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Lourenço Mutarelli (re)lança Transubstanciação, dia 10 de maio,brem São Paulo

1 dezembro 2001

TransubstanciaçãoOs fãs paulistas do talentosíssimo Lourenço Mutarelli já tem programa para o dia 10 de maio. É que será realizada na FNAC (Av. Pedroso de Moraes, 858 - Pinheiros - São Paulo), a partir das 19h, uma noite especial de autógrafos do álbum Transubstanciação (96 páginas, preto e branco, R$ 15,50), que a Devir está relançando numa edição de acabamento primoroso.

No dia 20 de maio, Mutarelli fará um novo lançamento do livro, no Rio de Janeiro, durante a Bienal do Livro.

Lançada em 1991, a graphic novel Transubstanciação consagrou Lourenço Mutarelli como um dos maiores nomes brasileiros da história em quadrinhos. Além das excelentes vendas, a edição, lançada na época pela Dealer, ganhou o prêmio de Melhor História do Biênio, na I Bienal Internacional de Quadrinhos, no Rio de Janeiro.

Dez anos e muitos ótimos trabalhos depois, esta segunda edição de Transubstanciação ganha mais que um destaque comemorativo, a começar pela apresentação luxuosa e, principalmente, porque traz o dobro de páginas, graças à inclusão de Réquiem, uma história que retrata um fato horrendo acontecido com o autor (fruto de uma insana "brincadeira" de "amigos"); e que o levou a produzir a Transubstanciação.

Em Transubstanciação, o personagem Thiago é um poeta angustiado que deseja encontrar a liberdade através da morte. Conta que seu pai era a atração de um circo por possuir quatro braços; e que o matou para livrá-lo de sua triste condição.

Esse trabalho foi também um marco para a carreira de Mutarelli, que deixou de passear no mundo imaginário nos cenários de animação dos estúdios de Mauricio de Sousa, para seguir rumos bem diferentes do humor que povoava, até então, a produção brasileira de publicações e tirinhas de HQ. Desde então, a narrativa de seus livros explora intensamente a manifestação de sentimentos, destacando os medos, as angústias, os segredos da alma e a neurose dos que sobrevivem ao dia-a-dia de uma cidade grande.

Todos os seus trabalhos - marcados por traços "sujos" e escuros - mostram roteiros construídos cuidadosamente numa seqüência cinematográfica, em que o autor explora ao máximo as possibilidades e os ângulos dos enquadramentos. Cada quadro revela cenários ricos de detalhes, que despendem muita pesquisa pessoal. Seu olhar registra - ora desenhando ou fotografando - elementos e locais importantes para sua história.

Não é à toa que Mutarelli conquistou leitores e críticos e é considerado, atualmente, como o maior nome do quadrinho brasileiro. Sua trajetória acumula seis prêmios HQ MIX, dois Angelo Agostini, um Nova e, no ano passado, teve sua obra exposta no Festival Internacional de Amadora, em Portugal.

A reedição de Transubstanciação é uma excelente oportunidade para comprovar a evolução do traço e, especialmente, do roteiro de Lourenço Mutarelli, em relação aos trabalhos mais recentes, os romances policiais O Dobro de Cinco e O Rei do Ponto, estrelados pelo Detetive Diomedes.

O álbum traz ainda um texto de Lourenço Mutarelli explicando ao leitor as modificações feitas em Transubstanciação, uma obra que tem uma importância especial na sua carreira e, principalmente, na sua vida. Confira abaixo o texto, na íntegra:

Lourenço Mutarelli

Nota do Autor

"Transubstanciação foi lançado originalmente há dez anos e, sem dúvidas, foi o trabalho que, devido à sua repercussão, abriu as portas para que eu pudesse seguir meu caminho. Talvez por esse motivo eu sinta um grande carinho por essa obra. É um divisor de águas tanto na minha vida profissional quanto social.

Transubstanciação é um grito que não consegui calar. É a pura manifestação da expressão em um tempo que eu não conseguia me comunicar.

É fruto de episódios vividos, é a certeza do incerto. Não é a luz na escuridão, mas sim o momento em que nossos olhos passam a enxergar nas trevas.

Para essa nova edição, no formato de álbum, era preciso a adição de um certo número de páginas, seu formato original possuía apenas 48. Por esse motivo, resolvi encartar a edição de Réquiem. Talvez você esteja se perguntando, mas o que uma história tem a ver com a outra?

Réquiem narra um episódio que vivi em 1988, uma história que, durante muito tempo, procurei contar, mas não conseguia encontrar um formato e, pior ainda, era uma experiência muito difícil de ser descrita, dada a sua intensidade. Muitos anos se passaram sem que eu conseguisse contá-la. Exatamente, quase que de forma cabalística, em 1998 sofri a perda de um grande amigo, de uma forma muito dramática. Nessa ocasião, Fabio Zimbres, um dos responsáveis por minha publicação na inesquecível Animal, e que por sinal foi o meu primeiro trabalho lançado fora dos fanzines, convidou-me para participar de seu maravilhoso projeto, as edições Tonto. Eu adorei o convite e, dessa forma, amarrei dois pontos chave de minha vida ocorridos em um período de uma década em uma história intitulada Réquiem.

Coincidência ou não, o próprio Zimbres assinou o prefácio da primeira edição de Transubstanciação.

Nesses dias de DVD's achei bastante oportuna a decisão de fundir esses dois trabalhos, porque Réquiem é quase que um making off do processo que me levaria a construir Transubstanciação. Especificamente o episódio em que descrevo o que chamei de "exercício de morrer".

Poderia dizer que esta nova edição é o retrato dos dias que vislumbrei o esboço do inferno."

Lourenço Mutarelli

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