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A década dos quadrinhos no cinema
Por Sérgio
Codespoti (30/09/09)
Os quadrinhos e o cinema sempre andaram lado a lado. Mas desde 1998, mais
precisamente, essa "parceria" ganhou novos contornos.
Em 1998, a New Line lançou Blade (dirigido por
Stephen Norrington, com base num roteiro de David S. Goyer), uma adaptação
dos quadrinhos do personagem criado por Marv Wolfman e Gene Colan para
a Marvel.
Era um projeto despretensioso, cujo protagonista, apesar de ser um vampiro
(algo que é sempre cool no cinema), era obscuro e pouco conhecido.
Ainda assim, o filme se tornou um enorme sucesso comercial no mundo inteiro.
De 1978 (ano em que estreou Superman) a 1997 (quando foi lançado
o desastroso Batman e Robin), foram feitos 14 filmes para o cinema
baseados em personagens da DC
Comics.
No mesmo período, apenas nove longas baseados nos da Marvel
foram lançados - e isso incluindo os dois telefilmes do seriado do Homem-Aranha
e outros três que a editora licenciava de terceiros. Eram trabalhos modestos,
de baixo orçamento e elenco de segunda categoria.
Nessa
época, muitos outros estúdios lançaram filmes baseados em personagens
de quadrinhos, seguindo a onda de películas como Superman, Batman
e até Conan, numa espécie de efeito rêmora (aquele peixe-piloto
que segue os tubarões). Poucos se tornaram sucessos comerciais, embora
alguns, como Rocketeer, por exemplo, tenham um público dedicado.
Blade surgiu na esteira do lamentável Batman e Robin,
que deixou os fãs do personagem (e o resto do público) cansados de adaptações
fracas, que faziam pouco uso do material publicado em quadrinhos.
Talvez por isso, a DC só voltaria a ter um filme no cinema
baseado num de seus super-heróis em 2003: o péssimo A Liga Extraordinária,
que foi seguido por outra bomba, Mulher-Gato.
Essa nova era de adaptações, liderada pela Marvel, abriu
as porteiras, por assim dizer, para o "estouro da boiada" que estamos
presenciando neste final de década.
De modo geral, as novas produções têm como características uma maior fidelidade
aos quadrinhos, valores de produção mais altos e um bom elenco. Nesse
período, quase sempre, os filmes bem produzidos, com atores competentes
e que fugiram demais dos conceitos das HQs não tiveram êxito comercial,
casos, novamente, de Mulher-Gato e A
Liga Extraordinária.
Claro que se a história e a direção são ruins, não adianta ter boa produção
e atores renomados, nem ser fiel ao conceito original.
Entre 1998 e 2004, chegaram aos cinemas dez filmes com personagens Marvel
(Blade, X-Men, Homem-Aranha,
Blade II,
Demolidor, X-Men
2, Hulk, Justiceiro, Homem-Aranha
2 e Blade Trinity), contra apenas três da DC
(o ótimo Estrada para Perdição, baseado na HQ de Max
Allan Collins, publicada pela Paradox Press, um selo
da DC Comics (e que no Brasil saiu pela Via
Lettera) Mulher-Gato
e A Liga Extraordinária.
Estrada
para Perdição, filme com Tom Hanks, Jude Law e Paul Newman, é
um exemplo claro de uma boa adaptação de quadrinhos para as telonas, dentro
dos moldes do "cinemão" comercial, mas afastada do universo dos super-heróis.
Dos dez longas-metragens da Marvel mencionados acima,
Hulk
(que apesar do bom elenco e da direção de Ang Lee, não era o que os fãs
queriam ver), Justiceiro, Blade - Trinity e o Demolidor
são os mais fracos, com piores resultados de crítica e bilheteria.
Hulk e Justiceiro tiveram suas franquias reiniciadas
ainda nesta década (veja mais abaixo), Blade virou seriado de
TV (que logo foi cancelado) e o Demolidor
permanece no limbo.
Certa vez, Avi
Arad, que já
foi o homem forte do cinema da Marvel, declarou que
para salvar o Demolidor seria necessário recomeçar do zero.
Os seis primeiros anos desta década geraram muito lucro nas bilheterias,
principalmente os dois filmes iniciais do Homem-Aranha
e dos X-Men. Esse sucesso financeiro iniciou uma corrida dos estúdios
para conseguir os direitos de todo e qualquer tipo de personagem de quadrinhos.
Em 2005, a DC contra-atacou: lançou Batman
Begins, que reiniciou com louvor a franquia do Cavaleiro das
Trevas.
