Confins do Universo 115 - Neil Gaiman, um sonhador de histórias
OUÇA
Matérias

Um Almanaque que não está mais no Gibi

Há exatos 30 anos, no dia 24 de junho de 1975, chegava às bancas o saudoso Almanaque do Gibi Nostalgia

14 agosto 2005

Almanaque do Gibi Nostalgia 01Há exatos 30 anos, no dia 24 de junho de 1975, chegava às bancas do Brasil uma das mais importantes publicações em quadrinhos de todos os tempos: o Almanaque do Gibi Nostalgia. Como o próprio nome permite adivinhar, tratava-se de uma edição especial, uma compilação com antigas histórias de personagens clássicos. E que histórias! E que personagens!

Publicado pela Rio Gráfica, que na época ainda não havia adotado o nome de Editora Globo, o Almanaque tinha formato tablóide, 132 páginas, acabamento grampeado e era impresso em preto-e-branco, em papel jornal.

A edição trazia a primeira aventura do Fantasma, primorosa criação de Lee Falk com desenhos de Ray Moore, dono de um traço quase expressionista, de 1936. Depois vinha uma história em tiras diárias do Mandrake, do mesmo Falk, com lápis de Phil Davis, datada de 1938. Na seqüência, Dick Tracy, de Chester Gould; duas HQs do talentosíssimo Alex Raymond: Agente Secreto X-9 e Jim das Selvas; a ingenuamente divertida Tereré, de Ralph Fuller; e uma dose dupla de The Spirit, do incomparável Will Eisner, para fechar a revista.

Almanaque do Gibi Nostalgia 02A partir do segundo número, a publicação passou a ter lombada quadrada, ficando mais parecida com os almanaques do Globo Juvenil e congêneres de décadas atrás, com a desvantagem de não ter as cores, nem as capas duras dos títulos antigos. Para compensar, o conteúdo era nada menos do que espetacular.

Logo de cara, duas aventuras de Flash Gordon, de Alex Raymond, de 1938/39. A seguir, a estréia de Terry e os Piratas, de Milton Caniff, de 1934; Red Barry, de Will Gould, de 1936; e três histórias de The Spirit. Para completar, 11 esplêndidas páginas do onírico Little Nemo in Slumberland, de Winsor McCay, incluindo o famoso episódio da "cama andarilha", a seqüência mais cultuada, reproduzida e analisada pelos estudiosos das HQs.

A mesma qualidade e variedade desses dois primeiros números permeou as outras quatro edições do Almanaque, com clássicos como Príncipe Valente, de Hal Foster; Brick Bradford, de William Ritt e Clarence Gray; Ferdinando, de Al Capp; Krazy Kat, de George Herriman; entre outros, além de algumas preciosas raridades: Sonhos de um Comilão, do original Dreams of the Rarebit Fiend, do mesmo Winsor McCay; Garra Cinzenta, dos brasileiros Renato Silva e Francisco Armond, de 1937; e duas obras do genial Gustave Verbeek: Os Tadinhos, tradução de The Terrors of Tiny Tads e o mirabolante Vira-Vira ou The Upside-Downs of Lady Lovekins and the Old Man Muffaroo, cuja página era composta de duas fases, uma para ser lida normalmente e a outra, em continuidade, virada de cabeça para baixo, num incrível exercício de criatividade e fantasia gráfica.

Almanaque do Gibi AtualidadeEm 1976, foi lançado um solitário número do Almanaque do Gibi Atualidade. Em contraponto ao Almanaque Nostalgia, trazia alguns exemplos do que havia de moderno nas HQs: a primeira aventura de Valentina, do italiano Guido Crepax, em que a heroína era apenas uma coadjuvante; uma história de Corto Maltese, do também italiano Hugo Pratt; Scarlett Dream, da dupla francesa Robert Gigi e Claude Moliterni, este um prolífico estudioso dos quadrinhos, autor de vários livros, incluindo um dicionário sobre o assunto.

