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Wellington Srbek pode interromper as HQs de Solar

Por Lielson Zeni (entrevista) e Sidney Gusman (26/10/09)

SolarDurante o 6º Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, o roteirista mineiro Wellington Srbek demonstrava uma preocupação que contrastava com os elogios que recebia pelo lançamento de Solar - Solo sagrado (formato 17 x 24 cm, 48 páginas, R$ 5,00).

Isso porque este segundo capítulo da retomada do personagem (o primeiro foi Solar - Renascimento) pode ser o derradeiro, já que o autor encontra dificuldades financeiras para bancar a publicação (pagando os desenhistas, inclusive).

Solar foi criado por Srbek em 1994 e suas HQs foram publicadas em 14 capítulos nas revistas Solar e Caliban, publicadas por Srbek entre 1996 e 1998. Em Solo sagrado, o autor revela o que aconteceu com a esposa do protagonista e conta um pouco mais sobre os pais dele. Um dos atrativos da edição está nos estilos bastante diferentes do desenhistas Rubens Lima, Luciano Irrthum e Laz Muniz.

Na entrevista abaixo, Wellington Srbek fala de seu método de trabalho e também desse momento complicado.

Universo HQ: Como é o seu processo criativo como roteirista?

Srbek: Basicamente, faço histórias que eu gostaria de ler, mas que ainda não existem e que, portanto, preciso criar para poder ler. Em parte, isso já garante a originalidade de meus quadrinhos, pois busco nunca repetir ou imitar uma HQ de que tenha gostado.

Depois da inspiração inicial, que pode ser algo que vi, li ou vivi, vem a parte da pesquisa em livros, documentários etc., que é muito trabalhosa e prazerosa. Paralelamente, vou imaginando sequências narrativas e falas da história.

Então, quando já estou trabalhando no computador, escrevo as legendas e diálogos do roteiro, tendo ao lado tiras de papel em que faço pequenos esboços das páginas, com os quadros e cenas definidos.

Tendo o texto pronto e as páginas esboçadas, passo para a fase final do roteiro, em que redesenho cada página em formato maior e de forma mais acabada.

É este roteiro desenhado, com os balões e legendas numeradas, que passo para o desenhista, e que serve de base para o trabalho dele. Meu processo criativo de
Estórias Gerais, Alienz e Solar pode ser visto em detalhe na seção Extras do meu site, o Mais Quadrinhos.

SolarUHQ: Como surgiu a ideia para Solar?

Srbek: Surgiu no primeiro semestre de 1994. Eu já havia produzido HQs curtas e um fanzine, mas queria me dedicar a um projeto maior. Desde o início, a ideia foi criar uma série com um herói brasileiro.

Eu tinha acabado de ler as primeiras histórias que Alan Moore escreveu para o Monstro do Pântano, e aprendi ali como criar uma HQ de ação que incluísse elementos místicos e míticos.

Na mesma época, ganhei de presente do cartunista Nilson sua revista
Falta de Educação no Brasil, com a qual aprendi como contar uma história envolvente, passada numa realidade cotidiana brasileira.

Como na época estava iniciando o curso de História na UFMG, algumas coisas que estudava também acabaram entrando na série que eu começava a criar, como os conceitos de "Apolíneo" e "Dionisíaco" de Nietzsche e o "Complexo de Édipo" de Freud.

Só faltava, então, um elemento que ligasse a origem do herói solar que eu criara a uma autenticidade brasileira. E isso veio quando descobri os mitos indígenas brasileiros recontados por Darcy Ribeiro e pelos irmãos Villas Boas.

Os detalhes de todo o processo criativo que levou à versão original de Solar estão na seção
A Saga de Solar, no Mais Quadrinhos.

SolarUHQ: A proposta de Solar é que ele não seja mais um super-herói. O que faz para que isso aconteça?

Srbek: Para mim, em termos gerais, o que define os quadrinhos de super-heróis são histórias de ação, envolvendo um conflito maniqueísta entre o super-herói e o supervilão, que se distinguem de outros personagens dos quadrinhos por suas fantasias coloridas. Bom, nada disso está presente no novo Solar. Ele tem poderes extraordinários, mas não veste uma fantasia, nem sai por aí trocando socos com bandidos.

