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Porto Alegre – Guia inútil de lugares improváveis

Editora Faria e SilvaR$ 75,0096 páginasLançado em maio de 2020

Autor: Guazzelli (texto e arte).

 

Edição especial.

8 setembro 2020

Sinopse

Quando o autor recebe a ligação com a notícia de que sua mãe morreu, parte com sua família para uma viagem ao Sul do Brasil. No percurso, estão suas memórias e a própria condição humana.

Positivo/Negativo

No dia 11 de agosto de 2020, o crítico e professor de literatura Luís Augusto Fischer escreveu, em sua coluna do jornal Zero Hora, sobre Porto Alegre – Guia inútil de lugares improváveis e sobre sua continuação, lançada simultaneamente, A casa azul (que receberá outra resenha no Universo HQ). Guazzelli postou o texto em sua conta de Instagram. E comentou: “nada me assusta mais do que o silêncio”.

De fato, houve um silêncio ensurdecedor sobre Porto Alegre, no meio dos quadrinhos e na imprensa em geral.

A culpa pode ser da desarticulação de tudo que a pandemia causou, pelas livrarias e gibiterias fechadas, pela falta de um evento que seja um marco, pelo preço do álbum, e por serem dois volumes.

Talvez o silêncio venha pelos motivos que Fischer aponta: a HQ causa um estranhamento. Não entrega literalmente o que o título anuncia, ou seja, não é um guia, não fala de lugares improváveis, e sua utilidade só pode ser discutida no âmbito da utilidade da arte de uma forma geral.

Talvez venha pelo profundo desconcerto que a HQ causa em seus leitores.

Há muitas desculpas, mas o fato é que algo está quebrado na engrenagem dos quadrinhos brasileiros quando uma obra tão forte, de um autor como Guazzelli, em um momento como este em que vivemos, não provoca uma reação.

Não se trata de Porto Alegre ser ou não uma das melhores obras do ano, se vai ou não ganhar prêmios, se entra ou não para os cânones. É uma questão menor discutir se o tratamento gráfico do álbum deixa a desejar (e deixa!) e se a revisão deveria ser mais atenta (e deveria!). Tudo isso é secundário perto da força do livro, que lida com questões profundas.

Como dar conta da morte da mãe?

Como dar conta da própria vida, das memórias, dos fardos que cada um carrega?

Como dar conta do mundo em tempos tão miseráveis, tão mesquinhos?

E como dar conta da arte que tenta dar conta de tudo isso?

A capa do álbum mostra um homem à beira de um rio, em que há barcos à vela e um pequeno pedaço de terra ao fundo. De casaco e cachecol, notadamente o homem tem uma maçã gigante no lugar da cabeça. A imagem evoca uma famosa pintura de René Magritte, mas, aqui, a fruta perde matéria, brilho e integridade. Foi comida até o talo, talvez tenha sido tirada do lixo.

Abaixo da maçã carcomida, está o corpo do homem: apesar de tudo, ele segura uma prancheta com uma mão e um lápis na outra. Apesar de não ter rosto, sua postura, ereta e heráldica, indica que ele olha para frente, como se, mesmo sem olhos, observasse o leitor. Apesar de tudo, segue desenhando.

É como fez o autor, o quadrinista vacariense Eloar Guazzelli: diante da morte da mãe, seguiu desenhando. Ele é conhecido por isso: produz incansavelmente, em todo e qualquer lugar, como se dependesse do desenho como quem depende de ar para respirar.

Na página 12, Guazzelli escreve sobre dois desenhos significativos que fez como ilustrador. O primeiro, para um livro de inglês, quando soube que a filha Flora, aos dez dias de vida, iria sobreviver à pneumonia de que sofria. O outro é uma ilustração para a Folha de S.Paulo, interrompido pela notícia da morte da mãe, e completado de forma trêmula, enquanto procurava na internet por um voo para Porto Alegre, para o velório. “Olhando agora dá para perceber um leve tremor no traço. A dor da perda gravada em cada linha daqueles prédios”, diz.

Na página 13, vê-se, de novo, o homem com cabeça de maçã comida até o talo. De novo, desenhando. De novo, observando algo que está à sua frente. Apesar de tudo, não é hora de olhar para trás.

Entrar na Porto Alegre de Guazzelli é se dispor a enfrentar o adensamento dos signos. Nada ali significa só uma coisa. As imagens têm significados múltiplos. Nada é simples, talvez porque a simplificação não caiba nesse contexto.

Na modernidade, os quadrinhos surgiram como uma versão desenhada de narrativas de gênero. O humor veio primeiro, e o gênero ganhou fôlego ao fazer ficção científica, aventura, terror e western. Romance e crônicas tiveram seus momentos. O poema ficou em segundo plano, tendo aparecido em rompantes, como nas obras que surgem a partir do Concretismo – mas aqui se trata de um poema que nasce visual, e talvez seja mesmo outro bicho, e isso fica para outra hora.

O que importa é que, como poucos, Guazzelli faz poesia em quadrinhos. A operação de linguagem é poética. Há figuras de linguagem no texto, na arte e na emulsão de texto e arte que a narrativa de quadrinhos permite.

O Guazzelli da história é um eu-lírico, como Dante ou, para evocar os bancos escolares, Álvares de Azevedo.

Ao dar múltiplos significados às imagens, consegue aproximar o leitor de suas sensações e vivências.

Uma coisa é desenhar debaixo da sombra de uma árvore. Outra é desenhar debaixo da sombra de uma árvore com um demônio tranquilamente sentado na cadeira ao lado, trocando uma ideia.

Uma coisa é atender a ligação do telemarketing, essa experiência de comunicação em que a comunicação margeia o inviável. Outra é atender o telemarketing quando se está consertando um satélite em órbita da Terra.

E há uma diferença entre se hospedar em um hotel na beira da estrada e se hospedar no Bates Motel e topar com as gêmeas Grady, de O Iluminado, no corredor, para logo depois ver as duas se transformarem em imagens criadas por Romero Britto.

Às vezes, as coisas encaixam. Às vezes, nem tanto, porque assim é a vida, mas também a morte... e especialmente o luto. O luto é, por fim, o grande tema da HQ. A perda de uma pessoa amada, e a completa falta de sentido dessa perda.

Porto Alegre foi criado antes da pandemia de covid-19 e da gestão catastrófica da crise no Brasil. Quando o álbum foi lançado, havia em torno de dez mil mortos. Esta resenha sai dias depois de superarmos as 120 mil mortes.

O luto que era de Guazzelli passa a ser, claro, coletivo. Sem que nada disso fosse previsto, as assombrações que seus quadrinhos mostram ressoam desconfortavelmente em todos nós.

A HQ cresce ainda mais diante do colapso do País, e pode ser desde já considerada uma obra fundamental sobre este período em que estamos vivendo e, tragicamente, adoecendo e morrendo.

Classificação:

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