Confins do Universo 137 - Ah, as supersagas dos anos 1990! -
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Quaisqualigundum

15 agosto 2014

QuaisqualigundumEditora: Dead Hamster – Edição especial

Autores: Roger Cruz (roteiro) e Davi Calil (arte).

Preço: R$ 45,00

Número de páginas: 96

Data de lançamento: Julho de 2014

Sinopse

Histórias com risos e lágrimas de pessoas comuns vivendo numa metrópole que está em constante mudança. Vidas que se cruzam numa homenagem aos “causos” cantados pelo sambista Adoniran Barbosa (1910-1982).

Positivo/Negativo

O álbum é composto por quatro histórias com personagens das músicas de Adoniran Barbosa. A leitura de Quaisqualigundum é tão fluída quanto a cadência da batucada improvisada de uma roda de samba entre amigos usando a mesa do bar ou uma caixinha de fósforos.

Os autores se baseiam em clássicos como Saudosa maloca, Apaga o fogo, Mané, Um samba no Bixiga e Samba do Arnesto, mas não fazem uma mera adaptação das suas letras. Cruz e Calil edificam construções de personagens que extrapolam os limites temporais ou temáticos das canções.

O mérito é “apresentar” o cantor e compositor paulista para quem não conhece sem deixar o leitor perdido em referências ou ciência das músicas. Ao mesmo tempo, as narrativas impulsionam a (re)descobrir as letras cheias de tragicomédia, boemia, urgência social e linguajar popular.

A primeira história, Maloca, mostra a vida pregressa dos três amigos (“eu, Matogrosso e Joca”), da vivência dura das ruas de São Paulo ao sonho de ter um lugar seu. Cruz pega a “essência” do descaso das autoridades com os sem-teto (“Deus dá o frio conforme o cobertor”) e a crescente e impiedosa verticalização da metrópole, amarrando o desfecho com um fragmento da música usando coadjuvantes criados exclusivamente para a HQ.

O tema e a linguagem popular adotados por Adoniran lembram também a letra de Cidadão, música composta por outro Barbosa, o baiano Lúcio, que ficou famosa nas vozes de dois “Zés”: o mineiro Geraldo e o paraibano Ramalho.

Deixando um pouco a melancolia de lado, a comicidade é o mote de A saga de Ernesto, na qual os quadrinhistas justificam a ausência do malandro do Brás, que convidou os amigos para um samba.

O experimentalismo gráfico da página 41 da fuga entrequadros do personagem é um dos destaques da história.

Mané e Marinez (na canção, é Inez, mas os autores não usaram os nomes originais por causa dos direitos autorais) tem um clima mais lúgubre, evidenciado nos matizes de Davi Calil. Em todo o álbum, inclusive, a paleta de cores é trabalhada para o estado emocional dos personagens, a mudança de ritmo ou o clima da narrativa.

Pegando praticamente a ideia central de abandono da música Apaga o fogo, Mané, a profundidade psicológica do casal de protagonistas se vale de um narrador, mas o impacto maior está na sensibilidade “silenciosa” do seu final.

Por fim, Chipolla e bracholas usa os amigos do Ernesto da segunda história para contar de forma bem-humorada a “baita duma briga”, com direito à trilha sonora de outro clássico de Adoniran Barbosa, Trem da onze, de onde é retirado o título da HQ.

Além de oferecer profundidade aos personagens, Quaisqualigundum também é uma homenagem à “pauliceia desvairada”, usando como cenário os bairros da Mooca, do Brás e do Bixiga.

Geralmente, os desenhistas de super-heróis não mostram tanta desenvoltura no roteiro quanto no traço que os fazem populares. Uma grata exceção é Roger Cruz, que já estrelou em títulos norte-americanos de ícones no gênero como X­-Men e Homem­-Aranha, mas provou ser um grande contador de histórias, vide também seu primeiro álbum autoral, Xampu – Lovely Losers (lançado em 2010 pela Devir).

A bela arte pintada de Calil, ora guache, ora em aquarela, oferece ótimas passagens de tempo, personagens estilizados bem caracterizados e uma narrativa dinâmica que aproveita ângulos e planos cinematográficos.

Completando o ritmo de Quaisqualigundum, uma apresentação do jornalista e editor Sidney Gusman, texto nas orelhas da edição assinadas pelo rapper Emicida, biografias de Adoniran e dos autores, além de esboços, estudos e artes da dupla de criação.

A edição da Dead Hamster teve o apoio do Programa de Ação Cultural de São Paulo (ProAC).

Quaisqualigundum é um samba gráfico legitimamente brasileiro, que fica grudado na cabeça e nos dedos do leitor como um bom batuque improvisado cantarolando as canções de um dos maiores nomes da música popular do Brasil.

Classificação

5,0

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