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Entrevistas

Fabien Toulmé, o engenheiro que virou quadrinhista

O autor francês, que morou alguns anos no Brasil, fala sobre as suas obras e também da sua paixão pelos quadrinhos

8 setembro 2020

O francês Fabien Toulmé vem fazendo muito sucesso no Brasil. Nascido em 1980, em Orleães, uma cidade próxima a Paris, ele morou no Brasil, em Fortaleza, onde fez um intercambio no final de seus estudos e se estabeleceu por quatro anos e chegou a abrir um escritório de engenharia.

Este ano, a Editora Nemo lançou por aqui o terceiro álbum de Toulmé, A odisseia de Hakim – Volume 1 – Da Síria à Turquia, primeira parte de uma trilogia sobre um jovem, que devido à situação de seu país, se viu como um imigrante lutando pela sobrevivência em diferentes nações.

O segundo tomo tem lançamento previsto para o final de 2020. Nesta entrevista, o autor fala sobre a carreira e planos futuros.

Com a palavra, Fabien Toulmé.

Universo HQ: Qual sua primeira lembrança relacionada aos quadrinhos?

Fabien Toulmé: Acho que foi quando era criança e tinha uns quadrinhos do Lucky Luke. Eu copiava o Jolly Jumper, o cavalo dele, deitado no chão da sala, tentando reproduzir o estilo.

UHQ: O que você gostava de ler nessa época?

Toulmé: Basicamente, quadrinhos. Eu lia mais quadrinhos do que livros. Tintim, Lucky Luke, Asterix, Os Túnicas Azuis...

Hum, o que mais?  Um pouco de Mickey, Pato Donald, quadrinhos da Disney, mas o foco era mais no material franco-belga.

UHQ: E hoje o que gosta de ler atualmente?

Toulmé: Continuo lendo muito mais quadrinhos do que livros. Prefiro o que a gente chama de graphic novels, ou seja, livros com temáticas mais contemporâneas e sociais, vamos dizer assim.

O tipo de quadrinho que eu gosto de ler são os de reportagem. 

UHQ: Você já deve estar cansado de responder isto, mas como veio parar no Brasil?

Toulmé: Foi meio que por acaso, pois no último ano dos meus estudos na França, como engenheiro, eu tinha a possibilidade de fazer um ano de intercambio numa faculdade estrangeira.

As pessoas que eram bem colocadas num ranking, numa classificação da Universidade, tinham diversas opções, e muitas delas iam pra Inglaterra, para os Estados Unidos, pra Austrália.

Como eu não era um aluno não tão bom, não tinha essa possibilidade de escolher o meu destino. Então, fui pelo clima e pela tranquilidade dos estudos. Aí, vi que tinha essa Faculdade na Paraíba (nota: Universidade Federal da Paraíba).

Eu não conhecia João Pessoa e nem o Brasil nessa época. Por isso, fui procurar na internet onde ficava a cidade, qual era o clima, se tinha praia. E vi que poderia ser um lugar bacana para estudar. E realmente foi.

UHQ: O País era o que você imaginava?

Toulmé: Eu não tinha muita ideia de como seria. É verdade que, quando se mora na Europa, a gente vê muito o Brasil pelo lado do Rio de Janeiro, de São Paulo, que são enormes. E descobri um tipo de cidade que era mais rústica. Bem, isso naquela época, porque João Pessoa evoluiu muito nos últimos anos.

Mas eu não esperava nada em particular, só achei muito bacana. Eu me encontrei bastante nessa cidade, na sua maneira de viver.

UHQ: Como foi a integração com as pessoas?

Toulmé: Pois bem, quando cheguei, eu não falava nada de português. Então, no começo tive que estudar. Andava com um dicionário e fui aprendendo na marra.

E justamente quando você vai assim, se integrando de uma maneira “violenta”, é forçado a ir ao encontro das pessoas, senão fica sozinho. Acabou sendo muito fácil, já eu estava no meio estudantil. Gostei muito dai, essa integração foi fácil.

UHQ: O brasileiro é muito diferente do francês?

Toulmé: Essa questão do brasileiro, do francês, de qualquer nacionalidade é complicada porque não existe um padrão.

