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Bezimena

Editora Zarabatana BooksR$ 108,00224 páginasLançado em novembro de 2019

Autora: Nina Bunjevac.

 

Originalmente em Bezimena, editora Fantagraphics (tradução de Claudio Roberto Martini).

 

Edição especial.

8 setembro 2020

Sinopse

Benny é um homem que desde a infância sentia uma forte atração por mulheres. Seu comportamento libidinoso e constrangedor foi repreendido por pais, professores e autoridades.

Chegando à vida adulta, Benny conseguiu reprimir seus impulsos e arranjar um emprego discreto. Mas, um dia, ele encontra um misterioso caderno de desenhos e se surpreende ao perceber que aquelas imagens o mostravam vivendo explícitas relações sexuais.

Usando o caderno como um guia, Benny vai conseguindo realizar todas as aventuras mostradas nas ilustrações. Entretanto, o objeto encerra um segredo terrível, que, quando revelado, altera a vida do protagonista para sempre.

Positivo/Negativo

Bezimena é uma história em quadrinhos belíssima, instigante, perturbadora e difícil. Em capa dura, o livro tem um layout interno que valoriza as artes com texturas extremamente trabalhadas de hachuras e pontilhismo. A maioria das ilustrações ocupa uma página inteira e apresenta um aspecto de composição fotográfica, reforçada pelos cinzas das texturas que conferem uma luminosidade muito interessante.

É como se a autora tivesse capturado as imagens, que passam uma impressão muito forte de imobilidade, uma “dureza” que congela o tempo e convida a passear pelos detalhes dos cenários e expressões dos personagens.

A apresentação lembra bastante os livros ilustrados, páginas de texto e imagens contrapostas, mas o modo como essas imagens vão se relacionando com o texto e umas com as outras ao longo da obra a caracterizam como uma história em quadrinhos.

(Verdade seja dita, traçar um limite preciso entre histórias em quadrinhos e livros ilustrados é uma tarefa ingrata e talvez desnecessária).

Deixando as questões formais em segundo plano, o que realmente instiga em Bezimena é o seu tema (violência sexual) e o modo como a autora o abordou. Para construir as considerações a seguir, será preciso revelar detalhes que podem estragar as surpresas de quem ainda não leu. Portanto, a partir daqui o texto trará spoilers – siga a leitura por sua conta e risco.

Com texto e arte da sérvia-canadense Nina Bunjevac, Bezimena é a história de um estuprador contada da perspectiva do protagonista. Só que essa não é a única história ou trama que o leitor vê.

Antes de tudo, vê-se balões que mostram uma conversa entre duas entidades que podem ser estrelas, espíritos ou simplesmente pessoas que não se sabe quem são, por estarem fora do enquadramento da página. São esses balões que vão constituir a voz do narrador.

Esses personagens estão no meio de uma conversa que o leitor passa a acompanhar a partir do momento em que uma delas declara que vai contar a história da velha Bezimena e da Sacerdotisa.

Estava a velha Bezimena a meditar na beira do rio, quando foi procurada pela angustiada Sacerdotisa, que buscava ajuda e aconselhamento para lidar com as crueldades e injustiças do mundo.

Só que a aparente indiferença de Bezimena diante desse sofrimento todo irritou a Sacerdotisa, que ficou furiosa e acusou a velha de ser “insensível e sem coração”.

De repente, Bezimena agarra a Sacerdotisa e mergulha sua cabeça no rio.

Nesse breve momento, durante o mergulho, a Sacerdotisa deixa de existir e nasce como um menino, Benny (aliás, as ilustrações usadas para mostrar essa transformação usam efeitos de op art e conferem um efeito impressionante à cena).

Benny é o protagonista da maior parte do livro. Toda a sua trajetória de vida é marcada pelo desejo sexual intenso e, quando ele encontra o caderno de desenhos, mergulha em uma insana maratona libidinosa.

Até que ele descobre que todas as transas deliciosas que teve foram, na realidade, estupros de meninas de 11, 12 anos. A revelação é feita por policiais quando o prendem. O tal caderno de desenhos, antes cheios de artes eróticas, vira uma coleção de traços infantis. Esse momento, mesmo previsível, é atordoante tanto para Benny quanto para o leitor.

Incapaz de confrontar a realidade de suas ações, Benny acaba se suicidando na prisão.

E, quando ele morre, Bezimena puxa a cabeça da Sacerdotisa para fora da água e pergunta: “por quem você está chorando?”

A autora encerra o livro com um texto autobiográfico no qual conta duas situações aterradoras em que quase foi estuprada. Os relatos são perturbadores e conferem uma complexidade ainda maior à leitura.

Afinal, o que significa tudo isso?

Se fosse apenas a história de Benny, talvez se entendesse que se trata de uma história sobre como as fantasias podem impedir um homem de enxergar as pesadas consequências de suas ações. Talvez uma crítica à indústria pornográfica, que encobre com fantasias, fetiches e ficções uma realidade de exploração e violência. Talvez, em vez de reprimir o pequeno Benny com castigos, seus pais e professores devessem ter levado o garoto a um acompanhamento psicológico. Talvez.

Mas qual é o sentido de Bezimena fazer a Sacerdotisa viver a vida de Benny? Qual é o sentido de transformar uma mulher santa em um homem pervertido?

Em uma entrevista ao podcast The Virtual Memories Show, Nina Bunjevac explica que a história da Bezimena e da Sacerdotisa é uma releitura de uma parábola contada por Alan Watts, um escritor que difundiu culturas orientais nos Estados Unidos durante os anos 1950 e 1960.

Na versão de Watts, era um homem que procurava um sábio pra reclamar da vida e tinha sua cabeça mergulhada em água, transformando-se e vivendo uma vida inteira como mulher. Ao final, o sábio também perguntava ao homem “por quem você está chorando?”.

A reinterpretação da parábola de Watts sobrepõe-se a outra referência apresentada em uma epígrafe do livro: “Uma adaptação modernizada do mito de Ártemis e Sipriotes” – no qual a deusa transformava o homem em mulher, após ele ter feito ameaças de estupro.

A opção da autora por inverter os papéis e transformar uma mulher em um estuprador pode ser um bom truque para instigar leituras e reflexões.

As possibilidades de leituras e interpretações são diversas, mas é evidente que Bezimena é um livro que versa principalmente sobre estupro, sempre esvaziado de sua seriedade nos fetiches das obras pornográficas. Levando isso em consideração, entre especulações e intrigas, a grande certeza é a dor e o horror das violências sexuais.

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