| |
O outro pai de Watchmen
Numa entrevista exclusiva ao Universo HQ, o desenhista inglês Dave Gibbons faz uma panorâmica de sua vitoriosa carreira, fala do filme Watchmen e dá pistas sobre seus próximos trabalhos
Por Sidney Gusman
e Sérgio Codespoti (09/03/09)
Não dá para falar de Watchmen
sem citar dois nomes: o roteirista Alan Moore, o cérebro que engendrou
uma das HQs mais brilhantes de todos os tempos, e Dave Gibbons, o desenhista
que deu forma a essa obra fantástica.
O artista, cujo primeiro trabalho nos Estados Unidos foi em Lanterna
Verde, da DC Comics começou a carreira desenhando quadrinhos
de ficção científica, na 2000AD e em Dr. Who.
Com a chegada de seus trabalhos aos EUA, logo Gibbons se tornou um nome
de primeira linha do mercado. Em outra parceria com Alan Moore, desenhou
a história Superman
- O homem que tinha tudo, considerada por milhares de fãs como
a melhor do personagem em todos os tempos.
Alguns
anos depois, se uniria a outra lenda dos roteiros de quadrinhos: Frank
Miller. Com ele, Dave Gibbons criou Martha Washington, uma personagem
emblemática que, infelizmente, foi pouco publicada por aqui.
E nem só aos seus belos desenhos se resume o talento de Gibbons. Dentre
as obras que roteirizou, merecem destaque a minissérie Os Melhores
do Mundo, com arte de Steve Rude; Batman vs. Predador, ilustrado
por Adam Kubert; Superman - Kal, com traços de José Luis García-López;
e Thunderbolt Jaxon, desenhado por John Higgins, mini em cinco
partes lançada pela WildStorm em 2006, revitalizando
um personagem criado em 1949, na Comet Comics.
Dos seus últimos trabalhos publicados no Brasil, os mais significativos
foram: o álbum solo The
Originals - Sangue nas ruas, pela Conrad, em 2005; a minissérie
Guerra Rann / Thanagar (com arte do brasileiro Ivan Reis), em Contagem
Regressiva para a Crise Infinita, da Panini, em 2006; histórias
do Lanterna Verde, na revista Superman & Batman, da Panini,
em 2007; e uma HQ de Hellblazer em Pixel
Preview 2008, da Pixel.
No final de 2008, a Aleph lançou nas livrarias Os
bastidores de Watchmen, escrito por Gibbons e que conta como foi
o processo de produção da obra.
E agora Dave Gibbons, que completa 60 anos no dia 14 de abril, retorna
ao mercado brasileiro com seu trabalho mais significativo, pois a Panini
está lançando Watchmen
- Edição Definitiva em duas versões: uma luxuosa, com capa dura
e papel especial, e outra dividida em dois volumes em papel Pisa Brite
e preço mais em conta.
Nesta entrevista exclusiva que concedeu ao Universo HQ, por e-mail,
Dave Gibbons fala um pouco de sua carreira, da relação com Watchmen,
de suas influências, dos próximos trabalhos e de por que, ao contrário
de Alan Moore, não foi contra a adaptação
de Watchmen para o cinema .
Universo HQ: O que o levou a trabalhar como desenhista de quadrinhos?
Dave Gibbons: Eu sempre adorei os quadrinhos, desde
que aprendi a ler. Comecei a fazer minhas próprias histórias quando tinha
sete ou oito anos de idade, e continuo fazendo isso desde então.
UHQ: Quais as principais diferenças entre os super-heróis ingleses
e os norte-americanos?
Gibbons:
Nós realmente não temos super-heróis ingleses, isso é uma coisa peculiarmente
norte-americana. Os tipos de heróis exagerados que temos na Inglaterra
tendem mais para o estranho e o sobrenatural do que o científico e o que
faz sucesso com o público. Os nossos heróis de fantasia são um pouco mais
sombrios.
UHQ: Você prefere escrever ou desenhar histórias?
Gibbons: Na verdade, gosto das duas coisas igualmente. Já desenhei
tanto que a escrita é algo muito novo para mim, mas descobri que sempre
que escrevo bastante, morro de vontade de voltar a desenhar. E sempre
que desenho muito, tenho vontade de escrever.
Ou seja, eu realmente gosto de colaborações. É bem difícil escrever e
desenhar meu próprio trabalho, prefiro colaborar com um escritor ou um
artista.
UHQ: Atualmente, você lê quadrinhos? Quais?
Gibbons: Eu costumo ler o trabalho dos meus amigos - qualquer
coisa escrita por Alan Moore, Frank Miller, Mike Mignola, Kevin O'Neill…
Costumo acompanhar esses materiais. Também leio revistas independentes
e graphic novels. Acho que tenho um gosto bem mainstream.
