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Do Cruzeiro Novo ao Real: 50 anos de economia brasileira com a revista Mônica

Acompanhe quantas mudanças de valor teve a principal publicação do quadrinho nacional, desde 1970.

29 dezembro 2020

Comemorando 50 anos em 2020, Mônica é o gibi há mais tempo publicado ininterruptamente no Brasil. São mais de 600 edições, sem deixar de estar nas bancas nem um único mês. A revista possui uma estabilidade que impressiona: praticamente não mudou desde sua estreia, salvo um aumento de 64 para 80 páginas, em 1984.

Por isso, por meio de seus preços de capa dá para ter uma ideia da trajetória da economia brasileira no período. Por exemplo, Mônica foi vendida em sete moedas diferentes: Cruzeiro Novo (NCr$), Cruzeiro (Cr$), Cruzado (Cz$), Cruzado Novo (NCz$), novamente Cruzeiro (Cr$), Cruzeiro Real (CR$) e, finalmente, Real (R$).

Mônica # 1, em maio de 1970, custou NCr$ 0,90. O Cruzeiro Novo havia sido instituído pela ditadura militar em 1967, substituindo o Cruzeiro, que estava na praça desde 1942. A primeira edição pegou exatamente o último mês da moeda: ainda em maio, ela seria trocada de novo pelo Cruzeiro.

Naquele mês, Mônica custava 0,48% do salário mínimo, cujo valor era de NCr$ 187,20. Como o dólar estava cotado a NCr$ 4,53, o gibi custava o equivalente a US$ 0,20.

O primeiro aumento da revista veio no # 9 (janeiro de 1971), e foi de 10 centavos: o gibi passou a custar 1 cruzeiro. A partir daí, o preço passou a ser reajustado praticamente todos os anos: foi a Cr$ 1,20 (em janeiro de 1972), a Cr$ 1,50 (dezembro de 1972) e Cr$ 2,00 (dezembro de 1973).

O ritmo e os saltos dos aumentos começaram a  crescer. De Cr$ 2,50 (setembro de 1974) para Cr$ 3 (julho de 1975). A partir daí, a majoração foi de 1 cruzeiro: Cr$ 4 (dezembro de 1975), Cr$ 5 (outubro de 1976), Cr$ 6 (maio de 1977), Cr$ 7 (outubro de 1977), Cr$ 8 (maio de 1978), Cr$ 9 (outubro de 1978).

Em 1979, pela primeira vez o preço de Mônica subiu três vezes num mesmo ano. E os saltos nos valores iam ficando cada vez maiores. Um de três cruzeiros para Cr$ 12 (fevereiro), depois Cr$ 13 (setembro) e outro de 5 cruzeiros até Cr$ 18 (dezembro). O ano terminou com um aumento depois de apenas três meses, e cinco vezes maior que o último reajuste de 1978.

Anos 1980: o preço dispara

No começo dos anos 1980, a inflação no Brasil saiu de vez do controle e o ritmo dos aumentos acelerou cada vez mais.

Em 1980, foram quatro: Cr$ 22 (março), Cr$ 27 (junho), Cr$ 33 (setembro) e Cr$ 40 (dezembro). No mês de junho, o gibi custava 0,65% do salário mínimo (que estava em Cr$ 4.149,60), uma parcela maior do que a de dez anos antes. O preço também era mais alto no equivalente em dólar: US$ 0,52 (1 dólar valia então 51,4 cruzeiros).

Em 1981, seis: Cr$ 45 (março), Cr$ 50 (maio), Cr$ 60 (junho), Cr$ 65 (agosto), Cr$ 70 (outubro) e Cr$ 75 (dezembro). Três anos antes, Mônica custava menos de Cr$ 10: nesse período, o preço já havia subido mais de 700%.

Em 1982, Mônica passou a ter aumentos mensais, a partir de julho. O gibi também teve o único crescimento de páginas de sua história, em setembro, na edição # 149: de 64 para 80, e o preço subiu de Cr$ 115 para Cr$ 130.