Tem vários tipos de brasileiros e de franceses. O brasileiro é capaz de ser mais caloroso, a princípio. Mas não há tantas diferenças. Quer dizer, tem uma: o brasileiro chega sempre atrasado, e até eu entender esse modo de funcionar...

UHQ: Como você começou a fazer quadrinhos?

Toulmé: Pois bem, comecei quando criança, tentando desenhar as personagens que eu gostava de ler. Aos poucos, fui praticando. Parei quando entrei na faculdade e retomei uns 15 anos depois, justamente no Brasil, em Fortaleza, onde abri uma empresa de engenharia.

Para mim, era um trabalho muito chato e essa foi a gota que me fez chegar à decisão de não querer ser mais um engenheiro. Então, aos poucos, voltei a desenhar. Eu conheci alguns quadrinhistas em Fortaleza, principalmente o Daniel Brandão. E participei um pouco do curso dele para retomar o contato com a caneta e os quadrinhos.

UHQ: Mas antes da sua primeira graphic novel, em 2014, você escreveu histórias curtas para algumas revistas.

Toulmé: Justamente. Antes de fazer Não era você que eu esperava, tive que praticar. Eu nunca tinha estudado desenho, sempre fui autodidata.

Depois que voltei a desenhar, tive que ir treinando e, aos poucos, fui mostrando meus desenhos para as revistas, porque achava que não estava pronto para fazer um livro logo de início.

Essas revistas foram meio que minha faculdade de desenho.

UHQ: Nessa época, você conciliava seu trabalho de engenheiro com o de artista? 

Toulmé: Então, o negócio era assim: depois que resolvi me tornar quadrinhista, decidi deixar a empresa que tinha montado em Fortaleza e voltei com minha família pra França.

Lá, encontrei um trabalho de engenheiro, mas menos corrido, me deixando um tempo para desenhar à noite.

UHQ: E quando aconteceu a virada definitiva?

Toulmé: Foi em 2010 que comecei nesse ritmo, até que, em 2012, fui pra Angoulême, um grande festival que tem na França, para encontrar editores e mostrar o que fazia.

E foi assim que encontrei um editor que gostou do meu desenho e conversamos sobre qual seria meu projeto. Acabei falando sobre a minha filha que tinha nascido com Síndrome de Down e que gostaria de contar essa história. 

Então, tudo se inicia em 2012. Durante toda a produção desse quadrinho, eu ainda era engenheiro. Afinal, não era porque tinha assinado um contrato com um editor que podia deixar meu emprego.

Toda a produção de Não era você que eu esperava foi feita enquanto ainda era engenheiro, naquele mesmo ritmo, de trabalhar de dia e desenhar à noite.

UHQ: E como foi o planejamento de Não era você que eu esperava?

Toulmé: Como foi o meu primeiro livro, comecei realmente de maneira muito simples e sem pensar nos detalhes, de como ia fazer, como seriam as etapas de realização.

Comecei escrevendo o roteiro, depois fiz o storyboard, que é uma maneira muito rápida de fazer a diagramação das páginas. E foi assim, diariamente, toda noite, eu ia para minha mesa de desenho para avançar nessa história.

UHQ: E foi muito difícil se expor?

Toulmé: Uma coisa que ajudou bastante é que era o meu primeiro livro, e eu não tinha noção do que era ser publicado e como ia ser o retorno dos leitores.

Acabou que foi muito bom. Recebi muitas mensagens positivas. Quando escrevi, sabia que ia ser lido, mas é difícil você imaginar o impacto que terá na vida das pessoas. Sempre comparo quando você dá uma entrevista no rádio ou na televisão. Você fala e não consegue enxergar o que está atrás do microfone ou da câmera.

Então, não foi difícil justamente por esse motivo. E também porque o meu objetivo era contar realmente o que acontece em tal situação. Por isso, resolvi contar tudo.

UHQ: Apesar de ser uma história autobiográfica, fortemente pessoal e, a princípio, voltada a pessoas que passaram pela mesma situação, como foi o retorno de quem não viveu nada parecido? 

Toulmé: Recebi feedbacks não só de pessoas que enfrentaram uma situação parecida, como de todo tipo de leitores. Pessoas que se sentiram consternados pela temática ou porque já tiveram filhos sem deficiências, mas pensaram na possibilidade de isso acontecer.