UHQ: Quais são as suas principais influências artísticas?
Gibbons: É difícil fazer uma lista porque você acaba esquecendo
alguém crucial... Jack Kirby, Steve Ditko, Will Eisner, Wally Wood, Will
Elder, Harvey Kurtzman, todos esses norte-americanos. Já na Inglaterra
temos Frank Bellamy, Frank Hampson, Ron Embleton... A lista é longa! Dentre
os artistas europeus, Moebius, Enki Bilal, Hugo Pratt, Jesus Blasco...
Eu poderia continuar dando nomes durante horas, mas estes são alguns dos
que me influenciaram.
UHQ:
No começo de sua carreira, você trabalhou muito com quadrinhos de ficção
científica, na 2000AD e em Dr. Who. Como foi esse período?
Gibbons: A 2000AD surgiu numa época ideal. Havia toda
uma geração de pessoas como eu que cresceram lendo as histórias em quadrinhos
feitas nos Estados Unidos e que realmente queria desenhar quadrinhos -
e a 2000AD foi onde conseguimos nos congregar. Nomes como Brian
Bolland, Kevin O'Neill, Mike McMahon; ela foi como um clube para nós todos.
Eu nunca fui um grande fã do Dr. Who, mas havia uma boa chance
de trabalhar com Pat Mills e John Wagner, que são dois dos meus escritores
favoritos e as histórias eram realmente interessantes de se desenhar,
porque, além do personagem central, era possível fazer cenários de ficção
científica e ideias diferentes a cada semana. Assim, a variedade era bem
bacana.
UHQ:
Qual o impacto que Watchmen teve na sua carreira? Quais os pontos
positivos e negativos de ter seu nome nos créditos da obra que é considerada
por muitos a melhor graphic novel de super-heróis de todos os tempos?
Gibbons: Obviamente, Watchmen teve um impacto muito benéfico
e positivo na minha carreira. Como grande fã de quadrinhos, poder trabalhar
em algo que teve esse impacto e que assumiu esta posição dentro do mercado
é uma honra enorme e algo de que muito me orgulho. Realmente, os efeitos
são todos positivos, não consigo pensar na parte negativa. Talvez uma
identificação maciça com esta obra, quero dizer, eu fiz outros trabalhos!
Mas, de verdade, estou muito feliz de estar associado a Watchmen
- não me fez nenhum mal!
UHQ:
O que o senhor achou da adaptação de Watchmen para o cinema?
Gibbons: Eu acho que Watchmen não tinha que ser adaptado
para o cinema. Watchmen é uma história em quadrinhos e foi desta
maneira que desejamos expressar nossas ideias e é uma obra completamente
válida por si só.
O filme é uma outra coisa. Não o vejo como parte da evolução de Watchmen,
é algo separado. Acho que Watchmen tem uma história muito forte,
que Alan inventou e que, na minha opinião, funciona bem como filme. Creio
que muitos fãs dos quadrinhos vão adorar ver a obra transposta para outra
mídia, e tomara que muitos dos espectadores tradicionais também se sintam
atraídos para ler a graphic novel.
UHQ:
Como o senhor vê a aversão de Alan Moore pelas adaptações para o cinema
das obras escritas por ele? O fato de você não ter sido contra a adaptação
de Watchmen mudou algo na relação com Alan?
Gibbons: Alan teve uma experiência ruim com Hollywood. As adaptações
que fizeram de seus trabalhos não o agradaram em nada, e ele também teve
interações bem desagradáveis com as pessoas envolvidas Por isso, decidiu
- antes que Watchmen tivesse ganhado luz verde para prosseguir
como um filme - que não queria seu nome nas adaptações e nem mesmo o dinheiro
vindo delas. E entendo isso perfeitamente.
Alan é um homem de princípios e os segue até o fim; e admiro muito isso.
Mas não toma uma atitude moral de superioridade - não é porque ele seja
contra que eu também tenho que ser.
Sinto que não estamos exatamente na mesma sintonia, mas ainda somos amigos
e ele compreende a minha posição da mesma forma que entendo a dele. Tive
uma experiência muito boa com o filme Watchmen e não tenho nenhum
problema em demonstrar isso.
UHQ:
Você também tem restrições sobre a adaptação de quadrinhos para o cinema?
Até que ponto o filme deve ser fiel às revistas?
Gibbons: Acho que a coisa mais importante é que o filme seja
bom. Não existe razão para que algo exista apenas para interpretar os
quadrinhos de maneira rígida para outra mídia. Se você olhar para Watchmen
Motion Comics, que é mais ou menos uma animação quadro por quadro
e diálogo por diálogo da HQ, aquilo tem cinco horas e meia de duração.