Então, a revista que começou o ano custando Cr$ 80, em janeiro, terminou com o dobro: Cr$ 160, em dezembro.

Em 1983, sempre com aumento todo mês (primeiro de 10 cruzeiros, depois de 20 e em seguida de 30), a majoração total já foi mais de 100%: em dezembro, o preço era de Cr$ 360.

No ano seguinte, já era a realidade da hiperinflação. Dez anos antes, o gibi passava nove meses com o mesmo valor e o aumento era de Cr$ 0,50. Em 1984, a mudança de preço era não apenas mensal, mas de dezenas de cruzeiros no começo do ano. E, cada vez maior, quebrou a barreira dos Cr$ 100 de aumento em agosto, quando já custava Cr$ 800. Em outubro, a revista era comprada por Cr$ 1.100.

Em abril de 1985, o Brasil se livrava da ditadura militar. O preço de capa de Mônica já tinha praticamente dobrado (Cr$ 2.100) em relação a outubro do ano anterior. Em dezembro, já custava Cr$ 5.500 e o aumento já era de Cr$ 500 a cada mês. E foi de Cr$ 1.000 entre janeiro de 1986 (Cr$ 6.000) e fevereiro (Cr$ 7.000).

Plano Cruzado e congelamento

Em março de 1986, o governo José Sarney colocou em cena o Plano Cruzado. A moeda muda para Cruzado, perde três zeros e há congelamento de preços. O valor, então, passou a ser Cz$ 7 em Mônica # 191 (mostrado com um adesivo por cima do preço em cruzeiros impresso originalmente na capa).

O congelamento em Mônica durou dez meses, até o gibi sair da Abril e mudar para a Editora Globo. Essa fase coincidiu com a perda de força da nova moeda. O primeiro número, em janeiro de 1987, custou Cz$ 9,30. Em março, o preço já era Cz$ 12. Depois Cz$ 16 (maio) e Cz$ 19 (junho). A partir de setembro (Cz$ 23), os aumentos voltaram a ser mensais.

Em janeiro de 1988, Mônica já custava Cz$ 45, quase cinco vezes mais que em janeiro de 1987. Os aumentos ainda vinham abaixo de 10 cruzados, mas de fevereiro para março houve um salto de 21 cruzados e o preço chegou a Cz$ 75.

De dezembro de 1988 para janeiro de 1989, o aumento foi de 90 cruzados, que havia sido o valor do gibi em abril. Naquele mês, a revista custou Cz$ 460, mais de dez vezes mais que um ano antes.

Em fevereiro de 1989, o Plano Verão mudou a moeda de novo: passou a ser o cruzado novo, com mais três zeros cortados e novo congelamento. Mas o preço de NCz$ 0,46 durou só até maio, quando o gibi passou a NCz$ 0,65. Parece pouco, mas se colocássemos de volta os zeros cortados, o valor teria sido majorado em 190 cruzados.

Os aumentos voltaram a ser mensais a partir daí, e cada vez maiores: de NCz$ 0,80 (junho) para NCz$ 1,20 (julho) e depois NCz$ 2,00 (agosto). Os aumentos vinham abaixo de 1 cruzado novo, mas o preço deu um salto olímpico de 4 cruzados novos em novembro, quando o gibi passou de NCz$ 3,50 para NCz$ 7,50.

Cresceu para NCz$ 10 (dezembro) e o ritmo acelerou ainda mais: NCz$ 15 (janeiro de 1990), NCz$ 25 (fevereiro) e NCz$ 45 (março, espetaculares 100 vezes mais que em março de 1989).

Governo Collor: hiperinflação

Em março de 1990, entra em cena o governo Collor. A moeda voltou a ser o cruzeiro, mas não houve corte de zeros. Em vez disso, o governo promoveu o infame confisco da poupança, reduzindo drasticamente a moeda em circulação.

Em abril, pela primeira vez, o gibi da Mônica teve uma redução de preço, embora mínima: de NCz$ 45 para Cr$ 43. Mas, em julho, a inflação já voltava forte e o aumento foi de 7 cruzeiros, para Cr$ 50. Os reajustes também já voltavam a ser mensais e cada vez robustos: os saltos foram de 10 cruzeiros até novembro, depois de 20 e de 30.

