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Crítica: Batman acerta ao explorar danos psicológicos e o lado detetive do herói

2 março 2022

Desde 1989, o Homem-Morcego ganhou várias adaptações cinematográficas. Entre (grandes) acertos e (terríveis) erros, um lado do herói sempre ficava em segundo plano ou nem sequer era abordado: suas habilidades como detetive. Batman bebe da fonte de obras como a fase escrita por Dennis O'Neil nos anos 1970 ou O Longo Dia das Bruxas (1996-1997) e entrega esse elemento com mestria.

A trama se passa no começo da carreira do Batman. Já com a confiança de Gordon (que ainda não é comissário), o herói procura salvar Gotham como forma de fazer o mesmo para sua alma. Um assassino em série – o Charada – começa a matar pessoas do alto escalão político da cidade, levando o protagonista a uma investigação sobre os crimes, corrupção e uma possível conexão com seus pais.

O foco na investigação domina o longa-metragem, resultando em poucas cenas de lutas. E, acredite, elas não fazem falta. Primeiro porque a trama é bem conduzida e mantém o interesse alto. Segundo, porque quando os momentos de pancadaria aparecem, são ótimos. A engenharia de som faz com que cada soco do Batman seja pesado como um martelo. Por isso, veja num cinema com boa acústica.

O som, aliás, é um trunfo do filme. O diretor Matt Reeves faz bom uso desse artifício para dar peso narrativo a personagens ou sequências. Há momentos em que Batman sai das sombras, mas antes de se tornar visível para qualquer um, tudo o que se houve são seus – pesados – passos, como uma criatura inumana prestes a surgir.

O diretor também brilha na sequência do batmóvel. Antes de ele aparecer, se escuta o rugido de seu motor. E ao quase não mostrar o herói dentro do carro, transforma o veículo numa força implacável, que não para de perseguir sua presa.

Nas mãos de Reeves, o batmóvel parece um monstro.

Como costuma ser, a escalação do ator principal sempre gera descontentamento e críticas, como vem sendo desde Michael Keaton, em 1989. Entretanto, bastam dez minutos para Robert Pattinson – que muitos vão começar a chamar de “Battinson” – convença e conquiste. Seu Bruce Wayne é pesaroso, curvado, sentindo o enorme peso do trauma que carrega. Seu Batman é imponente, e não precisa falar para mostrar presença e ameaça. Mesmo em cenas em que ele apenas observa os acontecimentos, o personagem está lá nos olhos do ator, mergulhado em trevas.

Trevas, aliás, representadas em outros aspectos, como no cenário da mansão Wayne, quase irreal com sua arquitetura gótica destoante do resto da cidade. Ela é um espelho de seu dono: sombrio, amargurado, com alma áspera e encardida, envolto em escuridão.

A trilha sonora de Michael Giacchino é soberba. É constantemente melancólica e pesarosa, mas ao mesmo tempo bruta e seca, como seu protagonista. Já quando lida com seu antagonista, os violinos rasgam as caixas de som, ilustrando a mente deturpada do Charada. Com direito a Ave Maria!

Este último, aliás, magistralmente interpretado por Paul Dano. Basta um close quando seu rosto está tocando o balcão de um restaurante para que fique claras a sua loucura, obsessão e crueldade.

Aliás, a atuação de todo o elenco é impecável. Colin Farrell está irreconhecível com tanta maquiagem para ser o Pinguim, mas se destaca e cria um personagem com certa excentricidade; Zoë Kravitz é uma Mulher-Gato cheia de camadas, várias delas pingando desejo de vingança, o que contrasta – e espelha – o de Wayne, com quem tem uma química cheia de eletricidade; e Jeffrey Wright traz um Gordon também raivoso (um tema que permeia o filme), mas que sabe gerenciar seus sentimentos para se manter centrado. Sua parceria com Batman rende boas cenas no quesito detetivesco da trama, que exala uma estética noir contemporânea.

Batman se propõe a lidar com os aspectos psicológicos de seu protagonista, espelhando-os em Gotham e seus habitantes. A fotografia não perde a chance de misturar preto com tons de vermelho, como pores do sol que banham a cidade numa atmosfera lúgubre e revoltosa, ilustrando um dos filmes mais intimistas a explorar o universo do personagem.

Com tamanha imersão, as quase três horas de duração passam voando e presenteiam os fãs com o melhor vilão do Batman desde o Coringa de Heath Ledger, em O Cavaleiro das Trevas, longa que rivaliza com este em termos de qualidade.

É verdade que há uma rápida cena pós-créditos que parece mais uma brincadeira da produção. Mas ela tem apenas poucos segundos de duração e, se piscar, vai perder. Se há algo a mais escondido ali, vai ficar mais fácil de confirmar verificando com calma depois.

Batman
Duração: 175 minutos
Estúdio: Warner Bros.
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves e Peter Craig
Elenco: Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Paul Dano, Jeffrey Wright, Colin Farrell, John Turturro, Andy Serkis, Barry Keoghan e Peter Sarsgaard

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