. Ele é extremamente calmo, mas se quiser tirá-lo do sério basta perguntar: "Colin? Shimamoto? Quem são esses caras?". Aí o cara o vira uma fera! E com toda razão!

 

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