LO QUE EL VIENTO TRAE
Autor: Jaime Martín (texto e arte).
Preço: 17 euros
Número de páginas: 80
Data de lançamento: Fevereiro de 2008
Sinopse: Rússia, 1916. Às vésperas da revolução comunista, um jovem cirurgião é enviado a um pequeno hospital no interior do país. Lá, é desacreditado pela população por conta de sua juventude.
Positivo/Negativo: O tom azulado que aparece já na capa é a primeira coisa que chama a atenção ao se folhear Lo que el viento trae (em espanhol: O que o vento traz). É a mesma cor que está nas páginas do miolo, predominando em meio a alguns conjuntos mais próximos do marrom e do vermelho.
São cores lindíssimas, e por si só já chamariam atenção mesmo no universo estético dos quadrinhos europeus.
Mas
o destaque é ainda maior por conta de seu autor ser quem é: Jaime Martín,
conhecido principalmente por seu trabalho em preto-e-branco, e mais ainda
aqui no Brasil, onde há pouco a editora Conrad compilou, no volume
Vida
louca, as histórias da série Sangue de bairro.
Mas não tem por que seguir assim. Curiosamente, é o roteirista brasileiro Wander Antunes que está roteirizando o novo projeto colorido de Martín, Hard Times, uma HQ sobre a Grande Depressão nos Estados Unidos que, pelos previews divulgados, segue a mesma linha de colorização.
Outra marca de Martín era o cenário das HQs: catalão que é, também produzia material profundamente urbano, enraizado nas ruas de Barcelona, com uma pegada social.
Em Lo que el viento trae, o cenário mudou. É a Rússia, fria... azul! O que fica em comum é o conflito de gerações: os velhos aldeões não aceitam o jovem médico da capital, que para eles é inexperiente, insensato, incompetente. À sua ciência, preferem até mesmo as ervas mágicas da enfermeira do próprio hospital.
A
chegada do comunismo é tema apenas das primeiras páginas, quando o cirurgião
ainda está em Moscou e se vê envolvido com os bolcheviques. Depois, a
história muda de rumo. Passa a falar das dificuldades de o vilarejo aceitar
a modernização.
Enfim, há uma grande reviravolta, excelente, sutil, surpreendente, que revela a verdadeira vocação de Lo que el viento trae: o terror, um terror devastador, mas que nem vem ao caso se comentar em profundidade. Basta dizer que, ao chegar lá, cada momento da obra se entrega a essa revelação.
O livro é primoroso. A edição da espanhola Norma está à sua altura: além da tradicional capa dura e do formato álbum, típicos da banda desenhada européia, há uma farta seção de extras comentados por Martín, com rascunhos, fontes de inspiração e até mesmo quadrinhos cortados antes da versão final.
Lo que el viento trae é uma HQ que merece atenção e consideração não só dos leitores, mas também dos editores brasileiros. Afinal, é um trabalho maduro de um autor que, a cada obra, se mostra mais intenso e encantador.
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