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Blueberry – Amargura Apache

Editora Faria e Silva – Edição especialR$ 89,0064 páginasLançado em Outubro de 2020.

Joann Sfar (roteiro), Christophe Blain (desenhos, cores e roteiro) e Clémence Sapin (cores) – Originalmente, na França, em Une Aventure du Lieutenant Blueberry 1 – Amertume Apache (tradução de J.R. Penteado).

15 janeiro 2021

Sinopse

Um trio de adolescentes, pertencentes a uma seita religiosa instalada na região do Forte Navajo, comete uma atrocidade contra a mulher e filha de Amargura, um proeminente guerreiro apache. O crime é descoberto pelo Tenente Mike Blueberry, que passa a correr contra o relógio para levá-los à justiça.

A escalada de ações de cada um dos lados envolvidos nesta trama ameaça jogar a região em mais uma guerra aberta entre indígenas e brancos.

Positivo/Negativo

É excelente ver Blueberry sendo publicado novamente no Brasil. O carismático aventureiro do Oeste criado por Jean “Moebius” Giraud (à época, assinando como Gir) e Jean-Michel Charlier é, indubitavelmente, um dos maiores expoentes do faroeste nos quadrinhos e um enorme sucesso na Europa. Talvez o nome de maior peso do gênero no mercado franco-belga, excetuando-se os de pegada humorística.

São mais de 50 álbuns publicados, divididos entre Blueberry, A Juventude de Blueberry e Marshall Blueberry.

Infelizmente, nunca foi um sucesso de vendas por aqui. Estreou no Brasil em 1976, pela Editora Abril, com O Homem da Estrela de Prata. A sua aventura original, o arco do Forte Navajo, só viria, entretanto, em 1980, numa publicação incompleta pela editora Vecchi.

Caberia à Abril, dez anos depois, trazer Forte Navajo na Graphic Novel # 21 e concluir a saga em mais quatro volumes de Blueberry, em cores. Voltaria a sair pela editora em 1992, com mais quatro volumes da revista em preto e branco Tenente Blueberry. Entre 2006 e 2007, a Panini publicou, em três volumes, o arco Mister Blueberry, com texto e arte apenas de Moebius. E foi só. Até agora.

A publicação trazida pela recente Faria e Silva, do antigo editor-chefe da Sesi-SP, não é, entretanto, um dos álbuns clássicos. É recente, saído do forno no final de 2019. Por iniciativa da Dargaud, os consagrados Sfar (vencedor do Yellow Kid do Festival de Lucca, na Itália) e Blain (duas vezes vencedor do Álbum do Ano no Festival de Angoulême, na França) se uniram para trazer à luz uma nova aventura do período em que Mike era um tenente da Cavalaria.

Tais publicações são comuns na Europa, e não são inéditas ao próprio personagem, que já teve diversas histórias da sua juventude escritas e desenhadas por François Corteggiani, por exemplo.

A obra, em si, não deixa a desejar para nenhum fã. É um western dinâmico, que foge do básico, digno dos roteirizados por Charlier e Giraud. A trama vai circulando bem entre três núcleos principais, dando as cartas como um pôquer tenso, em que os riscos são altos para todos os jogadores.

Assim como em suas aventuras clássicas, em todos os grupos envolvidos há pessoas decentes e seres humanos desprezíveis, e há tridimensionalidade em suas motivações. Pinceladas de crítica a discriminação racial, machismo, fanatismo religioso e a violência gerada por estes estão presentes.

Chama a atenção a força das duas personagens femininas de maior destaque: Bimhal, a filha do pregador, e Ruth Tyreen, esposa do comandante do Forte Navajo.

É, paradoxalmente, uma boa e uma má porta de entrada para novos leitores. Não há nada que necessite explicação prévia para ser entendido ou nenhum fato amarrado a uma cronologia ao longo do álbum. Mas, especialmente na apresentação dos coadjuvantes do Forte, pode ficar a sensação, para um recém-iniciado, de que há relações costuradas previamente, ali. Mas, não há.

Exceto por Jimmy McClure (amigo e parceiro recorrente nas histórias), são personagens apresentados pela primeira vez nesta história. Mas o texto deixa claro que eles já têm algum passado com o protagonista. Isto pode deixar alguém que conheça a série agora com a falsa sensação de que perdeu algo importante, por não ter lido outros volumes.

A arte não tenta, em momento algum, emular Gir. Blain imprime seu traço, competentíssimo, mas menos solto que o habitual, de maneira que ainda haja familiaridade com este universo e seus habitantes, para os leitores antigos. Blueberry não causa estranheza alguma aos olhos habituados a vê-lo por outros desenhistas.

As paisagens desérticas estão belíssimas, os rostos dos personagens expressivos e distintos – exceto pelos indígenas, única crítica ao desenho. A narrativa gráfica nas cenas de ação é clara, dinâmica e empolga. As hachuras carregadas são muito bem usadas para marcar as cenas noturnas e de tensão.

A paleta de cores é muito competente; varia de bastante ampla durante as cenas diurnas a céu aberto, para reduzida, lúgubre e quente, nos interiores e à noite, ficando quase monocromática, de acordo com a fonte de luz.

A edição da Faria e Silva poderia ser melhor. Não faz feio, mas é pouco, para a publicação de um ícone dos quadrinhos. O formato escolhido é excelente, grande e valoriza a arte, assim como o papel tem ótima qualidade. E capa dura.

Mas é nos detalhes que mora o diabo. A cola da contracapa vaza na borda, o que talvez explique a edição vir com duas cartolinas de proteção dentro, e denota desleixo da gráfica.

Além disso, há alguns erros de revisão, como uma ou outra pontuação inadequada; o nome de Bimhal é escrito errado algumas vezes, nas primeiras páginas; e há, ainda, um “a pouco”, em vez de “há pouco”. Não estraga a experiência, mas esperava-se um esmero maior na produção.

Não há sequer um texto introdutório, um editorial que o valha. Não há biografia dos autores, que, inclusive, tem obras publicadas no Brasil: Joann Sfar, com O gato do rabino (série que a Jorge Zahar não concluiu), O Pequeno Príncipe (Agir) e Pequeno Vampiro e o Kung Fu (Jorge Zahar); e Christophe Blain, com Isaac, o pirata (Conrad) e Gus (Sesi-SP).

Fosse esta uma edição simples, de baixo custo, não seria necessário. Mas não é o caso. Nem a quarta capa conta com a tradicional sinopse, apenas uma ilustração do protagonista em fundo branco, o que não ajuda muito a vender um personagem que não é exatamente o Batman, em termos de popularidade no Brasil.

Contar apenas com os iniciados é praticamente um suicídio editorial. Mas toda a estratégia de comunicação, desde a campanha do Catarse até a divulgação do livro já pronto, parece satisfeita em ter apenas estes para vender um álbum caro, com 64 páginas, por uma editora iniciante, em meio a uma crise econômica, com uma história que só deve ter sua segunda metade publicada na França em 2021 – e isso não é informado. Seria até bonito ver uma fé tão forte no produto, não fosse mais provável tratar-se de miopia quanto à realidade.

Tomara que a história em si e o boca a boca consigam atrair novos fãs brasileiros para o tenente de nariz quebrado. E que a Faria e Silva melhore sua capacidade de conversar com o público, capriche mais nos detalhes em suas edições e publique a continuação deste álbum. E, claro, que mais Blueberry possa sair no Brasil, e mais pessoas o conheçam.

Classificação:

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