Confins do Universo 126 - Dando cores aos quadrinhos
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A Entrevista

Editora Mino – Edição especial R$ 64,90176 páginasLançado em julho de 2018

Manuele Fior (roteiro e arte) – Originalmente em L’entrevue (tradução de Michele Vartuli).

26 fevereiro 2021

Sinopse

A Entrevista se passa em um futuro não muito distante, na Itália de 2048. Sua trama é conduzida por Raniero, um psicólogo de meia-idade que enfrenta um divórcio e tem sua visão de mundo alterada após conhecer sua mais nova paciente, Dora, que é seguidora da nova convenção, baseada no princípio da não-exclusividade sexual e emocional.

Positivo/Negativo

Manuele Fior entrega aqui uma leve ficção científica com telepatia e ovnis, mas com peso na troca de experiências entre gerações distintas.

A história abre com o protagonista, Raniero, dirigindo noite adentro por ruas vazias, enquanto, por telefone, ouve seu amigo Valter contar uma casual e desinteressante história de infidelidade.

Nos céus, surge o primeiro vislumbre de um contato alienígena, que surte efeito imediato em Raniero: ele bate seu carro após ver aquilo.

Raniero é um cara ranzinza, mas com uma tranquilidade melancólica. Nas primeiras páginas, reclama de mudanças como trilhos de trem e carros teleguiados, detalhes que, imediatamente, definem a sua negação perante mudanças sociais e solidificam a narrativa para o grande tema do quadrinho, o choque de gerações.

Quem nunca ouviu, ou falou, “no meu tempo, as coisas eram melhores”, “hoje, tudo é artificial”, dentre tantas expressões que evidenciam o quanto, para muitos, é difícil lidar com a evolução (ou degradação) social, vivendo em constante negação? Afinal, nunca será fácil sair da zona de conforto.

Sofrendo pelo fim da sua própria zona de conforto, Raniero enfrenta um divórcio enquanto conhece a sua contraparte, Dora. Uma moça muito mais jovem, que também experimentou uma visão na noite anterior.

Raniero como psicólogo, Dora como paciente, se cria um cenário facilmente relacionável ao título do álbum. Enquanto o leitor conhece Dora, é apresentado também à nova convenção, uma ideologia baseada no princípio da não-exclusividade emocional e sexual.

Manuele Fior constrói uma narrativa em que a geração de Raniero se mostra defasada e tóxica (a exemplo do seu recorrente colega Valter), enquanto o próprio absorve, a cada consulta, pensamentos de sua paciente, passando a questionar seus próprios valores. Destaque para a construção de situações casuais, expressões faciais, ambientação e a escolha por uma ficção científica 100% focada no sentimento humano.

O fim da trajetória divide opiniões, tanto quanto a própria ideia da não-exclusividade emocional e sexual. Mas se mostra compreensível e contundente com o restante da obra, possuindo um roteiro que pode prometer mais do que entrega, mas, ainda assim, cumpre bem o seu papel.

A edição da Mino tem acabamento brochura, com orelhas e papel off-set, escolha que não favorece a magnífica e atmosférica arte do italiano Manuele Fior (trabalhando muito bem os tons de cinza, ele merecia um papel mais brilhoso). A revisão peca em alguns momentos, mas nada que atrapalhe a leitura.

O álbum não traz nenhum extra. Uma pena, pois ao menos uma biografia do autor, que até então era inédito no Brasil, deixaria o material mais completo.

Classificação:

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