1990 terminou com o Brasil em recessão, com um PIB negativo de 4,3%. Em março de 1991, com o Plano Collor II, aconteceu outra redução no preço de capa de Mônica: de Cr$ 170 para Cr$ 140.

Mas os aumentos voltaram rápidos e ferozes. De maio para junho, a revista subiu 60 cruzeiros (o preço de dez meses antes). O gibi passou a custar, então, Cr$ 220. A partir dai, a hiperinflação fez Mônica estampar na capa preços nunca vistos antes.

 

Em outubro, chegou a Cr$ 500. Depois, a escalada: foi a Cr$ 650 (novembro), Cr$ 900 (dezembro), Cr$ 1.300 (janeiro de 1992), Cr$ 1.600 (fevereiro), Cr$ 2.000 (março), Cr$ 2.500 (abril). A edição de maio estampou Cr$ 3.100 na capa, mas com um adesivo com uma redução de preço para Cr$ 2.400.

Caiu de novo em julho, para Cr$ 2.200, mas voltou a subir acelerado já no mês seguinte: Cr$ 2.600 (agosto), Cr$ 3.500 (setembro) e um aumento de mil cruzeiros em outubro, quando Mônica passou a custar Cr$ 4.500, no mês seguinte ao impeachment de Fernando Collor.

Em outubro de 1992, um marco aconteceu na Editora Abril: a empresa simplesmente retirou os preços das capas de seus gibis. No lugar, passou a constar um código que correspondia a uma tabela enviada periodicamente aos jornaleiros.

Assim, enquanto Tio Patinhas # 327 (uma revista infantil então com 80 páginas, como Mônica) custou Cr$ 5.500 em agosto, Tio Patinhas # 328 vinha com um X5 como preço em outubro. A editora alegou em comunicado nos próprios gibis que a hiperinflação não permitia uma previsão do valor, dada a antecipação da produção das publicações. Os códigos permitiam também um reajuste dentro do mês.

A Editora Globo não adotou este modelo e, assim, Mônica continuou com seus preços de capa cada vez mais impressionantes. De Cr$ 5.500 (em novembro) saltou para incríveis Cr$ 10.000 (dezembro) e depois avançou para Cr$ 14.000 (janeiro de 1993), Cr$ 18.000 (fevereiro), Cr$ 24.000 (março), Cr$ 32.000 (abril), Cr$ 40.000 (maio) e Cr$ 50.000 (junho).

Mônica # 79 chegou a custar impressionante Cr$ 65.000 em julho de 1993. Cem vezes mais que em novembro de 1991 (Cr$ 650), mais de mil vezes mais que em agosto de 1990 (Cr$ 60). O salário mínimo equivalia naquele mês a Cr$ 4.639.800,00 – a Mônica do mês custou 1,40% desse valor e US$ 1,17 (US$ 1 estava cotado a Cr$ 55.676,00, na época).

Em agosto, o governo Itamar Franco lançou uma nova moeda: o cruzeiro real. Mais três zeros cortados. Mônica # 80 apareceu nas bancas custando CR$ 95, o que ainda equivaleria a um aumento de 30 mil cruzeiros em relação ao mês anterior.

Mas a hiperinflação não cedeu: o gibi foi a CR$ 130 (setembro), CR$ 210 (outubro), CR$ 285 (novembro), CR$ 390 (dezembro), CR$ 550 (janeiro de 1994), CR$ 850 (fevereiro).

Em março, Mônica # 87 já custava CR$ 1.200, o que, se devolvêssemos os três zeros do cruzeiro, equivaleria à cifra de Cr$ 1.200.000. Teríamos um gibi custando mais de um milhão!

E ainda subiu para CR$ 1.600 em maio e CR$ 2.600 em junho, um aumento de mil cruzeiros reais (ou de um milhão de cruzeiros) de um mês para o outro: 62,5%.

