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QUANDO LÁ TINHA O MURO... - LEMBRANÇAS DAQUI E DE LÁ

1 dezembro 2012

QUANDO LÁ TINHA O MURO... - LEMBRANÇAS DAQUI E DE LÁ

Editora: Tinta Negra - Edição especial

Autor: Flix (roteiro e arte) - Publicado originalmente em Da War Mal Was....

Preço: R$ 41,90

Número de páginas: 120

Data de lançamento: Setembro de 2011

 

Sinopse

Diversos relatos pessoais de quem viveu na Alemanha na época do muro que dividia o país em "do Leste" e "do Oeste". Ou em socialista e capitalista. Mas as diferenças entre um e outro lado iam bem além do regime de governo.

Positivo/Negativo

É bastante fácil assumir uma posição anticomunista hoje, no Brasil: há na história o registro de muitos regimes totalitários vermelhos pelo sangue derramado, que começaram em uma revolução popular e se firmaram com privilégios de selecionados.

Também é fácil abraçar uma causa anticapitalista por aqui: a concorrência desleal de mercado, um olhar concentrado nas abstrações da bolsa de valores em vez de se voltar para pessoas com fome ou que vivem cracolândias. De bônus, as crises financeiras cíclicas.

Por mais que nós, brasileiros, nos dividamos entre uma e outra ideologia - se é que muitos ainda se gastam com isso - o nosso país nunca foi cortado ao meio por um muro físico e separado por ideias distintas de maneira oficial.

Nem sequer é possível imaginar o que é viver em um país capitalista e ter os avós do lado de lá do muro, no meio dos comunistas. Ou ser vigiado por estar de um lado, mas preferir o outro.

Na verdade, quebra-se o clichê e é, sim, possível imaginar, criar empatia e ver a si mesmo numa situação como essa. Basta que uma obra consiga mostrar o que aconteceu, uma expressão que diga sobre lugares onde não se viveu ou se esteve.

E é justamente este o espaço que Quando lá tinha o muro..., do autor alemão Flix, ocupa.

O artista é muito competente na representação dos espaços, ao criar cenários repletos de detalhes e com diversos personagens. O seu traço passa longe da representação naturalista, com uma estilização muito forte, o que, decididamente, não significa simplificado. Que o leitor avalie a expressão dos personagens do álbum, por exemplo.

O esquema narrativo é simples e genial. Histórias de quatro páginas regidas majoritariamente por uma cor, em que um personagem diferente por conto, narra, em primeira pessoa, uma lembrança da época do muro. A primeira página traz o fundo com a cor da história e o nome do narrador, enquanto as outras três relatam.

As histórias foram ouvidas por Flix em entrevistas e posteriormente transformadas em quadrinhos. Ele mesmo abre o livro com o seu relato e, em seguida, dá voz aos demais.

Flix, além da sua qualidade de quadrinhista, é um dos artistas certos para este projeto, pois nasceu e cresceu em uma Alemanha dividida, viu a muralha ser posta ao chão e o território germânico voltar a ser um. Ele e todos os entrevistados.

As histórias variam muito: há algumas mais dramáticas e emocionais, outras infantis e quase tolas, anedotas, situações engraçadas, planos infantis, momentos de terror. Um belo apanhado da vida ordinária de cada um.

Essa diversidade emocional entre as HQs, faz com que todas ganhem em força. Não há o desgaste de se ler sete ou oito histórias de grande impacto - que, no final, já nem são mais tão impactantes. Ao justapor uma lembrança infantil a uma narrativa de fuga, ambas crescem.

E ao mesclar relatos de tantos pontos de vista diferentes, o leitor obtém um cenário semitangível, e é possível, por um momento, viver e conhecer aquela situação. Por um pequeno instante, entre o sair do espaço pra onde se vai ao ler e o lembrar de que se está aqui, é possível estar lá, em um dos lados do muro.

Um álbum bem ajustado, de excelente proposta e importante para marcar esse período representativo da história humana. A Tinta Negra fez uma boa aposta, com boa impressão, capa dura e formato adequado. Ficou a dever, no entanto, na divulgação e na distribuição da obra, que não é tão fácil de achar para a compra. Além disso, poderia ter evitado o cacófato "lá tinha" no título.

Quando lá tinha o muro... mexe com a memória do leitor. E não deve ser esquecido pelos apreciadores de quadrinhos.

Classificação:

4,0

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