Acredito que quando se planeja ter um filho, necessariamente essa questão virá à mesa. Se ele tiver uma deficiência, como você irá reagir?

Eu não sabia na época, mas o forte da história é que ela é universal. Com certeza, isso fez com que fosse bem recebida e me ajudou a crescer na carreira de quadrinhista, pois me permitiu deixar meu emprego de engenheiro para continuar fazendo outras HQs.

UHQ: E como foi a reação da sua família? 

Toulmé: Foi muito boa. Tenho uma família que se comunica bastante. O que eu conto não é segredo, não mudou nada.

UHQ: Como está Júlia, a sua filha, hoje? 

Toulmé: Ela tem 11 anos e vai para a escola. Está crescendo, tem personalidade própria e com as características de uma pessoa com Síndrome de Down.

Júlia aprende certas coisas com mais lentidão, como ler e falar. Hoje, ela fala, mas para aprender foi bem demorado. Sabe o francês e entende muito bem o português. Então, também tem essa dupla cultura, franco-brasileira.

UHQ: Em Duas vidas, a música é muito presente. Qual a importância da música na sua vida?

Toulmé: É importante. Como todo mundo, gosto de escutar música, mas não tanto como na vida de Baudouin.

Na verdade, quis colocar Baudouin numa situação em que ele não conseguiu escolher essa vida de arte. E não usei o desenho para não deixar a entender que eu poderia ser Baudouin.

Então, encontrei outro ramo da arte para ser a paixão dele, a música. Eu escuto canções quando cozinho, faço um esporte ou bebo umas cervejas com os amigos, mas não é algo central na minha vida.

Até estudei violão quando mais jovem, mas não é uma paixão que ocupa muito do  meu tempo atualmente.

UHQ: Em Duas Vidas, Baudouin trabalha como advogado, mas é infeliz no trabalho. O quanto de você está no personagem?

Toulmé: A temática do quadrinho nasceu justamente por essa questão dos caminhos da vida que a gente escolhe. Eu era engenheiro, não gostava e, aos poucos, percebendo que não encontraria minha felicidade pessoal, decidi ver se conseguiria me tornar um autor de quadrinhos.

O que tem de mim em Baudouin é esse percurso de ir para um trabalho que você acha certo, mas, na verdade, está se enganando, fazendo por outra razão; e não por querer realmente estar ali.

Você faz mais pelas questões financeiras, principalmente. Talvez um pouco do prestigio social. Existe isso de mim em Baudouin. Por outro lado, acho que tem muito de mim no irmão dele, Luc, que gosta de viajar, ama a vida e adora sair, farrear. Eu sou muito dos dois. 

UHQ: Você começou com um trabalho autobiográfico, depois partiu para uma ficção e agora, em A odisseia de Hakim, volta a outra história real, mas de terceiros. Foi algo planejado? 

Toulmé: Quando fiz essa sequência, não foi planejado. Mas acredito que foi algo inconsciente, porque gosto de mudar de estilo. Apesar de ser tudo quadrinho, no final das conas, são maneiras diferente de trabalhar.

É uma coisa que vou procurar fazer mais pra frente, alternar entre histórias da vida real, (seja autobiográfica, seja biografias de outras pessoas) com ficção.

Agora, depois de terminar os três volumes de A Odisseia de Hakim (nota: o último saiu na França em junho de 2020),  estou trabalhando numa ficção. E, assim que eu acabar, vou voltar para a reportagem

UHQ: Numa das primeiras passagens da HQ, Hakim diz "Muitos ocidentais imaginam que árabes e muçulmanos não fazem isso, mas a gente também gosta de festas e de encontrar garotas". O que você conhecia cultura Síria antes?

Toulmé: Na verdade, eu conhecia bem, porque já viajei para a Síria antes da guerra acontecer. Tinha pouco menos de 20 anos quando fui com amigos para o Oriente Médio. Estive no Líbano, na Síria e na Jordânia durante mais de um mês.

Então, não era uma cultura totalmente desconhecida. Eu sabia como o povo vivia lá, como era a situação política, enfim.

UHQ: Fez alguma pesquisa mais aprofundada antes das entrevistas, além do aspecto político? 

Toulmé: Nada aprofundado. Teve essa questão da situação política, do contexto internacional da guerra e do funcionamento político da Síria, que eu conhecia de maneira muito superficial.

