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Resenha: Viúva Negra, antes tarde do que nunca

16 agosto 2021

Após sua apresentação em 2010, no segundo filme do Homem de Ferro, Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) ganha seu merecido filme solo com vários anos de atraso. Membro original dos Vingadores no Universo Marvel Cinematográfico, e tendo se sacrificado para o sucesso do grupo em Vingadores – Ultimato, a expectativa de um longa que enaltecesse a heroína como a grande humana que é estava na mente de muitos fãs.

A demora para assistir Viúva Negra foi prolongada pela pandemia do Covid-19, que atrasou o filme em mais de um ano de sua data de lançamento original, chegando aos cinemas e à Disney Plus (mediante o preço salgado de R$ 69,90) em julho de 2021.

A trama se passa após os eventos de Capitão América – Guerra Civil, e traz a protagonista procurando se esconder das forças militares do general Ross. Tal fato, entretanto, é apenas um detalhe, pois o foco é nas relações mais pessoais de Natasha com figuras envolvidas na sua infância.

Essa decisão se mostrou um acerto, pois ao não precisar se preocupar em mostrá-la salvando o mundo, o roteiro reduz o escopo para tentar explorar a alma da protagonista, com seus fantasmas do passado e sentimentos mal resolvidos por pessoas com quem passou um período marcante de sua infância, compondo sua disfuncional família de espiões russos falsa constituída por Natasha, Yelena (Florence Pugh), Alexei (David Harbour) e Melinda (Rachel Weisz).

Após tantos anos interpretando a personagem, Johansson domina o papel. Assertiva, sua confiança transborda pela tela e conquista os fãs, que ainda se deleitarão com a ótima adição de Pugh. A atriz, além de ter presença, traz ótima química com a protagonista, rendendo as melhores cenas e fazendo diálogos mal colocados soarem naturais e orgânicos.

As interações entre as duas, todavia, ilustram um acerto do roteiro que acaba por realçar suas falhas. A trama funciona muito melhor quando gira em torno das irmãs, mas tropeça ao tentar incluir os pais, sem contar que a missão de derrotar o grande vilão da vez não tem bom ritmo e demora muito a ser apresentada.

Entretanto, não é algo que chame muito a atenção, pois este é um longa da Marvel trazendo tudo o que é característico do estúdio, com uma boa mescla de ação e comédia temperando a narrativa. Quem já gosta do estilo certamente encontrará entretenimento de qualidade aqui, mesmo que ele seja um exemplo de como o humor não funciona sempre, com momentos nos quais parece desconexo e causa a incômoda sensação de que o filme parou para contar uma piada – ainda bem que Harbour esbanja carisma e brilha como alívio cômico.

Já o que chama a atenção é que as motivações da protagonista para tomar a decisão de atender o chamado da aventura estão lá mais contadas do que mostradas. Se é fácil se conectar com ela quando precisa lidar com sua família, não ocorre o mesmo nos momentos em que o roteiro tenta ilustrar o peso que ela sente quando seu passado abusivo da Sala Vermelha e seu programa de criação de espiãs vem à tona.

É louvável a Marvel empoderar mulheres, mas ainda não encontrou o equilíbrio certo para isso. A temática de abuso e controle opressivo por uma figura masculina já foi (bem) utilizada com Gamora, Nebulosa e Capitã Marvel, mas é necessário bater em outras teclas. A luta por igualdade entre os gêneros é contra inúmeros obstáculos diferentes, como violência doméstica, salários menores, demissões por gravidez etc.

Repetir o mesmo tema pode resultar em uma sensação de artificialidade da mensagem bem intencionada, desperdiçando bom potencial de ajudar a difundir um ideal valoroso.

Contudo, Viúva Negra é um filme que se propõe a trazer elementos de filmes de ação e espionagem, e não decepciona. Com locações variadas, perseguições automobilísticas empolgantes e lutas bem coreografadas em ambientes fechados, percebe-se a inspiração em obras como a trilogia Bourne.

Aqui, cabe um elogio à diretora Cate Shortland, novata nesse tipo de trabalho e surpreendendo com o nível de adrenalina que entrega, variando diferentes ângulos e planos sem deixar cenas picotadas. É notável como o fato de Natasha não ter superpoderes é levado em conta. Quando toma um golpe, ela o sente (e, assim, o público também), tornando seus embates com o Treinador algo mais ameaçador e intrigante.

Para os fãs das sagas da Marvel no cinema, há referências a outros filmes e histórias pregressas da personagem que deliciam e divertem, como descobrir o que aconteceu em Budapeste; relembrar frases de Loki e Natasha em Vingadores; e até reconhecer figurinos e veículos.

O longa não tem o mais coeso dos roteiros, mas acerta ao tratar da humanidade de sua protagonista, ao focar em relacionamentos e redenção, em vez de aventuras galácticas que podem levar à destruição da Terra. Contrastar a família que Natasha encontrou nos Vingadores com a disfuncional criada artificialmente nos anos 1990 funciona para elevar a figura da personagem, que não hesita em se lançar contra qualquer ameaça para proteger pessoas queridas.

Viúva Negra não é nenhum filmaço, mas consegue exaltar sua protagonista como uma heroína durona, persistente e autoconfiante em seus valores. O roteiro pode não ser dos mais limpos, mas o coração de Natasha Romanoff, com certeza, é.

Viúva Negra
Duração: 133 minutos
Estúdio: Marvel Studios
Direção: Cate Shortland
Roteiro: Eric Pearson, Jac Schaeffer, Ned Benson
Elenco: Scarlett Johansson, Florence Pugh, David Harbour, Rachel Weisz, Ray Winstone, Ever Anderson, Violet McGraw, O-T Fagbenle, William Hurt, Olga Kurylenko

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