Encerrando a edição, a HQ Ano da Mulher, um trabalho de altíssima qualidade do sempre surpreendente brasileiro Luiz Gê. Curiosamente, se os clássicos do Almanaque Nostalgia eram quase todos norte-americanos, no Atualidade, o predomínio era dos europeus, o que, de alguma forma, já apontava uma certa tendência em relação aos novos rumos que os quadrinhos estavam tomando, a partir dos anos 1970, com a evolução da Pilote e o surgimento da Métal Hurlant, ambas francesas.

Nem todos as edições saíram com data de publicação, mas deduz-se que mantiveram uma periodicidade semestral. O que é possível afirmar é que os seis volumes do Almanaque do Gibi Nostalgia constituem uma das melhores coletâneas de clássicos dos quadrinhos lançadas no Brasil, com uma amostra do que mais significativo foi publicado nos anos de ouro das HQs norte-americanas.

Uma saga em 40 capítulos

Almanaque do Gibi Nostalgia 03O primeiro Almanaque, na verdade, nasceu como edição especial do Gibi Semanal, que havia sido lançado quase um ano antes, em setembro de 1974, com a proposta de resgatar um tipo de publicação com personagens variados dos mais diferentes gêneros e estilos, como faziam os cadernos de quadrinhos dos grandes jornais dos Estados Unidos, no final do século XIX e que teve no Brasil o pioneiro Suplemento Juvenil.

Se a idéia não era original, o título tampouco. Ele remetia ao famoso Gibi, lançado em 1939 pela mesma editora, e cujo sucesso faria com que o nome passasse a ser sinônimo de revista em quadrinhos no Brasil.

O Gibi original foi publicado durante 11 anos e gerou um filhote, o Gibi Mensal, que durou de 1940 até 1963. Já a versão mais recente não teve a mesma sorte. Não completou um ano de vida e durou apenas 40 edições. Mas marcou história.

Por suas páginas desfilaram cerca de 60 séries. A revista, em formato tablóide, tinha 32 páginas e abria com pranchas dominicais coloridas de algumas das melhores HQs de humor como Peanuts, Frank e Ernest, Zero, Popeye, Brucutu, Mãe! e Hagar.

Depois, vinham três ou quatro séries de aventuras mais longas, em preto-e-branco. Algumas eram completas, outras se estendiam por mais duas ou três edições. Essas páginas normalmente eram complementadas por tiras de humor, diagramadas na lateral, em sentido longitudinal. Para lê-las, era preciso girar a revista em 90 graus. No final, mais duas ou três HQs coloridas.

No número 6 do Gibi Semanal foi lançado um concurso de tiras para revelar novos autores brasileiros. Somente na edição 21 foram publicados os primeiros selecionados: Fausto Hugo Pratts, Marcio Pitliuk e Watson.

Almanaque do Gibi Nostalgia 04Outras seis séries saíram no número 23. Elas ainda não tinham nomes e eram identificadas pelos de seus autores: Munhoz, Almada e Souza, Paulo Santos, Paulo Paiva, Novaes e Sérgio. Mais seis, agora devidamente batizadas, foram divulgadas na edição 27: Seixo Rolado, de Demasi, Kathia e Appel; Zig e Zag, de S. Miguez; Olimpo, de Xalberto; Zezinho, de Javê; Kateka, de Britvs; e Lolita e Sócrates, de Archimedes dos Santos.

Dessas, apenas algumas chegaram a ser publicadas outras vezes e somente uma viria a fazer carreira nas páginas do Gibi: a de autoria de Munhoz, denominada Chico Peste, que passou a sair regularmente a partir do número 26, em que teve direito a página inteira colorida e tiras laterais. O personagem, aliás, teve revista própria editada em 1986 pela Press.

