Confins do Universo 126 - Dando cores aos quadrinhos
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ALMAS PÚBLICAS

1 dezembro 2011

ALMAS PÚBLICAS

Editora: Conrad Editora - Edição Especial

Autor: Marcello Quintanilha (roteiro e arte).

Preço: R$ 39,90

Número de páginas: 72

Data de lançamentoAbril de 2010

 

Sinopse

Sete episódios que se passam em diversos locais e épocas, apresentando um Brasil construído pelos pequenos sonhos, medos e tragédias de pessoas comuns.

Granadilha - Os crimes do corpo - Em um subúrbio, uma tragédia muda a vida de Saninho, Tião Pomba-Gira e Zé Bicão.

De pinho - Um pouco da vida de Agnaldo, jogador de futebol profissional de um time da segunda divisão do campeonato baiano.

Três minutos de linhas - Dona Céia é costureira, Nena gosta muito de ver novela e as duas são grandes amigas.

Chão Bento - O menino Noel sente-se dividido entre a educação rígida de seu religioso pai e a atração pelo som dos atabaques de umbanda.

Clarimundo de Melo - Aidano trabalha com uma Kombi de lotação e está tendo problemas com seu colega Sirney.

Fealdade de Fabiano Gorila - Acirzinho quer começar uma carreira como jogador de futebol, mas a morte de Getúlio Vargas cancela seu primeiro dia de treino.

Listras de fevereiro - Os anos da vida de Ismael passam rapidamente, enchendo-se de alegria nos três dias de Carnaval.

Positivo/Negativo

Muitos bons profissionais dos quadrinhos dedicam-se a criar histórias representando o cotidiano. Destes, talvez o melhor seja Marcello Quintanilha.

É impressionante o seu esmero na reprodução dos pequenos detalhes da chamada "vida real". Suas cores reproduzem a luz de um dia ensolarado, o calor que se levanta do chão de terra batida, as sombras dos personagens. A fachada de um prédio, uma rua, o interior de um bar: todos os cenários possuem uma definição fotográfica.

O realismo não está apenas na arte elaborada, mas também no texto. As palavras "soam" como a voz de pessoas reais. O leitor pode "ouvir" os sotaques, sentir os tons de brincadeira, tristeza, desespero. Todo esse cuidado resulta em personagens e cenários com identidade muito bem definida.

Quintanilha não se preocupa com os modelos tradicionais de narrativa. Não há necessariamente um começo, meio e fim em suas histórias. Não há um conflito, uma busca, uma "jornada do herói". Pelo menos não do modo com que o leitor pode estar acostumado.

Problemas corriqueiros, pequenas ansiedades e expectativas, situações rotineiras. É esse material que o artista trabalha, modela, registra.

São sete episódios que parecem fragmentos, pedaços de alguma época ou alguma vida que foram capturados e guardados dentro de um pote de vidro. Ou de uma história em quadrinhos.

Com toda sua técnica e virtuosismo, Quintanilha dá outra dimensão ao cotidiano de seus personagens.

Em De pinho, são mostradas algumas horas na vida de Agnaldo, um jogador de futebol que disputa a segunda divisão no campeonato baiano. Suas esperanças de uma vida melhor se amplificam em um encontro casual com uma equipe de jornalismo, são celebradas pelos amigos e depois desvanecem no treino do dia seguinte.

Por outro lado, nas três páginas de Listras de fevereiro estão contidos praticamente todos os anos da vida de Ismael e o amor que ele tinha pelo carnaval carioca.

A amizade entre Dona Céia e Nena, as preocupações e satisfações de Aidano, as angústias e culpas de Noel, a trágica história de Saninho, Tião Pomba-Gira e Zé Bicão. Sem grandes tramas, mas com muita sensibilidade, Quintanilha constrói belíssimas peças em quadrinhos.

Como seu álbum anterior, Sábado dos meus amores, Almas Públicas foi feito para ser saboreado sem pressa, sem ruído, de preferência em uma tarde ensolarada, daquelas que dá pra ver a imensidão do azul do céu através da janela.

Editorialmente, o trabalho da Conrad só peca pela informação (imprecisa) de que as três histórias deste álbum que já haviam sido publicadas em Fealdade de Fabiano Gorila foram colorizadas - isso ocorreu apenas em Três minutos de linhas.

Classificação:

4,0

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