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Recordatório

Stan Lee: ninguém me avisou que ele não era imortal

13 novembro 2018

O mal de todo ídolo (seja da literatura, da música, do futebol ou de qualquer área do entretenimento e da própria vida) parece ser o de, inadvertidamente, nos enganar. Afinal, ele sempre nos faz crer que é imortal e costumamos acreditar – porque nos faz bem saber que ele estará nos dando alegrias durante toda a nossa vida.

Stan Lee, durante seus 95 anos de vívida atuação nos quadrinhos, aparições frequentes em eventos de fãs de HQs e nos filmes da Marvel – sem contar as ocasionais voltas momentâneas à atividade de roteirista, nos anos após sua “aposentadoria” – foi um desses ídolos que, por esses motivos, emitiu um atestado público de sua imortalidade.

Tanto que a inevitabilidade da morte e a ciência desse acontecimento final na passagem de qualquer ser humano por este planeta jamais me fez parar para pensar que esse senhor tão idoso já estava perto de nos deixar. Por mais ilógico que possa parecer, foi uma horrível surpresa receber a notícia da morte de Stan “The Man” Lee, o último dos autores da Era de Ouro dos quadrinhos, que, mais do que ainda presente entre nós, vivia profissional e espiritualmente ativo nos gibis, na TV e no cinema.

Stan acabou de entrar em minha lista de frustrações por não tê-lo conhecido pessoalmente. Como ele viveria para sempre, acreditei que algum dia eu teria essa oportunidade, de acordo com meus planos para os próximos anos.

Há muito tempo já sei o que eu diria se pudesse conversar com Stan, frente a frente. Antes de tudo, agradeceria por ele, mesmo sem saber, ter sido um dos responsáveis por minha infância alegre e divertida e por, até hoje, eu levar comigo parte dessa infância. Diria, também, que meu super-herói preferido, o Homem-Aranha, ajudou a moldar meu caráter, ao ponto de muitas vezes, nas tribulações da adolescência, diante de um problema de ordem moral, eu perguntar a mim mesmo “o que Peter Parker faria se estivesse em meu lugar?”.

Rindo de suas tiradas espirituosas, alegrando-me por suas conquistas, solidarizando-me com seus problemas e suas dores e entristecendo-me por seus deslizes ou polêmicas negativas, cresci tendo Stan Lee sempre ao meu alcance. Talvez, por isso, fiquei tão triste e desconsolado, quase sem acreditar em seu passamento. Senti o mesmo por outros ídolos que se foram. E se eles me fizeram despertar esse sentimento, é porque foram bons para mim, independentemente do que tenham feito de certo ou errado em sua vida.

Vai ser difícil assistir aos próximos filmes da Marvel e não procurar aquele senhor de cabelo e bigode brancos fazendo sua tradicional e divertida ponta. Mais difícil ainda vai ser procurá-lo e não sentir aquele nó na garganta por não encontrá-lo mais. Porque, no dia 12 de novembro de 2018, foi revelado, da maneira que ninguém gostaria de saber, que Stan Lee não era imortal.

Mas, ao menos, descobrimos que agora ele é eterno. Finalmente, poderei, sim, conversar com ele, algum dia.

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