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A casa

Editora Levoir/Público€ 14,90136 páginasLançado em outubro de 2016

Paco Roca (roteiro e arte).

 

Originalmente publicado em La casa (tradução de Carlos Xavier).

 

Edição especial.

8 setembro 2020

Sinopse

Ao longo dos anos, Antonio, o dono de uma casa, a enche de recordações e testemunhos silenciosos de uma vida. Uma casa é a imagem fiel do seu dono. Como os casais que vivem longos anos juntos.

Assim, quando o seu ocupante desaparece para sempre, o espaço da casa permanece intocado, à espera do seu retorno. Os filhos do dono voltam – um ano após a morte do seu pai – à casa de família onde cresceram.

A intenção deles é vendê-la, mas em cada velharia que colocam para fora, enfrentam as suas lembranças. Temem estar apagando o passado, a memória do seu pai e as suas próprias.

Positivo/Negativo

“Quem disse que eu me mudei? / Não importa que a tenham demolido: / A gente continua morando na velha casa em que nasceu”. Os versos de Mário Quintana (1906-1994) refletem bem o sentimento do lugar em que se nasceu ou foi criado.

Na infância, através dos primeiros olhares contemplativos e espaços a serem explorados corajosamente após os primeiros e desajeitados passos, em geral o epicentro do mundo que orbita à sua volta é a sua casa.

E ela não deve ser vista apenas como algo “inanimado”, feito de concreto, tijolo e cimento, mas como um dos mais importantes cenários da história de cada um. Como parte da família, assim como fração indissociável das pessoas ao seu redor.

É nesse contexto que o espanhol Paco Roca guia o leitor pelas memórias concretas e sentimentos trincados de uma abandonada casa de veraneio, onde o patriarca cuidava de suas estruturas como se fosse um quarto filho. Tudo de uma forma compassada, sutil e intimista.

Já na primeira página, quadro a quadro, vê-se a última vez em que Antonio deixa a sua residência. Repare acima como sutilmente a cor se altera quando o seu velho coração não está mais aguentando.

Roca conduz a narrativa entrecortando-a com pequenos detalhes e focando em aspectos interessantes, que podem até ser colocados em paralelo com outros acontecimentos. Um exemplo é a primeira percepção da sua dedicação zelosa com seu lar ser consertar a parte hidráulica do banheiro em um dos flashbacks – o que poderia ser as “veias” da casa.

Com sua arte limpa, minimalista e detalhada, muito do fio condutor do álbum é unido pelo silêncio das cenas, nas quais se revelam bastante sobre os seus personagens (o que inclui a própria casa também) de classe média espanhola.

Já pela capa, que parece algo trivial e simplório, percebem-se vários elementos que vão ser evidenciados na narrativa do quadrinhista: as roupas descartadas, os tijolos espalhados prontos para servirem – seja como improvisados banquinhos, seja como substitutos dos blocos que são destruídos pelo tempo –, o chapéu de palha ou até mesmo as raízes que se libertam entre as rachaduras de um vaso.

As passagens de tempo que o autor coloca, inclusive, são centradas nos elementos pertencentes ao jardim, uma das partes principais do personagem-título. Desde galhos que se transformam com o passar das estações até a força acumuladora do vento “varrendo” as folhas do chão.

Infelizmente, depois de uma bela passagem como essa, Roca se vale de um diálogo expositivo por um dos filhos que chega pela primeira vez na residência após a morte do pai, falando com todas as letras que já se passou um ano. Precisava disso?

Além das reminiscências, outro aspecto que move a história é a personalidade diferente de cada irmão, dando tridimensionalidade a todos apenas com diálogos e ações.

O do meio, que trabalha como escritor e roteirista, é o mais desorganizado e “irresponsável”. O mais velho é o mais controlador e ranzinza. E a “caçula” é a mais sensível e emotiva.

Perceba o que cada um faz, recorda e fala quando está na casa. Diz muito também a função que Antonio exerceu durante toda a sua vida, o que reflete também em como ele conduzia o seu dia a dia.

Apesar de se passar em algum lugar da Espanha que nunca é mencionado (mas que possivelmente seja alguma parte da portuária Valência, onde nasceu Paco Roca), ao longo de A casa o leitor vai se circundando de aspectos bastante familiares e universais, que são reflexos das passagens da nossa vida.

São costumes que foram escanteados, representados por objetos que se revestem com uma fina camada de poeira e se interligam por teias de aranha. No espaço/tempo, são verdadeiras “máquinas do tempo” acumuladoras de espaço. Elas não servem para nada em uma vida corrida e atribulada, mas podem ser uma chave para se refugiar em um momento feliz do passado, quando se pode desacelerar.

Do mesmo jeito, são os anéis do tronco desnudo da velha amendoeira seca que foi cortada, marcas em que um dos irmãos consegue “ler” as passagens do tempo, como uma cigana decifra as linhas de uma mão.

Anéis que remetiam a casamentos com o tempo, assim como a sequência em que a personagem da Kim Novak revela a James Stewart seu nascimento e morte por meio de um enorme tronco cortado no parque das sequoias, no clássico Um corpo que cai (1958), de Alfred Hitchcock.

Apesar de não ter nada extraordinário em termos de diagramação, Roca distribui bem os quadros no formato em widescreen (a vida passando como um filme?) da publicação (24,5 x 17,5 cm), colocando “memórias” no centro quando são importantes, obedecendo a verticalidade quando um personagem sobe as escadas para verificar o telhado, ou até emoldurando o próprio quadrinho na abertura de portas e janelas.

A paleta de cor “solar” também é um destaque, assim como a sua sutil mudança nos flashbacks.

Personagens coadjuvantes, mesmo os en passant, têm sua contribuição para a história. Com destaque para Manolo, um velho amigo e vizinho de Antonio, que protagoniza um desfecho tocante e que diz muito sobre tudo que foi contado na HQ.

A obra segue inexplicavelmente inédita no Brasil. Esta edição portuguesa foi lançada pela Levoir, em parceira com o jornal Público. O álbum tem capa dura, lombada arredondada e papel couché com boa impressão.

Infelizmente, o que se tem de Paco Roca por aqui, um dos grandes nomes dos quadrinhos europeus no momento, é apenas o excelente Rugas, publicado pela Devir.

Assim como Rugas, A casa tem um pé no bibliográfico: Paco Roca declarou que produziu a história em quadrinhos no período em que perdeu seu pai, mas também quando se tornou um. Ele queria contar uma história de uma pessoa que não foi herói de guerra ou detentora de qualquer ato mirabolante, mas que foi somente um pai de família, compreendido ou não pelos seus filhos.

Queria contar e conseguiu. De forma grandiosamente simples, sensível e emocionante.

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