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Morreu Quino, criador da Mafalda e um dos maiores cartunistas do mundo

30 setembro 2020

Ontem, a irrequieta Mafalda completou 56 anos. Hoje, Quino, seu criador, morreu na Argentina, aos 88 anos. E fãs do mundo inteiro lamentam a sua perda. Porque partiu um gigante dos quadrinhos.

A causa do falecimento de Quino não foi divulgada, mas, de acordo com notícias veiculadas na imprensa de seu país, ele sofreu um acidente vascular cerebral nos últimos dias.

Filho de imigrantes espanhóis, Joaquín Salvador Lavado nasceu no dia 17 de julho de 1932, em Guaymallén (Mendoza), mas seu registro oficial consta como 17 de agosto de 1932.

Ele começou a se dedicar aos quadrinhos em 1948, quando abandonou a Faculdade de Belas Artes, depois do falecimento de seu pai. Quino tinha perdido a mãe três anos antes.

Em 1954, prestou o serviço militar obrigatório e, depois, mudou-se para Buenos Aires. Teve dificuldade para conseguir trabalho na área, mas no ano seguinte já colaborava com várias publicações.

No ano de 1962, fez a primeira exposição com suas artes em Londres e, em 1963, publicou seu primeiro livro de cartuns, Mundo Quino.

Foi em 1964 que o artista criou uma das tiras em quadrinhos mais aclamadas do mundo: Mafalda. Aquela espevitada menina de seis anos de idade, que se comporta como uma típica criança de sua faixa etária, sempre teve uma visão crítica da vida e questionava o mundo à sua volta sem parar.

Apesar de "oficialmente", seu aniversário ser em 1964, Mafalda foi criada em 1963, para uma campanha publicitária de uma fábrica de eletrodomésticos chamada Mansfield (por isso seu nome começa com "M"). O cliente recusou o trabalho e nunca lançou os produtos.

Pra sorte dos quadrinhos, dois anos depois, o semanário argentino Primera Plana encomendou a Quino uma série que fosse "engraçada", e o autor resolveu utilizar aquela simpática garotinha.

Em 9 de março 1965, as tiras migraram para o jornal diário El Mundo, no qual foram publicadas até 22 de dezembro de 1967, quando o periódico fechou. Em seguida, em 1968, Mafalda e seus amigos passaram para o semanário Siete Dias.

Mafalda tem uma visão mais humanista e aguçada do mundo, em comparação com os outros personagens da série. E o mais encantador é que, ao mesmo tempo em que fala de coisas de criança, como detestar sopa ou não querer ir à escola, criticava (do seu jeito) a ditadura na Argentina, os rumos do mundo, a política, o futebol. Nada escapa ao seu olhar aguçado.

A forma como Mafalda fala pelos traços e escritos de Quino conquistou fãs em todo o planeta.

As histórias de Mafalda saíram em mais de 30 idiomas, mas foram encerradas em 1973. Ou seja, não chegaram a completar dez anos. E isto comprova a atemporalidade da obra de Quino. Mesmo que as tiras tragam coisas datadas, as discussões e a diversão que proporcionam fizeram que o material seguisse sendo publicado mundo afora. Inclusive em livros didáticos.

Em 1981, Mafalda foi adaptada para a TV, como um desenho animado de episódios curtos, de duração variando de 90 a 260 segundos. Esta série teve 52 capítulos que foram compilados em cinco desenhos mais longos.

Outro reconhecimento incrível veio em 2009. Numa esquina do bairro de San Telmo, em Buenos Aires, foi inaugurada uma estátua da personagem sentada num banco. Claro, virou atração turística. A escultura é do argentino Pablo Irrgang e mede 1,2 metro. Em 2014, Susanita e Manolito se juntaram a ela.

Muito além de Mafalda

Muito mais do que "pai" da carismática e politizada Mafalda, foi um dos mais brilhantes artistas do traço de todos os tempos. Com humor e sarcasmo, ele escancarou em seus cartuns e tiras os problemas mais latentes dos países sul-americanos, como a desigualdade entre as classes, os conflitos políticos, as complicadas relações com as potências mundiais etc. E todos, apesar de terem sido feito há décadas, seguem atualíssimos.

No Brasil, a Martins Fontes publicou vários livros com coletâneas desses trabalhos, como Cada um no seu lugar, Bem, obrigado. E você?, Quinoterapia, Quanta bondade, Não fui eu!Que gente máPotentes, prepotentes e impotentes, Que presente inapresentável!, Humanos nascemos e Isto não é tudo.

Quino ganhou exposições e prêmios no mundo inteiro. Em 2012, foi condecorado pela então ministra da Cultura da França, Aurelie Filippetti, com a medalha de Oficial da Ordem das Artes e das Letras, durante o salão do livro para jovens e crianças de Montreuil, próximo a Paris.

Dois anos depois, em Oviedo, na Espanha, recebeu o prêmio Príncipe de Astúrias, na categoria Comunicação e Humanidades. Ainda em 2014, o Festival de Angoulême teve uma exposição magnífica sobre Mafalda.

Em 2015, o Rio de Janeiro recebeu a mostra Mafalda na Sopa, com esboços originais de Quino e fotos de grafites inspirados na personagem, esquadrinhando os seus processos de produção, difusão e circulação.

Antes de encerrar este texto, peço licença a você que o está lendo para escrever algumas linhas em primeira pessoa.

Para quem é apaixonado por quadrinhos, a perda de um craque como Quino é sempre dolorosa. Mesmo quem nunca o viu pessoalmente é atingido por uma tristeza quase sem explicação.

Tive a sorte de ficar algumas horas com Quino, quando acompanhei Mauricio de Sousa num encontro dos dois, em 2015, em Buenos Aires. Ele já apresentava problemas de saúde, mas posso dizer que foi mágico.

Porque eu pude agradecer ao Quino (como tantos milhares de fãs fizeram antes de mim) pelos momentos tão maravilhosos que ele me proporcionou.

Meu amigo Marcelo Naranjo, quando soube da morte dele, escreveu: "Quino primeiro nos faz rir, para depois, por vezes, nos fazer chorar". Ótima definição.

Por isso, é com um excerto da obra máxima de Quino que encerro este obituário, que detestei escrever. Descanse em paz, mestre!

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