Confins do Universo 142 - Editoras brasileiras # 3: Grafipar, ascensão e queda -
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A CHEGADA

1 dezembro 2011

A CHEGADA

Editora: Edições SM - Edição especial

Autor: Shaun Tan (texto e arte) - Publicado originalmente em The arrival.

Preço: R$ 48,00

Número de páginas: 128

Data de lançamentoNovembro de 2011

 

Sinopse

É a história de um imigrante, como tantos outros, que deixa sua terra natal buscando melhores condições de sustento para sua família. Chegando a um novo e extraordinário país, precisa aprender a decifrar idiomas e costumes.

Em sua jornada, conhece outros imigrantes, cada um contando o passado que os trouxe até ali.

Positivo/Negativo

"Álbum" é a palavra mais apropriada para definir este trabalho do australiano Shaun Tan. Afinal, toda a concepção das belíssimas ilustrações e projeto gráfico é feita com base em referências à linguagem fotográfica.

A fotografia não é pensada apenas como uma captura realista de imagens, mas como memória, documento e registro de fatos e histórias.

É como se o leitor tivesse em mãos um antigo "álbum de fotos", cheio de fragmentos de vidas, pedaços congelados de momentos, vestígios das viagens de pessoas que deixaram suas terras natais para sempre, buscando a providência e a felicidade em um lugar jamais visto.

As intenções, referências e pesquisas por trás da obra são apresentadas pelo próprio autor de maneira sucinta em um posfácio. Mas a fotografia e seus significados são apenas parte da elaborada narrativa de Shaun Tan.

A linguagem sequencial é fundamental para o resultado final da obra.

Os desenhos a lápis evocam a linguagem fotográfica em sua composição e acabamento realista. Não há textos de diálogos ou narração. Pelo menos, não com palavras compreensíveis. Tudo é contado apenas com a justaposição das belas imagens.

Trata-se de uma excelente história em quadrinhos. Silenciosa, cativante e com um roteiro muito bem definido. Shaun Tan demonstra um precioso domínio da linguagem sequencial no layout da página, ritmo e escolha dos momentos a serem mostrados.

O tema principal da obra é o que faz um imigrante: deixar para trás tudo o que conhece para mergulhar em um novo, diferente e surpreendente mundo. Mesmo sem a utilização de palavras, sentimentos como esperanças e saudades são muito bem representados por meio das imagens ou com metáforas visuais.

Entretanto, é ao retratar o estranhamento e o fascínio pelo novo que a obra mostra seu aspecto mais genial: a combinação de elementos reais e fantásticos.

As primeiras páginas apresentam o protagonista e sua família ainda em seu lar original. São mostrados objetos familiares, como um relógio, uma xícara, um porta-retratos. As roupas dos personagens são comuns: chapéu, camisa, colete.

Tudo leva a crer que a cena se passa em uma casa comum, em algum momento indefinido do passado. Poderia ser a juventude de avós ou bisavós. Contudo, quando o protagonista transpõe a porta da casa, o leitor percebe que aquele não é o mundo real.

A coexistência de elementos fortemente familiares com outros extraordinários confere uma intensa atmosfera onírica ao trabalho. Mas, ao mesmo tempo, reforça a sensação de estranheza e assombro diante do novo país.

O "diferente" está presente nos pequenos detalhes e objetos comuns, em veículos impossíveis e nas estranhas criaturas que acompanham os personagens.

Aliás, essas criaturinhas merecem destaque. Todos os personagens que aparecem possuem uma, como se fosse um animal de estimação. Ao chegar à terra nova, o protagonista logo é "adotado" por um desses pequenos e interessantes "Pokémons".

As palavras presentes na história são compostas por símbolos inventados que compõem uma escrita desconhecida e indecifrável. Eles aparecem em documentos, cartazes e bilhetes e reforçam ainda mais a sensação do que é ser um estrangeiro.

Além dos diversos detalhes e recursos que transmitem as impressões do imigrante diante do estranho mundo novo, merece elogios o contato do protagonista com as outras pessoas que estão em situação semelhante à sua.

O personagem principal vai conhecendo pessoas que o ajudam, trocam experiências e contam sobre o que os trouxe até ali. Essas histórias também são contadas em silenciosas e impressionantes sequências visuais.

Talvez, mais do que falar sobre imigrantes, o grande tema de Shaun Tan seja justamente o contato entre as pessoas, a solidariedade e camaradagem que superam as dificuldades de idiomas e diversidades culturais.

A última imagem da história tem uma beleza terna e reitera que, apesar das diferenças, somos todos integrantes de uma única comunidade chamada espécie humana.

A chegada coloca-se ao lado de trabalhos como Três Sombras e Quando eu cresci como um dos lançamentos mais marcantes do ano, ao abordar de modo fantástico temas delicados e fundamentais.

E, definitivamente, é a melhor história de "Pokémon" de todos os tempos.

Classificação:

4,0

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