Assista ao primeiro de todos os filmes adaptados dos quadrinhos
O Museu de Quadrinhos de Angoulême (Musée
de la Bande Dessinée et de l'image d'Angoulême) tem algumas preciosidades
em seu acervo, dentre elas as pranchas da Coleção Quantin que inspiraram
a primeira adaptação para o cinema de uma história em quadrinhos, filme que
pode ser visto abaixo, ao final do texto.
O filme em questão é L'Arroseur Arrosé (que pode ser livremente traduzido como O Jardineiro Molhado), de apenas 50 segundos. L'Arroseur Arrosé foi dirigido por Louis Lumière e exibido ao público pela primeira vez em 28 de dezembro de 1895, no Salon indien du Grand Café, na Place de l'Opéra, em Paris. O elenco é composto por François Clerc e Benoît Duval.
L'Arroseur Arrosé possui três distinções: é a primeira comédia filmada conhecida; é o primeiro filme com uma história ficcional (a maioria dos filmes desse período eram simples registros sem enredo); e é a primeira adaptação para o cinema de uma história em quadrinhos.
A história em questão é uma narrativa gráfica sequencial, mas é um exemplo primitivo do que hoje chamamos de história em quadrinhos e foi desenhada por Hermann Vogel, e impressa em 1887. Vogel certamente se inspirou numa publicação anterior do jornal satírico alemão Fliegenden Blätter, que havia explorado a ideia de um jardineiro regando as plantas.
A gráfica Quantin era uma casa de impressão e ilustração parisiense fundada por Albert Quantin em 1876 e que teve seu auge entre 1885 e 1905. O catálogo da Quantin incluía artes de Caiam d'Ache, Christophe (Georges Colombo), Benjamin Rabear, Job (Jacques Onfroy de Bréville), Hermann Vogel, entre outros artistas.
Grande parte desses originais foram adquiridos praticamente intactos pelo Museu
de Angoulême, em 2002. A Coleção Quantin consiste em 240
arquivos contendo aproximadamente mil documentos, que demonstram os vários
estágios de produção das séries de imagens no estilo Épinal, produzidas por
75 artistas, incluindo roteiro manuscrito, artes originais, páginas aquareladas,
impressão em preto e branco, seleção de cores, impressões em cores,
imagem final e até correspondência entre os autores e os gravadores e administradores
da gráfica.
As gravuras de Épinal eram imagens representando temas populares, feitas com cores brilhantes e vendidas na França durante o século 19. Seu nome está ligado à cidade de Épinal, na região de Lorena, onde Jean-Charles Pellerin começou a imprimir tais imagens em sua gráfica, fundada em 1796, chamada Imagerie d'Épinal.
Essas imagens eram tão populares que viraram uma expressão popular:
uma imagem Épinal se refere a uma representação tradicional e ingênua, que
mostra apenas seus aspectos positivos.
A gráfica Quantin publicou gravuras de Épinal durante algumas
décadas, ao ritmo de 20 pranchas (formato 28 cm x 38 cm) impressas em cores
por ano. A Coleção Quantin do Museu de Angoulême inclui
13 das 21 séries produzidas entre 1886 e 1917. Muitas dessas séries estão
incompletas e algumas imagens estão sendo restauradas.
Esta coleção é um registro importante de um período de transição das artes gráficas. As narrativas gráficas feitas com imagens no estilo Épinal foram gradualmente substituídas pelas histórias em quadrinhos com balões. Apesar disso, esse tipo de narrativa permaneceu popular na França até a década de 1950. Bécassine, uma das séries pioneiras dos quadrinhos, é um exemplo disso.
O Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará realizou, em setembro de 1975, uma exposição com 30 gravuras oriundas da Imagerie d'Épinal representando o cotidiano da França nos tempos da Queda da Bastilha, a Primeira República e o reinado de Napoleão I.