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HARD BOILED - À QUEIMA ROUPA

1 dezembro 2001

Hard BoiledTítulo:
HARD BOILED - À QUEIMA ROUPA (Pandora
Books
) - Edição especial

Autores: Frank Miller (roteiro) e Geof Darrow (desenhos).

Preço: R$ 29,90

Data de lançamento: Dezembro de 2002

Sinopse: Em 2029, em meio a uma Los Angeles que faz São Paulo parecer uma cidade organizada e humana, Carl Seltz, um investigador de seguros, tem uma dia daqueles e, como não podia deixar de ser, vive uma dilema: muda de vida ou fazer um upgrade?!

Positivo/Negativo: Para cada linguagem, uma obra marcante tem, entre outras características, o poder de despertar o interesse para novas leituras: um quadro de Gauguin pede mais que um olhar; A Cartuxa de Parma, de Stendhal, a cada nova leitura, revela-se um romance novo; Blade Runner, de Ridley Scott, é daqueles filmes que, por mais que seja imitado, não deixam de ser atuais e, por isso mesmo, perturbadores. Há outros exemplos, é óbvio !

Para a linguagem das histórias em quadrinhos, existem criações paradigmáticas que definem a produção de uma época. São aquelas que compreendem e atingem o momento de seu surgimento, o que faz com estejam a frente de seu tempo e se projetem para o futuro.

Dois exemplos, do que foi afirmado acima, são Piada Mortal e Cavaleiro das Trevas, respectivamente, de Alan Moore e Frank Miller. Na Europa, é claro, há toda a obra de um certo Moebius.

A HQ Hard Boiled - À Queima Roupa (péssimo este sub-título em português) é séria candidata a ingressar neste seleto grupo de clássicos contemporâneo da nona arte.

A afirmação de que esta aventura pode ser, mas ainda não é um clássico, evidentemente, é discutível. A ponderação não existe para desmerecer a obra, pelo contrário, mas para ressaltar a complexidade da mesma. Hard Boiled é a transposição e adaptação para os quadrinhos de uma série de propostas da cultura pop, que nascem com o movimento punk inglês e a popularização dos computadores a partir dos anos 80: no lugar do otimismo da flower power, a estética da violência high-tech como meio de expressão do niilismo, individualismo e narcisismo dos novos tempos de competitividade e instabilidade ainda maiores.

Há ecos de Hard Boiled em Matrix, filme do qual Geof Darrow é um dos responsáveis pela direção de arte. Mas a imaginação e conseqüente questionamento que faltam ao filme dos irmãos Wachowski predominam nesta obra de Miller.

Há a história angustiante do roteirista, que lida com o maior dilema do homem moderno,ou seja, os desafios da compreensão e a construção da identidade. Para Miller, é preciso pensar de maneira cada vez mais complexas para existir!

O trabalho de Geof Darrow exige interesse do leitor.É preciso tempo e atenção para percorrer os muitos caminhos que o desenhista cria para que o olhar passeie por Hard Boiled.

Inicialmente, faz-se necessário compreender isoladamente cada uma destas partes. Num segundo momento, para que este lançamentos da Pandora Books faça algum sentido, realiza-se a soma da partes: a angustia existencial do herói de Miller é conseqüência de uma quantidade de informações que o mesmo não consegue processar, a própria idéia de manipulação é uma possibilidade; enquanto a arte de G. Darrow, por seus detalhes e referências, procura, pelas imagens, desorientar o leitor.

Se o belga Hergé, na primeira metade do século XX, criava cenário ricos em detalhes étnicos e geográficos para destacar a simplicidade e integridade de seu Tintin; os criadores de Hard Boiled criaram uma Los Angeles massificada e poluída, pela abundância da sociedade de consumo, para aniquilar a individualidade do protagonista.

Ponto positivo para a editora, que trouxe a série que ficou anos inacabada devido ao "chapéu" que a Atitude deu em seus leitores, deixando várias séries inacabadas. Na época, Leandro Luigi Del Manto e Maurício Muniz (diretores da Pandora) eram os editores da obra, e parecem ter cumprido uma "dívida de honra" com os leitores. Pena que optaram por lançar a obra em preto e branco. Não que isso prejudique o traço soberbo de Darrow, mas a cor original era belíssima.

De negativo, apenas as letras dos balões, que ficaram "serrilhadas" em várias páginas.

Leitura obrigatória. Tomara que nunca seja adaptada para o cinema.

Classificação:

4,0

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