O Real e a estabilidade

Mônica # 90, de junho de 1994, foi a única a trazer o preço de capa em URV. A Unidade Real de Valor fez a transição para o Real, a nova moeda instalada no mês seguinte. A partir de março de 1994, a cada mês a URV custava um valor diferente em cruzeiros reais, refletindo o poder aquisitivo da moeda. Mônica # 90 custou 1,50 URV. Em 1° de junho, isso correspondia a CR$ 2.863.

Em julho, estreou o real. R$ 1 correspondia ao que antes era 1 URV. Mônica # 91 chegou às bancas custando R$ 1,50 – sem aumento, portanto. A Abril, por sua vez, voltou a pôr os preços nas capas de seu gibis em agosto: Tio Patinhas # 349 custou R$ 1,45.

Naquele mês, o salário mínimo estava em R$ 64,79 – Mônica, portanto, custou 2,315% desse valor, parcela muito maior em comparação a anos anteriores. Em relação ao dólar, a política inicial estabelecia R$ 1 valendo US$ 1 – logo, o gibi custava US$ 1,50, também mais salgado que nos anos anteriores.

A estabilidade da moeda fez Mônica manter o preço por um ano, algo que não acontecia desde 1973. O primeiro aumento veio em agosto de 1995, já no governo Fernando Henrique Cardoso, para R$ 1,80. Outros 13 meses até uma nova majoração, em setembro de 1996 (R$ 2), e mais dez até julho de 1997 (R$ 2,20) e oito até março de 1999 (R$ 2,50).

Foram espantosos quase três anos até um novo aumento: em janeiro de 2002, Mônica # 186 custou R$ 2,70. O seguinte veio sete meses depois, em agosto (R$ 3,20). Mas outro só em março de 2004 (R$ 3,50), já com um ano e três meses de governo Luís Inácio Lula da Silva.

Nessa época, a parcela de Mônica em relação ao salário mínimo havia diminuído: 1,34% de um valor que subiu em maio para R$ 260. O preço em relação ao dólar também baixou: US$ 1,13 (a cotação em 14 de maio era R$ 3,097).

Foram praticamente mais dois anos até novo aumento, em fevereiro de 2006, quando o preço subiu para R$ 3,90. O preço se manteve quando Mônica passou a ser publicada pela Panini, em janeiro de 2007.

Três anos depois do aumento anterior, veio o primeiro aumento na Panini: R$ 4,50 em janeiro de 2009. E foram mais três até janeiro de 2012 (R$ 4,90), com um ano já de governo Dilma Rousseff.

A numeração de Mônica reiniciou em maio de 2015, sem alteração no preço. Foram quatro anos até um novo aumento, o maior período de estabilidade de preço no gibi: em fevereiro de 2016, passou a custar R$ 5,40. O valor se manteve, mesmo com a recessão de 2015 e havia baixado mais em relação ao salário mínimo (que era então de R$ 880): 0,61%. Em dólares, Mônica custava US$ 1,35 (a cotação estava em R$ 4 no fim de fevereiro).

Após o impeachment de Dilma, o preço passou a subir uma vez por ano. De R$ 5,40, para R$ 5,50 (janeiro de 2017), R$ 6 (janeiro de 2018), R$ 7 (janeiro de 2019) e R$ 7,90 (maio de 2020). Mônica custa hoje cinco vezes mais que no começo do Plano Real, implantado há 26 anos: uma média de aumento de R$ 0,24 por ano.

Em relação ao salário mínimo, que atualmente vale R$ 1.045, o preço do gibi equivale a 0,75%. E em dólar, que fechou em R$ 5,17 no dia 24 de dezembro, Mônica custa US$ 1,53.

Evidentemente, os valores aqui mostrados não passaram por uma equivalência monetária, mas dão uma bela amostra do que foi colecionar uma revista em quadrinhos (isso se refletiu em revistas dos mais diversos gêneros, vale mencionar) no Brasil desde 1970.

Renato Félix não é jornalista especializado em Economia, mas fez esta matéria ao lado de sua calculadora.


Gráficos por Marcelo Lv Cabral
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