Ainda que houvesse espaço para o material nacional, o predomínio era de séries estrangeiras, principalmente as norte-americanas, mas também eram publicadas HQs européias bem interessantes, como a francesa Iznogud, de Goscinny (autor de Asterix) e desenhada por Tabary; as italianas O Mestre, de Milo Milani e A. Di Gennaro; Sturmtruppen, de Bonvi (Régis Bonvicini) e Os Aristocratas, de Alfredo Castelli e Franco Tacconi; e a inglesa Os Panteras, de John Burns e P. Douglas.

Alguns clássicos, como Ferdinando, Dick Tracy, Fantasma e Mandrake também marcaram presença. No número 6, saiu a antológica história de Gerhard Shnobble, de The Spirit, e a primeira aventura de Nick Holmes, última das séries criadas e ilustradas por Alex Raymond, foi publicada
na edição 26.

Uma versão especial

Almanaque do Gibi Nostalgia 05O Gibi Semanal parecia ter descoberto o caminho certo, tanto que, alguns meses antes do primeiro Almanaque do Gibi Nostalgia, havia sido lançado o Gibi Especial, uma edição em formato meio tablóide, com um único personagem. Para essa estréia, em fevereiro de 1975, foi escolhido The Spirit.

Essa publicação não tinha periodicidade fixa e a edição seguinte, dedicada à segunda aventura do Fantasma, saiu em maio. O número 3, de julho, trouxe Ferdinando com o clássico episódio dos Shmoos. Em agosto, saía a 4, a partir da qual o formato diminuiu, novamente com The Spirit. No mês seguinte, foi lançada o quinto volume, com Os Panteras.

O Gibi Especial passou a ganhar regularidade e ressuscitou o nome e o logotipo do antigo Gibi Mensal. Assim, sob a nova denominação, mas mantendo a mesma seqüência de numeração, em outubro saiu o número 6, com Tereré; e no mês seguinte, o 7 com o Príncipe Valente.

O oitavo e último número trazia a segunda e a terceira aventuras de Nick Holmes. Geralmente, o Gibi Especial/Mensal saía com 64 páginas, exceto nas edições do Fantasma e de Tereré que tiveram 80.

Mais uma vez, adeus

Almanaque do Gibi Nostalgia 06Apesar de toda essa aparente efervescência, o mercado de quadrinhos no Brasil não estava tão propício assim. O Gibi Semanal, que começara com 160 mil exemplares de tiragem, viu suas vendas caírem drasticamente e terminou seus dias com 36 mil, ou seja, menos de 1/4 de quando iniciou.

Entre tantos feitos importantes, o principal destaque do Gibi dos anos 70, em suas três versões (quatro se contarmos o Almanaque Atualidade) talvez tenha sido revelar e divulgar para as novas gerações o personagem The Spirit, de Will Eisner.

Aparentemente, ele devia ser, com total justiça, um dos personagens prediletos dos editores. Basta constatar a freqüência com que era publicado. O alter ego de Denny Colt apareceu em nada menos que 17 das 40 edições do Gibi Semanal, foi o único a merecer dois números do Gibi Especial (com nove histórias em cada) e saiu em quatro, dos seis Almanaques do Gibi Nostalgia. No total, foram 42 episódios, quase todos da fase áurea do herói.

A última edição do Gibi Semanal saiu em 30 de julho de 1975. O Gibi Mensal deixou de circular em dezembro do mesmo ano. E o Almanaque do Gibi Nostalgia sobreviveu até o final de 1977.

Com a crise, o título foi descontinuado e o Gibi, simbolizado pela figura caricata de um menino negro, pela segunda vez disse adeus às bancas, deixando uma pequena, porém significativa e fiel legião de fãs desconsolados.

Para saber mais sobre o Gibi Semanal, leia a coluna Museu dos Quadrinhos, de Marcelo Naranjo e o depoimento de Sonia Hirsch, ex-editora de quadrinhos da Globo e dos Gibis
nos anos 70.

Nobu Chinen é redator publicitário e lê "gibis" desde o tempo em que eles ainda existiam.

Já são mais de 540 leitores e ouvintes que apoiam o Universo HQ! Entre neste time!
APOIAR AGORA