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SHENZHEN – A TRAVELOGUE FROM CHINA

1 dezembro 2008


Autor: Guy Delisle (texto e arte).

Preço: 14,99 libras

Número de páginas: 152

Data de lançamento: Outubro de 2006

Sinopse: O canadense Guy Delisle trabalha como supervisor de animação para um estúdio francês que terceiriza equipes em países do oriente. Desta vez, sua tarefa é acompanhar e corrigir os trabalhos de um grupo em Shenzhen, uma cidade ao sul da China.

Seu desafio, porém, é maior do que apenas corrigir gestos e expressões. Ele terá que viver durante três meses em um pólo comercial em que há poucos falantes de inglês e cuja população é bastante arisca a estrangeiros.

Positivo/Negativo: No ano passado, a Zarabatana lançou no Brasil Pyongyang, a narrativa de viagem de Guy Delisle à Coréia do Norte, um país que vive sob uma ditadura que impõe a seu povo uma medonha cortina de ferro. HQ de primeira grandeza, o álbum partia do cotidiano de seu autor para revelar não só os meandros da vida coreana, mas para também erguer uma bandeira política vigorosa contra o regime e a favor da liberdade.

Pyongyang era um monumento à lucidez e um libelo contra a ditadura. E também uma história em quadrinhos sincera, com uma belíssima arte feita com grafite. Acabou não só na lista de melhores HQs de 2007 do Universo HQ, como também um título premiado em todos os lugares do mundo em que foi publicado.

É importante dar esse contexto para se falar de Shenzhen, a segunda memória de viagens em quadrinhos produzida por Delisle.

Por enquanto, o álbum é inédito no Brasil. A edição avaliada aqui é inglesa, um trabalho bonito, com design sofisticado, capa dura e sobrecapa da editora Jonathan Cape, embora tenha saído antes em inglês pela canadense Drawn and Quarterly e, originalmente, pela francesa L'Association - nada mais natural, afinal, seu autor é um canadense radicado em Paris.

Logo na primeira olhada, é inevitável que se faça a comparação. Afinal, há coincidências demais para que se ignore: mais uma vez, o autor se coloca como o protagonista da trama, indo de novo para um país inóspito e socialista do oriente para administrar uma equipe de animadores. O estilo da arte é o mesmo, o que inclui o traço a grafite e o narigão pontudo do canadense.

Como em Pyongyang, Delisle se dedica à observação zelosa dos costumes e do que acontece ao seu redor. Diverte-se por achar que nunca veria ao vivo um homem que tropeça numa casca de banana. Estranha a comida e o preço das coisas: uma visita ao dentista custa o mesmo que a passagem de ônibus, lavar as cuecas sai pelo valor de uma refeição.

Como relato de viagem, Shenzhen é uma obra preciosa e divertida. O problema é justamente se tratar do sucessor de Pyongyang. O relato coreano é um trabalho mais completo e incisivo, de maior fôlego que o chinês. Como Shenzhen, Pyongyang fala do cotidiano com destreza. Mas vai além ao revelar os bastidores de um país hermético que vive sob o regime de terror comunista. Delisle errou ao fazer do sucessor uma obra menor, que abrange menos temas. A sensação de déjà vu é forte, bem como a idéia de que falta alguma coisa.

Mas não dá para exagerar: Shenzhen é inferior quando comparado ao antecessor, mas não é de se jogar fora. Apesar de tudo, ainda é um denso relato de solidão, permeado com a brilhante capacidade de observação de Delisle. Assim, o autor consegue pôr seu leitor a imaginar sua própria reação em um isolamento semelhante.

Como todo bom relato de viagem, Shenzhen revela-se, página a página, mais do que uma narrativa de não-ficção: é um convite para explorar um lugar novo, sob os olhos e o filtro de uma outra pessoa. E Delisle ainda é um grande companheiro de viagem.

Classificação:

4,0

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