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Akira # 1 (JBC)

Editora JBCR$ 64,90360 páginasLançado em novembro de 2017

Autor: Katsuhiro Otomo (roteiro e desenhos).

 

Originalmente em Young Magazine, pela Kodansha (tradução de Drik Sada).

 

Série em seis volumes.

8 setembro 2020

Sinopse

Após atropelar uma criança de aparência estranha, o jovem delinquente Tetsuo Shima começa a sentir algumas reações anormais.

Isso acaba chamando a atenção do governo, que está projetando diversas experiências secretas e acaba sequestrando Tetsuo.

Entra em cena, então, Kaneda, melhor amigo de Tetsuo, que quer salvar o amigo, enquanto uma terrível e monstruosa entidade ameaça despertar.

Positivo/Negativo

As histórias em quadrinhos estão cheias de indivíduos especiais, pessoas capazes de feitos notáveis, com poderes e superpoderes. Se pensarmos num eixo de moralidade e ética, um certo e errado, um bem contra o mal, essas pessoas especiais orbitam normalmente as extremidades do eixo.

De um lado, vilões, como o Doutor Octopus, que usa os poderes de forma egoísta, pensando apenas no ganho próprio, em detrimento das outras pessoas. Do outro, heróis, como o Homem-Aranha, que usam os dons de forma altruística, pensando no bem-estar dos demais.

Quando Akira apareceu no Ocidente, foi na esteira da sua adaptação animada em longa-metragem, um trabalho cinematográfico soberbo dirigido pelo próprio autor do mangá, Katsuhiro Otomo.

Nessa época, havia um ou outro título japonês com algum destaque no lado de cá do Meridiano de Greenwich, mas os mangás ainda estavam longe de ser este marco pop-cultural que são hoje.

Os quadrinhos feitos no Japão eram lidos da direita para a esquerda e, em sua maioria, em preto e branco. Não eram um produto fácil de adaptar pra cá.

Tanto que quando a Marvel decidiu lançar Akira, em 1988, o fez mediante duas condições: espelhar as páginas e ter um trabalho de colorização (magnífico, diga-se de passagem, assinado pelo artista Steve Oliff, numa das primeiras vezes em que alguém usou cores digitais nos quadrinhos). Foi essa mesma versão que a Editora Globo lançou no Brasil pouco depois.

E quem abriu esse gibi para ler no fim dos anos 1980 e começo dos 1990 se deparou com algo totalmente diferente do que se estava habituado. Em uma distopia, garotos delinquentes, cujo único propósito na vida é andar de moto, brigar com gangues rivais, transar e usar drogas, são os protagonistas. Egoístas, no cenário do eixo da moralidade, eles se enquadrariam facilmente na ponta do “mal”.

No entanto, esse é um dos primeiro pontos que Akira entra para chacoalhar o que se esperava das histórias em quadrinhos. Kaneda, o protagonista, o “herói”, é falho. Mas não por inseguranças ou simples traumas. Ele é falho porque sua motivação primária é o centro do prazer. O cara não liga para nada, não liga pra quase ninguém. É praticamente um oposto do Peter Parker, o alter ego do Homem-Aranha.

Mas o ponto é esse “quase”. Ele se importa com um alguém, a princípio: Tetsuo, seu melhor amigo desde a época em que eram crianças no orfanato.

A história começa num futuro remoto (2019 parecia o futuro remoto em 1982!), com Kaneda, Tetsuo e outros amigos de gangue andando de moto no centro da velha cidade de Tóquio, que foi destruída por uma explosão nuclear durante a Terceira Guerra Mundial. Moleques zoando, fazendo rachas depois de usar drogas psíquicas.

Só que Tetsuo vê um menino estranho na estrada, que, apesar de ter corpo de uma criança de uns 8 ou 9 anos, tem o rosto de um velho. E mais: um número 26 tatuado na palma da mão, e a estranha habilidade de aparecer e desaparecer.

Tetsuo bate com a moto, causa um acidente. O exército, à caça do estranho garoto, aparece e leva Tetsuo embora, pois, por conta do uso das drogas, ele tem potencial para desenvolver os mesmos poderes que o menino apresenta, claramente fruto de algum experimento dos militares.

É o ponto de partida para uma intrincada trama política, militar e cyberpunk ao redor de Kaneda, Tetsuo (que rapidamente ocupa o lugar do antagonista) e Kei, uma misteriosa garota de um grupo revolucionário que está envolvido com a história e captura o olhar lascivo de Kaneda. Isso, é claro, além de um séquito enorme de personagens secundários muito bem construídos.

A cada página, Katsuhiro Otomo apresenta, com sua arte e narrativas espetaculares e detalhistas, mais perguntas e novas camadas à trama, que fica bem longe de se resolver neste primeiro volume.

Tudo isso recheado com cenas de violência explícita, menores de idade usando armas, tiros, poderes psíquicos, cabeças explodindo, raios laser, drogas etc. E a todo momento a moralidade é dúbia. Ninguém é simplesmente bom ou mau. Os personagens transitam dentro do eixo, o que torna cada ação uma surpresa para o leitor.

Tem-se, então, uma história em quadrinhos de ficção científica muito bem ajambrada, que prende o leitor do começo ao fim. Não à toa, é considerada uma das maiores de todos os tempos e pode ser considerada um dos principais marcos da invasão dos mangás no Ocidente.

A edição da JBC é um espetáculo. Pra começar, é no formato original, como a obra foi concebida pelo autor, em preto e branco e com a leitura original. O acabamento gráfico é muito bom, papel e impressão de qualidade, gerando um produto à altura de Akira.

Ah, e quem é o Akira do título do mangá? A resposta vem só no segundo volume.

Classificação:

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