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Sombria

Editora Independente – Edição especialR$ 50,0096 páginasLançado em agosto de 2019

Kiko Garcia (roteiro e desenhos).

12 março 2021

Sinopse

Um artista enfrenta suas angústias numa crise aterrorizante, que afeta absurdamente o seu modo de trabalhar e de interagir com o mundo.

Positivo/Negativo

Um dos artistas nacionais mais importantes dos quadrinhos de terror, Kiko Garcia é mais conhecido por sua série antológica Catacumba, que a cada edição traz histórias de horror curtas com uma pitada de humor, bem aos moldes das antigas Crypta e Mestres de Terror.

Com uma brasilidade bastante evidente, Kiko logo em seu primeiro álbum mais longo, buscou traduzir os causos que ouvia durante a infância no interior para as páginas de quadrinhos. E entregou o ótimo O homem da capa preta, mas é em Sombria que ele eleva sua maturidade artística e apresenta seu melhor trabalho até agora.

Em Sombria, Kiko se arrisca pelos caminhos tortuosos do horror psicológico e transporta para as páginas as angústias que todo artista já passou, ou vai passar.

Será que meu trabalho é bom o bastante? Será que estou perdendo tempo? Será que as pessoas vão gostar do que escrevi? Será que estão sendo sinceras em suas opiniões? Todas estas dúvidas permeiam as páginas da obra, transformadas no mais puro horror metalinguístico.

Aliás, por meio da figura do editor, nunca satisfeito com o trabalho do personagem, enquanto recebe aplausos dos bajuladores em um ambiente que muito se parece com aqueles que se vê em empresas ditas “humanizadas”, o autor expande as possibilidades de identificação com a história.

Você não precisa ser um artista para ter duvidas sobre o seu trabalho e o seu reconhecimento. A “síndrome do impostor” pode surgir a qualquer momento, nos mais variados tipos de profissional.

Então, cabe ao profissional, ou artista neste caso, se reinventar e buscar formas para gerar novos resultados. Impossível não perceber que o próprio Kiko deve ter enfrentado algo do tipo, o que o fez levar seus quadrinhos para outra direção em Sombria.

O alto contraste característico de seu trabalho se mescla aqui a uma bela paleta de cores chapadas que dá um tom onírico bastante apropriado para a trama, embora pudessem ter sido mais bem aproveitadas para trabalhar a passagem de cenas e situações com mais unidade.

Em alguns momentos, os tons mudam mais de uma vez durante a mesma cena, e isso acaba confundindo um pouco. Mas é quando a HQ perde essas cores que o gibi fica mais interessante ainda. Mas isso entregaria alguns spoilers.

Sombria foi um dos melhores lançamentos de horror nacional de 2019, o que, infelizmente, não fica claro pela capa pouco vendável, que não faz jus ao conteúdo do gibi.

Ao arriscar sair de sua zona de conforto para áreas mais sombrias, com o perdão do trocadilho, Kiko Garcia nos mostra sua vertente “mutarelliana”, tornando-se um artista de horror mais versátil e capaz de ir muito além do simples susto.

Classificação:

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