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Fugir – O relato de um refém

Editora Zarabatana BooksR$ 98,00432 páginasLançado em outubro de 2018

Autor: Guy Delisle.

 

Originalmente em S’Enfuir: recit d’un otage (tradução de Claudio Martini).

 

Edição especial.

Por Delfin
8 setembro 2020

Sinopse

Christophe André, na noite de 1º para 2 de julho, foi sequestrado na sede da ONG para a qual prestava serviços. Esta é a história de seu sequestro.

Positivo/Negativo

Quartos vazios. Dias vazios. Semanas e semanas em que os principais acontecimentos cotidianos acontecem meramente da cabeça de uma pessoa. Um sequestro é, por si só, uma violência extrema. Se é longo, pode minar as forças psicológicas da vítima.

O relato da experiência de um sequestrado pode se tornar monótono para qualquer interlocutor. Porém, Christophe André escolheu contar a sua história para Guy Delisle, um autor extremamente versado em observar e descrever graficamente, com grande precisão e senso narrativo, suas vivências.

Delisle é bastante conhecido por sua série de livros sobre países que conheceu acompanhando o trabalho de sua companheira, que presta serviços para a ONG Médicos sem Fronteiras.

Dessas viagens, nasceram obras como Shenzhen, Pyongyang, Crônicas Birmanesas e Crônicas de Jerusalém, vencedora do prêmio máximo do prestigioso Festival de Quadrinhos de Angoulême, na França, o Fauve D'Or. Isso o credencia para grandes narrativas. Porém, todas são muito pessoais, baseadas em fatos vividos por ele e sua família.

Desta vez, sua narrativa estava a serviço de contar a história de outro narrador, uma experiência extremamente íntima, vivida em um local desconhecido para o

autor canadense. Egresso da animação, ele sabe como usar a simplicidade proposital do traço para ilustrar cenários e atos com profundidade, algo que já foi demonstrado diversas vezes.

Em Fugir, Delisle tinha como desafio a repetição por dezenas e dezenas de páginas de cenários muitas vezes desolados, com pouquíssimos elementos. E não apenas abraça este desafio, como o alia à sua já costumeira paleta minimalista de cores.

Contudo, se em outros livros esta paleta conversa com o branco de modo intenso, conferindo leveza à narrativa, aqui ele opta por manter o branco apenas para registrar a passagem dos dias e em determinados balões de fala, aplicados em momentos selecionados da história do sequestro de André.

Na maior parte do tempo, tem-se uma sensação soturna, opressiva, que se estende por suas mais de 400 páginas, ilustrando o ambiente sombrio que cerca o protagonista.

Isso poderia tornar a sequência de páginas cansativa, principalmente porque não existe diálogo possível. André não fala a língua dos sequestradores e vice-versa, o que torna qualquer interlocução profunda simplesmente impossível.

A história é o pensamento de André, suas sensações, sua interpretação dos poucos fatos que lhe são dados, sua luta para não perder a noção dos dias e para manter não apenas a sanidade, como a esperança de qualquer chance de liberdade que possa vislumbrar.

Delisle joga com essas informações em recordatórios breves, aliados a páginas que desvendam, em centenas de ângulos, a solidão do sequestrado e o vazio de seu cativeiro.

Não foi um trabalho fácil. A demanda durou 15 anos e envolveu muitas horas de gravações com o protagonista, pesquisas sobre a Inguchétia e a Chechênia (onde se passa o sequestro), a busca por referências iconográficas e, principalmente, estudos fotográficos para ilustrar o relato do isolamento do sequestrado, que levou o próprio autor a se deixar registrar preso a um aquecedor por algemas, para mimetizar o que houve com  Christophe André.

Fugir é uma experiência impressionante, pois consegue reproduzir, tão bem quanto possível, o estado mental do prisioneiro para o leitor, que é colocado na mesma situação: refém de uma narrativa da qual não se pode escapar. Delisle atinge esse objetivo com mestria, o que torna esta obra um marco importante em sua carreira até então autobiográfica e o credencia para voos narrativos mais ousados.

A versão da Zarabatana segue à risca a original, uma exigência do autor (que não gosta sequer de variações de cores nas capas de seus livros). Como é de praxe na editora campineira, os livros têm grande apuro técnico e gráfico. Fugir – O relato de um refém merece mais atenção por parte dos leitores que buscam grandes narrativas. Especialmente as reais.

Classificação:

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