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Por Deus ou pelo acaso

Editora Pipoca & Nanquim – Edição especialR$ 62,90128 páginasLançado em maio de 2020

Becky Cloonan (roteiro e desenhos) e Lee Loughridge (cores) – Originalmente em By chance or providence (tradução de Alexandre Callari).

12 março 2021

Sinopse

Mesclando fantasia, terror e romance, Por Deus ou pelo acaso reúne três histórias independentes escritas e desenhadas por Becky Cloonan, unidas por um eixo comum: o drama fantástico com pitadas de sobrenatural.

Positivo/Negativo

A experiência de leitura de Por Deus ou pelo acaso é um deleite para aqueles que se interessam pela História da Arte. Há na obra elementos de diversos movimentos artísticos, todos importantíssimos para suas épocas.

O mais recorrente deles é o Romantismo, que se espalhou por todas as artes da Europa do Século 18 e que tinha como características marcantes o medievalismo e o sentimentalismo exacerbado.

A presença do Romantismo em Por Deus ou pelo acaso fica clara logo nas primeiras páginas, na dedicatória escrita por Cloonan. “Dedicado para aqueles que têm uma queda por seus personagens”, diz.

O cenário medieval se faz presente nas três HQs da coletânea, bem como uma presença exagerada – mas não excessiva – dos sentimentos. A saudade, a perda e os traumas são aqueles que mais permeiam as tramas.

Lobos, que abre o álbum, explora o mito do lobisomem, encarando-o sob a perspectiva de uma maldição, não só mística, mas também mental, como um peso enorme e cansativo para quem o carrega.

Na sequência, em O pântano, o roteiro de Cloonan mergulha na simbologia do fantasma, tanto como assombração propriamente dita, de natureza sobrenatural, como de trauma que pode seguir um indivíduo por anos a fio.

Por fim, Deméter gira em torno de criaturas marinhas que conseguem assumir uma forma humana e trata de memórias, tentações e segredos proibidos, temas naturalmente imbuídos de sentimentos exacerbados.

O Impressionismo, movimento que surgiu na pintura francesa no Século 19, é outra escola que está presente em Por Deus ou pelo acaso, embora não da mesma maneira que o Romantismo.

Esse movimento tem como característica principal um afastamento das estruturas formais em busca da expressão essencial de cada obra. Ou seja, não há tanta preocupação em relação à forma, e sim uma valorização da mensagem em si.

É dessa forma que as três histórias de Por Deus ou pelo acaso chegam ao leitor. Cloonan não se ateve muito a criar narrativas lineares com começo, meio e fim, mas sim experiências de leitura que transmitem uma determinada atmosfera e certos sentimentos.

Por isso, o álbum necessita de uma participação ativa do leitor para entender os caminhos das histórias, já que estes não são mastigados e entregues no bê-á-bá de sempre. Esse é o maior trunfo da coletânea, e também seu ponto fraco, já que uma pitadinha a mais de forma talvez pudesse potencializar o impressionismo almejado pela autora. Porque alguns elementos acabam soltos e tomam a forma de pequenos malabarismos narrativos, em vez de recursos que podiam ampliar o alcance emocional das tramas.

Na arte, Becky Cloonan se mostra eficaz em relação à sua proposta. Desenhos que cumprem o papel, mas também não chegam a se destacar. Já as cores de Lee Loughridge são um desbunde, e conseguem transmitir o clima de cada uma das cenas – com aplausos especiais para os tons frios de O pântano.

A edição da Pipoca & Nanquim não deixa a desejar em nada. Com capa dura, papel couché, revisão afiada e dezenas de extras (artes e esboços da autora), é mais um dos muitos acertos da editora, que amplia ainda mais o escopo de seu catálogo, se provando novamente como uma potência no mercado brasileiro.

Classificação:

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