Além disso, chegaram ao cinema Hellblazer (no longa Constantine),
V
de Vingança e Marcas
da Violência (baseado numa HQ publicada primeiro pela Paradox
Press e depois pela Vertigo).
Ainda em 2005, a Marvel colocou no mercado filmes pífios,
como Elektra
(um derivado do Demolidor), Homem-Coisa (que ficou engavetado
por alguns anos, teve um lançamento pequeno nas telonas e saiu discretamente
em DVD)
e Quarteto
Fantástico (que conseguiu se segurar por mais um longa-metragem).
Mas a notícia importante foi que a Marvel se reestruturou
como empresa de entretenimento e seu estúdio conseguiu um financiamento
de mais de 500 milhões de dólares para a produção de dez filmes.
O terceiro episódio de X-Men
foi lançado em 2006.
No mesmo ano, chegou aos cinemas Superman
- O Retorno, com a volta do Homem de Aço num filme que, apesar
de bem feito, não era o que se esperava do personagem.
Outra novidade da DC/Vertigo nas telonas foi The
Fountain, baseada na graphic
novel de mesmo nome.
Já em 2007, a Marvel esteve representada em três filmes:
Quarteto
Fantástico e o Surfista Prateado, Motoqueiro
Fantasma e Homem-Aranha
3.
E, finalmente, chegamos a 2008, ano em que os lançamentos modificaram
não apenas a maneira de se adaptar quadrinhos para o cinema, mas também
a relação dos grandes estúdios com as editoras.
2008 marcou a estreia da Marvel como estúdio, com o lançamento
de Homem de Ferro e O Incrível Hulk (filme que reiniciou
a franquia). O Justiceiro chegou às telonas pela terceira vez com Punisher:
War Zone, mas nem assim conseguiu melhorar seu desempenho.
O grande sucesso foi mesmo Homem de Ferro, que tinha um bom elenco
e arrecadou mundialmente 585 milhões de dólares. Um feito excepcional
para a estreia da Marvel como estúdio de cinema, especialmente
por ser com um personagem pouco conhecido do público que não curte quadrinhos.
Isso não teria sido possível sem o financiamento obtido em 2005, que só
ocorreu graças à rentabilidade de franquias como X-Men e Homem-Aranha.
Claro que o enorme sucesso do "Latinha" foi parcialmente ofuscado pelo
tsunami que foi Batman
- O Cavaleiro das Trevas, a segunda parte da nova franquia do
Morcegão, que atingiu a soma de um bilhão de dólares.
Note que, num mesmo ano, apenas dois filmes baseados em quadrinhos renderam
juntos 1.585 bilhão de dólares.
Por isso, a busca desesperada por personagens de quadrinhos ainda não
licenciados se intensificou. Não havia como ignorar 1,5 bilhão de dólares.
E o resultado direto disso é que, em 2009, a Disney
comprou a Marvel e a Warner
Bros. reestruturou a DC Comics, para maximizar
o potencial da empresa. E tudo isso na primeira quinzena de setembro.
Aqui vale um parêntese: durante essa disputa entre Marvel
e DC (que na prática envolve Fox, Warner, Columbia,
Sony, Universal, New Line, Paramount e outras) várias editoras
de quadrinhos e autores independentes também conseguiram adaptar seus
projetos, como, por exemplo, Hellboy I e II (de Mike
Mignola), Mundo Fantasma (de Daniel Clowes), Sin City
e 300 (de Frank Miller), Procurado - Wanted (de Mark
Millar) entre tantos.
No entanto, as consequências das duas mudanças gigantescas, citadas acima,
só serão sentidas no mercado em 2010, quando estrearão os filmes The
Losers (DC) e Homem de Ferro 2 (Marvel).
O fato é que, gostem ou não os fãs mais radicais (aqueles que ficam bravos
porque não se respeita ipsis literis o que foi feito nas HQs),
os quadrinhos se tornaram efetivamente um laboratório de pesquisa. E seu
principal papel é gerar conteúdo que possa ser transformado em uma dezena
de mídias diferentes, numa estratégia de saturação similar à dos "bombardeios
em tapete".
É difícil dizer se, a longo prazo, essas mudanças beneficiarão os autores
de quadrinhos e seus leitores, ou se este será apenas mais um momento
frustrante na história da nona arte. Mas uma coisa é certa: nada será
como antes.
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do UHQ.
Sérgio Codespoti gosta tanto de cinema quanto de
quadrinhos, e já perdeu a conta das adaptações de HQs que chegarão à telona
nos próximos anos.
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