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Os trilhos do acaso – Volumes 1 e 2

Editora Levoir€ 14,90, cada um.Lançado em setembro de 2017

Paco Roca (roteiro e arte).

 

Originalmente em Los surcos del azar (tradução de Pedro Cleto).

 

Edições especiais.

8 setembro 2020

Sinopse

A trajetória de um soldado da Guerra Civil Espanhola até a Segunda Guerra Mundial, narrada por ele mesmo, já idoso, ao quadrinhista Paco Roca.

Positivo/Negativo

"Para quê chamar caminho aos trilhos do acaso". Este é o trecho de um poema que é citado logo nas primeiras páginas da obra. Ele foi escrito por Antonio Machado, poeta famoso que faleceu na França durante a Guerra Civil Espanhola, após ser obrigado a deixar sua pátria-mãe para trás.

O trecho tem grande relação com a história a partir daqui, na trajetória do protagonista. Seja numa tomada de decisão, num reencontro inesperado, numa rota escolhida – não sabemos o que destino nos traçou, e teremos sempre que lidar com as consequências de nossos atos.

A trama começa com milhares de civis republicanos tentando fugir da Espanha pelo mar, cercados em terra pelo exército do ditador Franco. Apenas um navio rompe o cerco e leva tantos quanto possível embora. No entanto, nenhum porto quer recebê-los.

Daí por diante, o leitor segue com o protagonista, Miguel Ruiz, que, aos 94 anos, relembra sua vida ao quadrinhista Paco Roca (autor do ótimo álbum Rugas, lançado no Brasil pela Devir), também personagem deste álbum.

Da Espanha para os campos de trabalho na África, de lá para os principais conflitos da Segunda Guerra Mundial, Ruiz e seus conterrâneos fizeram parte da La Nueve, uma importante companhia (unidade militar), formada principalmente por espanhóis.

Combatentes elogiados principalmente por sua capacidade de improvisar, sempre emotivos e passionais, eles anseiam pela derrota dos alemães. Especialmente por causa da promessa da posterior derrocada do ditador Franco – que não será cumprida.

Com precisão nos detalhes da arte, Paco Roca cria uma narrativa tão empolgante quanto emocionante. Foram cinco anos de intensa pesquisa, pois não era tão clara a trajetória dos espanhóis na Segunda Guerra. E tudo foi feito com tamanha excelência que, embora o personagem principal (ao que tudo indica) seja fictício, aquilo que o cerca torna a história tão crível, que fica difícil duvidar da veracidade de sua existência.

Um ponto curioso da HQ é que as memórias do ex-combatente são narradas em cores fortes, enquanto o tempo presente está em tons de cinza, mais apagados. Como afirma Pedro Bouça no prefácio, “Certamente para indicar que essas recordações são mais reais, do que a triste realidade na qual se encontra”.

Em Portugal, a Levoir lançou a obra dividida em dois álbuns, diferentemente do original espanhol, em volume único. Na contracapa do primeiro, consta a frase de um jornalista espanhol, chamando Os trilhos do acaso de “o Maus espanhol”. Sem dúvida, a HQ de Paco Roca é uma obra-prima do gênero, mas, à sua maneira, tem (inúmeras) características e qualidades próprias.

Assim, seria interessante rever essa necessidade de comparar quadrinhos de destaque com Maus ou, por vezes, Watchmen. Nem todas as graphic novels vão ser um ponto de virada nessa indústria – e nem precisam ser, pois isso não desqualifica, em momento algum, a importância de uma obra.

Finalizando, Os trilhos do acaso corrobora a incrível capacidade desse autor espanhol em retratar o elemento humano com todas as suas contradições, seja ou não em situações extremas. E mais: ele te faz crer participar dos acontecimentos narrados, tamanha é a imersão na leitura.

Coragem, sorte, amor, tristeza, decepção, acaso. Os personagens de papel e tinta tornam-se tão reais quanto qualquer um de carne e osso, perpassando as páginas para fixarem-se em nosso imaginário. Um quadrinho com alma.

Classificação:

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