Depois, minha única pesquisa foi relacionada à paisagem, a aparência dos prédios, esse tipo de coisa. Mas a maior ajuda era do próprio Hakim e do intérprete que me auxiliava nas entrevistas.

Como ele também conhecia a Síria, os dois me davam dicas de como era tal prédio, como poderia ser um prato típico, essas coisas que eu tinha esquecido da época que viajei para lá.

UHQ: Você considera esse trabalho algo próximo das reportagens de Joe Sacco? 

Toulmé: Acho que é uma comparação óbvia, porque ele é uma referência do ponto de vista de reportagem em quadrinhos. Mas eu não diria que se aproxima, pois as obras de Joe Sacco são muito mais... como posso dizer... ele não encena muito a vida dos testemunhos que presencia. Ele analisa muito a situação. Entrevista as pessoas, mas não transforma as palavras delas numa história.

Não sei se estou sendo bem claro. Acho que Sacco analisa essas histórias num ponto de vista mais social, econômico e político. Já eu vou mais para o lado humano. Acredito nisso, mas não sei ser muito objetivo.

UHQ: Como está o mercado de quadrinhos na França atualmente?

Toulmé: Um pouco complexo, porque a produção nunca foi tão forte e a possibilidade de publicar é grande. Mas, ao mesmo tempo, justamente pelo aumento de títulos, cada quadrinho está sendo menos vendido.

Ou seja, está sendo mais difícil para os autores viverem da sua arte. Mas é verdade que, se você conseguir entrar no mercado e se destacar, tem uma chance de viver dos seus quadrinhos.

UHQ: Quando morou no Brasil, não saíam tantos quadrinhos autorais por aqui. Você lia alguma coisa nessa época? Procurava materiais nessa linha?

Toulmé: Em Fortaleza, quando comecei a me abrir novamente para os quadrinhos, tinha pouca coisa nas livrarias e bancas. Basicamente, era super-herói, que nunca li. Tinha mais Turma da Mônica, que jamais explorei muito, e alguns quadrinhos autorais, a maioria europeus traduzidos, como os da L'Association, uma editora daqui que tem Guy Delisle (Crônicas Birmanesas, Pyongyang), Marjani Satrapi (Persépolis), David B. (Epiléptico) e Lewis Trondheim (Gênesis apocalíticos + Os inefáveis).

Vi nessa produção uma nova maneira de fazer quadrinhos. Eu conhecia mais os quadrinhos que chamamos de clássicos, como Tintim, Asterix e outros que já comentei. Então, descobri que podia contar histórias mais longas, com temáticas sérias.

Isso favoreceu minha motivação, minha vontade de ser quadrinhista porque me sentia mais nesse estilo.

Não sou um grande desenhista. Na linha do quadrinho clássico, acho que não tinha muita chance de conseguir. Mas nessa outra linha, com histórias mais, como posso dizer, profundas, eu me enxergava. 

Talvez com um desenho não tão perfeito, mas que bastasse para contar esse tipo de trama. Então, foram esses quadrinhos que me reativaram essa vontade de entrar nesse mercado.

UHQ: Teve contato com algum trabalho brasileiro nessa época?

Toulmé: Encontrei alguns quadrinhos autorais. Adorei Flavio Colin. Li Estórias Gerais e gostei muito do estilo.

Descobri Fábio Moon  e Gabriel Bá, Rafael Coutinho. Não vou dizer que foram influências, mas são autores que curti, e isso abriu mais o leque dos estilos que eu estava descobrindo na época.

UHQ: Como o isolamento social imposto pela covid-19 afetou seu trabalho?

Toulmé: O meu trabalho é feito em casa. Então, desse ponto de vista, não alterou tanto o meu dia a dia.

A única diferença é que não podíamos sair e minhas filhas ficavam em casa comigo, o que me fazia parar mais de trabalhar para ficar com elas. 

Fora isso, considero uma experiência a ser vivida. Se tivessem me dito alguns meses antes que eu viveria algo assim, não teria acreditado.

Por isso, sou grato por ter experimentado essa situação, e espero que ela sirva para todos nós lá para a frente.

UHQ: Um recado final para seus fãs brasileiros? 

Toulmé: Apenas um muito obrigado e um desejo de boa sorte.

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