Como série em episódios funciona bem, mas como um único longa-metragem
seria longo demais.
Assim, invariavelmente é necessário fazer mudanças - algumas coisas precisariam
ser cortadas, outras acrescentadas e umas mescladas; mas desde que seja
fiel à intenção dos quadrinhos. E, certamente, o filme Watchmen
é assim. Então, estou bastante feliz.
UHQ:
Em Watchmen, você teve que trabalhar com versões dos personagens
da Charlton Comics. Na época, já conhecia os heróis nos quais foram inspirados
os protagonistas Dr. Manhattan, Comediante, Coruja, Rorschach, Ozymandias
e Silk Spectre (respectivamente, Capitão Átomo, Pacificador, Besouro Azul,
Questão, Thunderbolt e Sombra da Noite)?
Gibbons: A DC Comics comprou os personagens da Charlton,
e queriam que Alan fizesse um projeto com eles. Alan acabou criando o
que eventualmente se tornou Watchmen. A DC, então, decidiu
que, como os heróis morriam ou ficavam comprometidos de alguma forma,
não os usaria daquela maneira. Por isso, pediu que criássemos personagens
completamente novos.
Obviamente, eles tinham alguma relação com os heróis da Charlton,
mas fomos capazes de criar personagens que eram arquétipos de vários heróis
mascarados e ajustá-los para a história que queríamos contar.
UHQ: Como foi escrever Os Bastidores de Watchmen e revisitar
a obra mais de 20 anos depois de sua criação? Foi fácil localizar todo
o material de referência exibido no livro?
Gibbons: Não foi difícil escrever Os Bastidores de Watchmen
(Watching the Watchmen, no original). Gostei muito de fazê-lo,
pois me diverti pegando os velhos esboços e anotações, revisitando tudo
aquilo e lembrando de tantas experiências criativas maravilhosas que eu
e Alan tivemos quando fizemos a história.
É fácil perder coisas no meu estúdio, mas há muito tempo eu guardei todo
o material de Watchmen num lugar só. Então, estava tudo bem à mão.
UHQ: Você escreveu e desenhou The Originals. Qual foi a motivação
para fazer essa obra? Chegou a ver a edição brasileira do material?
Gibbons: Por muito tempo, eu quis escrever e desenhar algo que
fosse completamente meu - e não queria fazer mais uma história de ficção
ou de super-heróis. Então, fiz algo que é, na verdade, bastante autobiográfico
e tem um grande significado e muita ressonância emocional e importância
para mim. Queria fazer a história com estilo, e por isso optei pelo acabamento
em preto e branco.
Na verdade, não vi a edição brasileira - só a italiana e a versão francesa,
mas é maravilho saber que o livro está sendo visto e apreciado em outros
lugares do mundo. Sei que os brasileiros são grandes fãs de quadrinhos
e aprecio muito o seu apoio.
UHQ:
Você gosta de outros gêneros de quadrinhos? O que acha dos mangás?
Gibbons: Gosto de uma grande variedade de quadrinhos. Cresci
lendo revistas de super-heróis, mas também de guerra, ficção científica,
aventura e até mesmo humor, como a revista Mad, que eu adorava.
Quanto aos mangás, é um pouco difícil digeri-los. Não creio que seja dirigido
a mim, mas acho bem estimulante; e o fato de que parece ter um forte apelo
junto ao público feminino, tanto quanto o masculino é uma coisa muito
boa. Acho que meu mangá preferido é Akira, que provavelmente é
o material mais próximo da maneira americana ou europeia de se contar
histórias.
Mas acho maravilhoso obter informações desta cultura diferente com convenções
gráficas diversas. Eu gosto de mangá, embora não entenda muito bem o gênero.
UHQ: Quais seus próximos trabalhos como desenhista e como escritor?
Gibbons: Estou escrevendo algumas coisas para a DC -
fiz uma edição recente de Hellblazer, e estou trabalhando numa
outra série para a editora, num formato bem novo para eles, do qual ainda
não posso falar muito.
No final do ano, espero desenhar uma série com os direitos de propriedade
dos autores, em colaboração com um escritor de quadrinhos muito famoso
e bem-sucedido, com o qual nunca trabalhei antes - mais uma vez, não posso
dar mais detalhes
a respeito.
O que posso dizer de efetivo é que Frank Miller e eu finalmente reunimos
todo o material de Martha Washington que fizemos ao longo dos anos e que
será publicado no dia 4 de julho, pela Dark Horse Comics. Vai ser
uma edição tamanho gigante, com mais de 600 páginas, chamada The
Life and Times of Martha Washington in the Twenty First Century.
Enfim, esses são meus novos projetos.
Obrigado pela entrevista e espero que as respostas tenham sido úteis.
Um abraço para todos os leitores do Brasil.

|
|