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Octávio Cariello fala sobre o III Festival Internacional de Humor e Quadrinhos de Pernambuco

1 dezembro 2001

J. J. Marreiro e Octávio Cariello Octávio Cariello: É... É... É... (ele fica pensativo) Hã... Ter um evento assim a cidade onde eu nasci é muito legal! É "ducaralho"! Mas acho que você não vai publicar isso! (risos)

UHQ: Ué, se o Neil Gaiman mandou o Todd McFarlane se foder... Por que não?

Cariello: (Ainda entre risos) Pois é, né? Então, manda ver. Bom, eu passei 13 anos sem vir a Recife, desde que mudei pra São Paulo. Ano passado estive aqui. Vi algumas coisas que eu gostei muito e outras que não gostei nada! Mas isso é muito normal pra quem passa muito tempo longe.

Agora, nessa minha nova volta, como convidado pro evento, o choque que eu tive antes não aconteceu, porque eu já vim preparado. Eu já sei quais as coisas de que não gostei; e isso não vai me chocar. Recife é uma cidade muito bonita. É legal essa revitalização do centro e tem um bocado de lugares que eu não revi. Mas o Laílson arranjou um jeito de apertar a programação pra levar a gente (nota do UHQ: ele e os outros convidados) pra tudo quanto é canto, e nos deixar ocupados a maior parte do tempo.

Tem sido muito bom. Inclusive, para reencontrar alguns amigos, estar com pessoas que você admira. E a oportunidade de estar convivendo, batendo papo, mesmo que por pouco tempo, com esse mito dos quadrinhos, que é o Will Eisner é uma experiência única! Porque ele não é um deus, mas sim um ser humano, uma pessoa muito legal e interessante. E, ao mesmo tempo, é um mestre dos quadrinhos, que tem idéias fantásticas. E já trocamos algumas bem legais.

UHQ: Você aprendeu mais coisas depois desse encontro com ele?

Cariello: Olha, se você pensar em termos de lucro imediato, eu te diria "não, não aprendi a desenhar melhor" com o que eu conversei com o Eisner. Só que eu acredito no seguinte: tudo aquilo que você adiciona ao teu repertório melhora o teu desempenho em todas as áreas em que você atua.

Isso significa que, depois do contato que eu tive com o Eisner, no qual falamos sobre algumas questões políticas do Brasil - foi praticamente sobre o que a gente conversou: política, questões sociais -, quando eu pegar uma caneta, eu posso até estar desenhando melhor. (risos)

UHQ: Certa vez, você contou que estava arte-finalizando uma página num apartamento apertadinho e usava o vidro da janela como mesa de luz. Aí, a página voou pela janela, do décimo quarto andar...

Cariello: (Risos) Isso aconteceu mesmo!

UHQ: Qual foi a sensação?

Cariello: Ah... Foi! Fodeu! ( risos) Não tinha muito o que fazer. Ou você chora, ou grita, ou senta e... faz tudo de novo. Dá um tempinho, bebe uma água gelada, um refrigerante. Depois, começa a trabalhar de novo.

Durante a abertura do festival, Octávio Cariello atendeu a vários fãs, examinando trabalhos e dando uma prévia do que seria a oficina ministrada por ele no dia seguinte.UHQ: Como é o seu relacionamento com o seu irmão (nota do UHQ: Sérgio Cariello, que trabalha no mercado norte-americano)? Apesar de seus trabalhos seguirem linhas um pouco diferentes, poderia nos falar do seu contato com ele? O trabalho dele com Azrael?

Cariello: Tá... (pausa) Ambos demos entrevistas pra revista Wizard publicada no Brasil. E, de alguma maneira, o Sergio Miranda (nota do UHQ: redator da Editora Globo à época) arranjou as palavras, pra que parecesse que a gente "não se dava muito bem"! É... (pausa) Eu não me dou "muito bem" com meu irmão: EU AMO MEU IRMÃO! É diferente!

Eu me dou excelentemente bem com ele. A gente se fala pelo menos uma vez por mês, porque nós somos muito ocupados. Tanto ele, quanto eu. Mas quando a gente pega no telefone, passamos duas, três horas batendo papo e falando sobre as maiores bobagens. Quer dizer: adoro meu irmão e tenho certeza que ele também me adora.

Acho o Sérgio um dos grandes talentos do quadrinho americano hoje. De alguma maneira, ele está carregando um pouquinho de brasilidade pros comics. Ele mudou pros Estados Unidos, naturalizou-se americano, mas continua sendo brasileiro. Ele tem um traço muito particular. Eu gosto muito, é uma coisa meio... meio diferente, com um bocado de influência de muitos desenhistas brasileiros e estrangeiros.

Acho "ducaralho" que ele tenha assumido Azrael. Eu vi o trabalho, e achei muito bom! Sempre considerei o Sérgio muito mais talentoso do que eu... Essa coisa do talento cru, direto, sabe? Mas isso tem mudado um pouco, porque sinto que ele tem trabalhado mais, tem pensado mais o próprio trabalho. Ele tem pesquisado um bocado. E ele é muito sério; muito, muito sério!

Ao contrário de Sérgio, que adora o quadrinho americano (o gênero super-herói) e sempre lutou pra conseguir um título, eu nunca gostei muito de super-herói.

UHQ: Apesar de já ter produzido e trabalhado com ele...

Cariello: É, apesar de já ter trabalhado. Afinal, eu fui pago pra isso. Aliás, muito bem pago. Trabalhei, mas não acho que tenha sido a melhor coisa que fiz.

UHQ: Quanto ao fato de o Sérgio estar ensinando na Kubert School; e você na Fábrica de Quadrinhos, você acha que "está no sangue" passar o que vocês sabem pras novas gerações?

J. J. Marreiro entrevista Octávio Cariello para o Universo HQCariello: Interessante isso... (pausa) Pergunta interessante! (risos)... Não sei, aí você teria que perguntar pro Sérgio, pra saber o que ele considera "ensinar". Pra mim, ensinar é aprender. Eu aprendo muito com os meus alunos. É uma troca eterna; e isso é muito legal.

Eu ensino porque gosto disso. Acho que não consigo viver sem ensinar. É meio... (ele pensa um pouco e volta atrás) Bobagem! Bobagem! Dá pra viver sem ensinar, dá pra viver sem fazer quadrinho, dá pra viver sem um bocado de coisa. Só não dá pra viver sem respirar e sem comer. Mas é uma coisa meio... meio de dentro.

É legal você estar passando, pra quem está interessado em te ouvir, um bocado da tua experiência e estar participando do processo de desenvolvimento dessas pessoas. Não que eu seja muito importante na vida dos meus alunos, assim (ele faz um tom diferente de voz): "Oh, o Cariello me ensinou tudo!" Não acredito nisso. Mas acho legal estar participando do processo de desenvolvimento desse pessoal. Estar vendo gente que tem talento, que me ouviu falar uma bobagem e pensou em cima disso, chegou a algumas conclusões e mudou o trabalho... pra melhor.

Isso me deixa muito feliz, acho que é uma grande vitória. Saber que hoje eu tenho mais de 25 ex-alunos inseridos no mercado, trabalhando; e perceber que há outros que vão chegando a soluções próprias, isso é o mais interessante, sem estar copiando ninguém e com um pouquinho da minha ajuda. É gratificante. É um pouco de...meu legado. Sabe?

UHQ: Muitíssimo obrigado pela entrevista, Cariello.

Cariello: Obrigado pela força.

Desenho de Octávio Cariello

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