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Tex Gigante # 34 – A vingança de Doc Holliday

Editora MythosR$ 32,90240 páginasLançado em outubro de 2019

Autores: Mauro Boselli (roteiro) e Laura Zuccheri (capa e desenhos).

 

Originalmente em Tex – Albo Speciale # 34 – Doc! (tradução de Júlio Schneider).

 

Edição especial.

8 setembro 2020

Sinopse

Sobreviventes do Bando dos Caubóis, que fora liderado pelos Clanton e cuja maior parte dos integrantes havia sido abatida pelos Irmãos Earp e Doc Holliday, são brutalmente assassinados, um deles sob tortura por meio de materiais de procedimentos dentários.

Doc Holliday, pistoleiro, jogador de cartas e dentista, é o principal suspeito. Enquanto Tex Willer e Kit Carson seguem em seu encalço, outros ex-integrantes do bando têm o mesmo destino de seus antigos companheiros.

A missão dos rangers é encontrar o assassino, que exterminou uma família inocente para realizar sua tarefa, e a verdadeira motivação dos crimes.

Positivo/negativo

Figura famosa e emblemática do Velho Oeste dos Estados Unidos, o dentista John Henry Holliday – ou, simplesmente, Doc Holliday – marcou época como um dos melhores e mais implacáveis pistoleiros da História.

Com pouco mais de 20 anos de idade, Holliday contraiu tuberculose, doença para a qual, na época, não havia tratamento eficiente e era atestado de morte certa e iminente.

De acordo com alguns historiadores, isso pode ter sido determinante para o comportamento do dentista, que, ciente do fim que se aproximava, enredara-se em um caminho de violência, morte e falta de senso de autopreservação, completados por um claro desinteresse pela vida alheia – repleto de encrencas provocadas ou não evitadas, que culminavam em assassinatos a sangue frio e, por conseguinte, mudanças de cidade para fugir da lei e de inimigos em busca de vingança.

Inteligente, culto, poliglota, vestia-se de forma elegante e impecável e era um exímio jogador de cartas, elementos que, juntos, contribuíram para que ele fizesse da jogatina o seu sustento, já que a tuberculose o impedia de exercer a profissão em que havia se formado.

Durante boa parte dessa breve – mas conturbada – história, Doc Holliday esteve acompanhado de sua amante Kate Fisher, a prostituta também conhecida como “Big Nose” Kate. Entre rompimentos e reconciliações, o relacionamento foi pontuado por brigas em que Fisher costumeiramente saía espancada.

Ciente de tudo isso, o leitor pode estranhar o fato de que, fora o relato de alguns violentos episódios reais de que Holliday participou – como o célebre Massacre do O. K. Corral, em Tombstone, no Arizona –, nesta edição de Tex Gigante ele é retratado de uma forma quase nobre e singela, se comparado ao caráter nada exemplar desse personagem histórico. Não é difícil terminar a leitura desta aventura sentindo apreço e compaixão por um homem que foi tão desprezível na vida real.

Em A vingança de Doc Holliday, o pistoleiro é respeitado por Tex, que logo no início afirma acreditar em sua inocência e, ao longo da HQ, não apenas repete isso mais de uma vez, como reforça características leais e cavalheirescas do dentista. Na relação entre Holliday e Kate, apesar das idas e vindas, também não é mostrada nenhuma cena violenta.

O mais curioso nessa romantização do personagem é a imagem antirracista de Holliday. Na HQ, além de ter sido apaixonado – e de nunca ter esquecido – uma jovem negra dos tempos de juventude, Doc é inocentado de outro fato histórico (embora controverso), em que assassinou dois homens negros de forma covarde, simplesmente porque não os queria tomando banho no mesmo rio em que ele e sua turma de amigos brancos estavam.

Não se sabe por que o roteirista Mauro Boselli seguiu essa linha revisionista, mesmo que um longo artigo no início da edição tenha descrito quem, de fato, fora Doc Holliday – apesar de que alguns acontecimentos, como o assassinato no rio, descrito acima, não tenham sido citados no texto.

No entanto, é preciso entender alguns pontos que justificam essa mudança quase radical do conceito e de determinados fatos ligados a Holliday. Pouco ou nada se sabe de concreto sobre a vida do dentista ao final da Cavalgada da Vingança, como foi chamada a iniciativa dos irmãos Earp e de Doc Holliday em perseguição aos sobreviventes da batalha do O. K. Corral, que haviam matado Morgan Earp.

Dessa forma, esta HQ de Tex é nada menos que um exercício de imaginação sobre isso. E se vale do artifício de apresentar um Doc Holliday cansado da violência e sem a sede de vingança que o impulsionava até pouco tempo antes.

Por fim, vale lembrar que, se o dentista ainda fosse o mesmo, Tex teria que prendê-lo ou matá-lo em um eventual tiroteio, o que iria contra o preceito editorial das aventuras do ranger, de não interferir de forma significativa na história dos personagens reais com quem costuma contracenar.

E tudo isso resultou em uma instigante HQ, com muita ação, tensão e a toada detetivesca que permeia as histórias de Águia da Noite.

Mas o que se sobressai em Tex Gigante # 34 é a arte da italiana Laura Zuccheri, nome conhecido dos leitores brasileiros por seu trabalho em J. Kendall – Aventuras de uma criminóloga (Mythos). A artista se tornou a primeira mulher a desenhar uma HQ do ranger.

O detalhismo do traço de Zuccheri chama a atenção. Ela é criteriosa e capta com minúcias a iconografia do Velho Oeste, seja em natureza morta ou viva. O domínio de luz e sombra é o toque final que confere o realismo visual exigido pela trama em várias passagens.

Quem assistiu ao filme Tombstone – A justiça está chegando (1993), com Val Kilmer no papel de Doc Holliday, reconhecerá algumas cenas reproduzidas por Zuccheri na HQ. Uma das mais icônicas está também destacada na quarta capa da edição. Um bom e velho clichê de western em um enquadramento que arrepia qualquer fã do gênero.

A vingança de Doc Holliday pode não ser indicada para quem deseja conhecer a interessante história do pistoleiro. Mas é certamente uma das melhores incursões do personagem real no mundo do entretenimento, que há mais de 100 anos vem representando John Henry Holliday na literatura, no cinema e nos quadrinhos.

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