O Paraíso de Zahra
Editora: Leya / Barba Negra - Edição especial
Autores: Amir (roteiro) e Khalil (arte).
Preço: R$ 39,90
Número de páginas: 272
Data de lançamento: Janeiro de 2012
Sinopse
Após suspeita de fraude nas eleições presidenciais no Irã, em 2009, os estudantes tomam as ruas e são violentamente reprimidos. O desaparecimento do jovem Mehdi leva a sua mãe e o seu irmão a uma incansável busca, que irá revelar a crueldade e corrupção instaurada no país.
Positivo/Negativo
Assim que foi anunciada a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad sobre o candidato da oposição Mir Hossein Mousavi, o Irã foi tomado por protestos. Falava-se em fraude e irregularidades, já que o resultado foi divulgado tão rapidamente após o sufrágio.
Indignada, a população foi às ruas protestar. Durante dias, os tumultos foram crescentes, violentamente reprimidos. A imprensa e a internet foram censuradas, várias pessoas foram presas, feridas e mortas durante as manifestações, outras tantas desapareceram.
As manifestações em Teerã ganharam o mundo. As redes sociais e os veículos de comunicação criticavam as represálias aos manifestantes, exigiam investigações.
Durante dias, o caos e as insatisfações foram generalizados. Com a censura aos repórteres internacionais, a internet se tornou o principal veículo de notícias sobre toda a confusão instaurada.
Todo esse contexto político é importante para se entender a gênese de O Paraíso de Zahra. A história foi originalmente publicada em um blog, traduzida para vários idiomas antes mesmo de ser impressa e, com isso, ganhou destaque mundo afora.
Compara-se O Paraíso de Zahra a obras como Maus e Persépolis, mas deve-se ressaltar que, enquanto essas últimas são biografias, a primeira é uma obra de ficção.
Só que em momento algum isso diminui a força do drama vivido pela família de Mehdi ao tentar encontrá-lo. A busca passa por hospitais, prisões, casas de figurões políticos e religiosos, repartições públicas, escritórios de burocratas. Em cada local, os autores desenterram segredos e revelam a podridão das elites dominantes no Irã.
É este, inclusive, o ponto forte da história: embora fictícia, ela é incrivelmente real e esclarecedora. Todo o contexto é bem explicado, os personagens são bem trabalhados e o cenário de política do Irã é questionado. É um grande mérito dos autores conseguirem transmitir para o Ocidente os valores da cultura iraniana, ao mesmo tempo em que mostram sua indignação com os rumos do país nos últimos anos.
Não por acaso, o título da obra remete não apenas à mãe do estudante, mas ao cemitério próximo à cidade de Teerã, batizado com o nome da filha do Profeta Maomé, símbolo de pureza e graça. Diz a lenda que aqueles enterrados ali são transportados ao Paraíso. Mas o que se tem enterrado ali é essa violência contra crianças, contra as ideias, que há anos vêm sendo sufocadas no Irã.
É inevitável fazer aqui um paralelo com Persépolis, da também iraniana Marjane Satrapi, que mostra como foi a revolução de 1979, que estabeleceu a atual república islâmica. Em O Paraíso de Zahra, vê-se que a insatisfação após 30 anos chegou ao limite, que o povo iraniano anseia por mudanças e que está se preparando para lutar por ela.
A qualidade do texto é enriquecida pela qualidade gráfica da edição. Khalil, em sua primeira graphic novel, faz uma arte rica e detalhada, com um traço limpo e bom uso de sombras, valorizando o preto e branco.
O livro é acompanhado ainda de um glossário, explicando diversas expressões árabes, as principais figuras políticas e religiosas do país e alguns textos e discussões sobre o Irã contemporâneo e os fatos retratados na história. Termina, porém, com uma chocante lista de 16.901 nomes, o Memorial Omid, de todos aqueles executados durante o período da República Islâmica do Irã
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