Assim, o que estou lançando agora é uma aventura iniciática, na qual os leitores vão descobrindo quem é o personagem e por que ele possui tais poderes. Essa diferença nasceu do próprio Gabriel (identidade civil de Solar), pois quando estava começando a reformulação me perguntei: se eu fosse esse cara que descobre que é capaz de voar, o que faria?

A resposta que ele me deu foi: ora, sairia voando por aí, pois deve ser uma das melhores sensações do mundo! Eu não ia vestir uma máscara e sair caçando bandidos, pois essa é uma função da polícia. É claro que, depois que descobre seus poderes, o Gabriel passa a buscar a explicação para eles e acaba envolvido em situações que misturam ação e xamanismo.


UHQ: Como surgiu a ideia de "recomeçar" a saga de Solar?

Srbek: Surgiu em novembro de 2004, quando eu procurava um novo projeto para trabalhar. Sempre gostei do Solar como conceito e percebi que ele merecia HQs mais bem acabadas, sem as falhas e os excessos da versão original.

Além disso, embora as revistas
Solar e Caliban não tenham sido sucessos comerciais, as histórias do personagem influenciaram outros quadrinhos brasileiros, chegando a ter alguns elementos copiados por outros autores.

Então, pensei comigo: se é para copiar o Solar, também vou fazer isso, só que para produzir algo bem melhor! Foi assim que começou todo o processo que levou a
Solar - Renascimento.

SolarUHQ: Você gostaria de ver Solar em uma editora comercial ou, apesar das dificuldades, o controle que ser independente lhe dá é mais atraente?

Srbek: Eu adoraria ver o Solar numa editora comercial, impresso em cores e com ótima distribuição e divulgação. A produção independente tem suas limitações e não sinto nenhuma atração pelo "controle de ser independente".

Ser independente no Brasil não é uma escolha, é uma falta de opção. Eu preferiria não ter que "controlar" o formato, número de páginas, impressão, pagamento, divulgação e distribuição das revistas. Gasto tempo e energia demais com essas coisas.

Tempo e energia que poderiam ser utilizados na produção das HQs, que é o que faço melhor e poderia fazer ainda melhor se me pagassem para me dedicar a isso, como acontece com quem trabalha para as editoras norte-americanas, japonesas ou francesas.

É muito triste para os quadrinhos e até para a cultura brasileira não termos um mercado voltado à produção nacional. Na certa, se tivéssemos editoras e revistas pagando pelo trabalho dos quadrinhistas, eles poderiam se dedicar mais, aprimorando seu trabalho.


UHQ: Qual é o futuro do personagem? Teremos mais publicações?

Srbek: O futuro imediato dele é a recém-lançada Solar - Solo Sagrado, que pode ser adquirida pelo e-mail wellingtonsrbek@ig.com.br. Com ela, terei um total de 96 páginas de quadrinhos desta versão definitiva do personagem.

Se dependesse só da minha vontade, eu continuaria criando as HQs do Gabriel por um bom tempo. Mas infelizmente continuar a série não depende de mim, pois não tenho recursos para pagar aos desenhistas e imprimir novas revistas depois de
Solar - Solo Sagrado.

SolarUHQ: Além de Solar, quais são seus próximos projetos em quadrinhos?

Srbek: Como costumo dizer, ideias nunca faltaram aqui! Tenho ideias para uma versão comercial de Muiraquitã e para revistas com a continuação da história iniciada em Alienz.

Também tenho ideias para novas histórias de terror, para um álbum que se passa no sertão mineiro na década de 1930 e outro envolvendo mitos e lendas. Além da continuação do próprio Solar, eu poderia lançar mais uns quatro ou cinco heróis culturais, cujas histórias já tenho definidas.

Mas essas são só ideias que eu gostaria de desenvolver, mas que possivelmente jamais se realizarão por falta de condições.

Outra coisa são os projetos propriamente ditos: tenho um roteiro de 80 páginas pronto, com a adaptação para os quadrinhos de uma das principais obras da literatura brasileira. No momento, estou conversando com uma editora sobre a publicação deste trabalho.

E tenho o projeto de uma HQ envolvendo um herói, filosofia pós-estruturalista, física quântica e elementos de metaficção. Este é um trabalho que quero muito desenvolver, mas ele dependerá de uma editora para acontecer.

Enfim, vamos ver o que o futuro me reserva!


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